segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Versão adaptada de um poema contado

Não se deixem confundir pela similaridade dos dois títulos. O outro post refere-se a um poema que nunca chegou a ser contado, simplesmente porque não. Ao contrário, este de que vos falo agora tem sido contado, vezes sem conta, de uma e outra forma, com palavras de todas as cores e cheiros. E, não, não foram as palavras que não foram as adequadas. O muro que vislumbras é que é demasiado alto e denso. E não, as mãos não não atravessam muros mas os sentimentos sim.

A propósito de um pedido de alguém que leu o tal outro poema não contado e veio ter comigo: "A pedir um jeitinho também para mim ( ela ) . Julgo que seria um serviço muito útil à comunidade, criar um blog só com expressões de sentimentos alheios, com manifestações de pontos de vista em nome de outros, com uma retórica qualquer cujo objectivo primordial fosse a re-união e o re-entendimento. Com jeitinho até fazias fortuna."

[ela a tentar convencer-me]

- Ó pá... mas tu conheces alguém que tenha batido mais com a cabeça na parede do que eu?
- Mas tu consegues escrever.
- Mas os meus dons não surtiram efeito nenhum.
- Se calhar não é por causa das palavras. É pela qualidade da parede.

"Tenho dúvidas que alguém mude de ideias porque leu seja o que for. É escusado juntar mais verbo, menos adjectivo, mais nome, menos ritmo. Quando uma pessoa decidiu emocionalmente não nos ligar nenhuma, não há nada que se possa fazer. Cheguei a pensar que estaria a dizer as coisas erradas. Mas hoje acredito que não há melhor nem pior maneira de dizer uma coisa. Há melhores e piores maneiras de se ouvir. As vezes que mais fui ouvida, não cheguei a dizer nada. Para quem quer ouvir-nos, chega o silêncio. Não concordas?"

Concordo. Não é possível ouvir quando estamos rodeados de barulho, seja de que tipo for, sendo que o barulho mental é aquele de que mais dificuldade temos em nos abstrair. Mas isto tu sabes...

"Obrigada na mesma. No entanto, se quiseres investir just for fun naquilo que eu devia dizer ou naquilo que sinto que não soube transmitir, estás à vontade. Gostava de ver o exercício. Pode ser que eu me comova. Ou que me reveles um caminho novo que eu me esqueci de percorrer."

O jeitinho, a ajuda que me pedes passa muito pouco pelas minhas palavras e muito mais pela direcção na qual vão as tuas. O tal caminho novo que equacionas ter esquecido de percorrer.

" Mas porque me fazes tantas perguntas e levantas tantas hipóteses se são só isso mesmo? não passam de hipóteses."

Por isso mesmo, para que não deixes de lado nenhum dos caminhos que poderás percorrer. Para que não te centres no único que te mantém ligada ao teu foco de dor. Para que reencontres o caminho de volta para ti própria e não o que te afasta dele.

Repara, vou usar as tuas palavras e soprá-las noutra direcção. Quando as leres, em voz alta, deixa que sejas tu mesma o destinatário. Sente, de que forma elas vivem dentro de ti mesma. Fecha os olhos e repete estas palavras para ti própria:

"Sei-te de cor. Como fecham os olhos. As rugas que riscam os espelhos. Os cabelos alinhados. A tosse-tique-ritmado. Sinais. Olhar posto no infinito mas para dentro, na profundidade. Mau-humor. Coração ora mel ora pedra: a contradição que te desconcerta. Avisos de frágil na expressão do rosto como se fosses um caixote vindo de muito longe, lá dos confins da terra sem nome de onde vens. Como se pusesses um aviso para a quantidade de coisas que levas dentro: figuras quebráveis de gelo transparente.

Vejo-te quando fecho os olhos. E também consigo ver-te quando não os fecho.

Gosto de ti e agora sei que gosto de ti até ao fim da vida. Sem tamanho possível de conceber. Sem drama. A felicidade existe sem ti. Mas cheia de contra-senso, como se eu vivesse duas vidas em paralelo."

"Aquela dor persiste nas gargalhadas e sorrisos. Mesmo quando me sinto alegre. Sobretudo aí. Faltas-me sobretudo aí. Que eu sinto felicidade, sinto. Como esperei, como esperámos, lembras-te? Mas faltas-me tu para rir comigo do lado de dentro dela."

"Escrever não serve para nada se não serve para isto: para sermos ouvidos. Sempre que o fiz, bati com a cabeça nos muros erguidos. Sempre que falo contigo, as palavras não passam de uma boca cheia de verbos que se abre e fecha, inúmeras vezes, a encher-te o cérebro de ruido. Isso, apenas ruido. A verdade é que não me ouves. Sei lá qual é a qualidade do muro que ergueste.

[É como se não me ouvisse, como se não se ouvisse, nada a fazer.]"

Muito barulho em redor. Muitas distracções mentais. Só se duvida com a mente, só se ouve bem com o coração.

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