quinta-feira, 27 de março de 2008

Um dia

Um dia destes vou sair pelas ruas fora, despenteada e a gritar ao vento que estou viva.
Um dia destes vou acarinhar um ovo entre as minhas mão e fazê-lo viver, respirar, amar.
Um dia destes vou andar nua pelo mar revolto e sentir o meu corpo a flutuar de tanto suspiro em segredo.
Ai um dia, um dia vou correr descalça por entre uma tempestade e sentir cada gota passar a minha pele e tocar-me na alma.
Um dia vou voar, mas tão, tão alto, que vou conseguir vislumbrar a minha sombra do outro lado do planeta.
Um dia destes vou olhar nos meus olhos e ver a cor de todos os meus sentimentos.
Um dia vou sentar-me numa varanda, no crepúsculo, e reviver todos os momentos e pessoas que por mim passaram.
Um dia vou rebolar por um prado repleto de flores frescas e sentir o seu cheiro em mim.
Um dia vou viajar numa nuvém e ver tudo o que agora não consigo ver, lá bem ao longe.
Um dia, ai um dia, vou agarrar o sol com uma mão e a lua com outra e apresentá-los.
Um dia destes vou estender os meus braços e tocar uma estrela.
Um dia vou cantar em segredo para um cometa e murmurar-lhe palavras quentes.
Um dia destes vou perseguir-me por um labirinto sem início nem fim.
Um dia, um dia vou viver cada emoção no seu tom original, sem desafinar ou sair do ritmo.
Um dia destes vou provar todos os sabores que não tive ainda coragem e sorrir.
Um dia destes não vou mais esperar por esse dia e vou sair de dentro de mim, como quem quebra a casca de uma noz ou rompe um casulo e deliciar-me com tudo isto por um segundo que nunca acabe.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Ausência

Já tinha desligado o pc, estava a iniciar a minha sessão diária de reiki quando senti esta vontade de voltar aqui, neste momento.
Não tem acontecido muito ultimamente, é um facto. Dei por mim, há uns dias, a pensar se não estava a entrar novamente no ciclo do "fim de blog" e não voltaria aqui com palavras e coisas para dizer. Mas, cá estou.
Não sei bem a dizer o quê, é uma verdade, mas tinha que vir simplesmente porque o motivo que me tem mantido afastada tem-se escondido por detrás do véu da falta de tempo. É o que todos fazemos em algum momento, acho. Quando deixamos algo de lado, normalmente argumentamos com a falta de tempo. Na grande maioria dos casos, a falta de tempo é sinónimo de qualquer coisa que não tem que ver com tempo ou ausência dele.
No meu caso, a falta de tempo usou-a a minha mente como justificação. O verdadeiro motivo está muito além do tempo. O tempo gira em torno de nós, no exterior, vive por entre as estruturas a que nos tentamos manter seguras a todo o custo, as tais que são instáveis, todas elas. Mas, dentro de nós não existe tempo, não existe porque no interior de nós existe a presença, a consciência e essa não tem tempo, não se desloca entre o passado e futuro, simplesmente está, vive, existe. Logo, não tem sido falta de tempo mas, ao contrário, o estar nele, o permanecer.
Percebi agora, que ficar, permanecer, estar, não implicam necessariamente a nossa ausência de outros locais ou pessoas. Não. Significa que podemos levar-nos até esses locais ou pessoas de uma forma também presente, estando e permanecendo em cada um deles. Ainda que, permanecer e estar não sejam reconhecidos no formato habitual. Ainda que, nem sempre consigamos tocar ou ser tocados, cheirar ou ser cheirados. Ainda que, nem sempre aqui venha escrever algo. Mas estou aqui, porque sou.


quarta-feira, 12 de março de 2008

Para a caminhante da luz

Voltar-se para dentro não é movimentar-se, absolutamente. Ir para dentro de si não é deslocar-se. Voltar-se para dentro simplesmente significa que você tem estado perseguindo um desejo atrás do outro, que esteve correndo cada vez mais, para chegar repetidas vezes à frustração; que cada desejo traz infelicidade, que não existe nenhum preenchimento por meio de desejos; que você nunca chega a lugar nenhum, que o contentamento é impossível. Percebendo a verdade de que correr atrás de desejos não leva a lugar nenhum, você acaba parando. Não que você faça algum esforço para parar. Se você fizer qualquer esforço para parar, de uma maneira subtil você ainda estará correndo atrás de alguma coisa novamente. Você ainda está desejando -- talvez, agora, seja a ausência de desejo o seu desejo.

Se estiver fazendo algum esforço para voltar-se para dentro, você ainda estará saindo de si mesmo. Qualquer esforço só poderá levá-lo para fora, em direcção ao exterior. Todas as viagens são viagens para fora -- não há viagem para dentro. Como você pode viajar para dentro de si mesmo? Você já está ali, não faz sentido ir. Quando o deslocar-se cessa, a viagem desaparece; quando não há mais nenhum desejo obscurecendo a sua mente, você está dentro. A isso é que se chama voltar-se para dentro. Mas não se trata absolutamente de um deslocamento, trata-se simplesmente de não sair para fora.

Osho This Very Body The Buddha Chapter 9

sábado, 1 de março de 2008

Milarepa e o falso mestre

O Osho Tarot de transformação, dá-nos histórias, pensamentos, lendas, das tais que tanto tenho usado. São oportunidades de meditação diária, simples mas complexas no seu conteúdo e, especificamente, na forma como gerimos estes comportamentos diariamente. Vou passar a deixar por aqui algumas destas histórias mais frequentemente.

A coisa real não é um caminho. A coisa real é a autenticidade do buscador. Deixe-me enfatizar isso.

Você pode percorrer qualquer caminho. Se você for sincero e autêntico, atingirá seu objetivo. Alguns caminhos serão difíceis, alguns podem ser mais fáceis, alguns podem ter folhas verdes de ambos os lados, outros podem passar através de desertos, haverá caminhos com um belo cenário ao redor deles, enquanto em outros não haverá cenário algum, essas coisas fazem parte do caminho, mas se você for sincero, honesto, autêntico e verdadeiro, então cada caminho lhe conduzirá ao objetivo.

Então é possível reduzir tudo a uma só coisa: a autenticidade é o caminho. Não importa qual o caminho escolhido, se você for autêntico, cada um deles conduzira a meta. O contrário também é verdadeiro: não importa que caminho você seguir, se não for autêntico, não alcançará lugar algum. Sua autenticidade lhe traz de volta ao lar, nada mais. Todos os caminhos são secundários. O básico é ser autêntico, verdadeiro.

"Conta-se sobre um grande místico, Milarepa:
Quando foi encontrar seu mestre no Tibet ele era tão humilde, tão puro, tão autêntico, que os outros discípulos ficaram com inveja dele. Era certo que ele seria o sucessor. E é claro, que havia política envolvida, assim eles tentaram matá-lo.

Um dia disseram a ele, “Se você realmente acredita no mestre, pode pular da montanha? Se você realmente acredita, se tiver confiança, então nada irá lhe acontecer, você não irá se machucar.” E Milarepa saltou, sem hesitar por um momento sequer. Eles correram para baixo, pois era uma queda de quase mil metros. Eles desceram esperando encontrar os ossos dele espatifados, mas encontraram-no sentado numa postura de lótus, muito feliz, imensamente feliz. Ele abriu os olhos e disse, “vocês estão certos, confiança protege.”

Pensaram que isso devia ser alguma coincidência. Uma outra vez, quando uma casa estava pegando fogo, disseram a ele: "Se você ama seu mestre e confia nele, você pode entrar lá.” Ele entrou correndo para salvar uma mulher e seu filho que estavam lá dentro. O fogo era tão intenso que os outros discípulos esperavam que ele morresse – mas quando ele saiu com a mulher e a criança, não havia sequer uma queimadura em seu corpo. E ele ficou ainda mais radiante, pois a confiança protege.

Um outro dia eles estavam indo a algum lugar, e tinham que atravessar um rio, e disseram a ele, “Você não precisa ir no barco. Você tem uma confiança tão grande, que pode andar sobre o rio” – e ele andou.

Essa foi a primeira vez que o mestre o viu fazendo essas coisas. Ele não sabia que tinham dito a Milarepa que pulasse da montanha ou entrasse na casa em chamas. Mas dessa vez ele estava ali na outra margem e ele viu Milarepa caminhando sobre as águas e disse: “O que você está fazendo? Isso é impossível!”

E Milarepa disse, “Não é impossível de jeito nenhum! Estou fazendo isso através de seu poder, meu senhor.”

Então o Mestre pensou, “Se meu nome e meu poder podem fazer isso a esse homem estúpido e ignorante, imagine comigo. E eu mesmo nunca tentei..." Assim ele tentou fazer o mesmo. Ele afogou-se. Nunca mais se ouviu falar nele depois desse dia."

Osho Zen Tarot / relacionamentos

Por vezes apetece-me escrever sobre vários temas mas depois, começa a procura das palavras que exprimam de uma forma clara e despreconceituosa a essência de alguns deles. No entanto, se me é relativamente fácil encontrar as palavras adequadas a algumas coisas, no que diz respeito a umas outras tantas, a coisa não flui da mesma forma. Talvez porque ainda não vivam de forma plena em mim, talvez porque outros o tenham já dito de forma tão límpida que não há muito mais a acrescentar.
Por isso mesmo, nos últimos tempos tenho dado comigo a contar mais histórias e lendas do que propriamente a tentar explicar o que quer que seja. As explicações, percebi eu, trazem muito das nossas identificações e (pre) conceitos e, na grande maioria das vezes, acabam por desviar a atenção de quem ouve para longe de si próprio.
Tanto que temos falado de relacionamentos nos últimos tempos que queria escrever algo mais concreto sobre o tema. Mas, de facto, encontro noutras palavras já escritas uma expressão largamente melhor construída do que a minha algum dia poderia vir a ter e, certamente, mais sentida porque há muito trabalho ainda para fazer por aqui...
Decidi transcrever algumas palavras do Osho Zen Tarot, porque Osho é uma daquelas energias que vive em cada uma destas palavras, tendo permitido que essas mesmas palavras vivessem dentro de si.

"É preciso ter em mente estas três coisas: o amor de nível inferior é o sexo -- este é físico -- e o refinamento maior do amor é a compaixão. O sexo encontra-se abaixo do amor, a compaixão está acima dele; o amor fica exatamente no meio.

Bem pouca gente sabe o que é o amor. Noventa e nove por cento das pessoas, infelizmente, pensa que sexualidade é amor -- não é. A sexualidade é por demais animal; certamente, ela contém o potencial para transformar-se em amor, mas ainda não é amor, apenas potencial...

Se você se tornar consciente e alerta, meditativo, então o sexo poderá ser transformado em amor. E se a sua atitude meditativa tornar-se total, absoluta, o amor poderá ser transformado em compaixão. O sexo é a semente, o amor é a flor, compaixão é a fragrância.

Buda definiu a compaixão como sendo "amor mais meditação". Quando o seu amor não é apenas um desejo pelo outro, quando o seu amor não é apenas uma necessidade, quando o seu amor é um compartilhar, quando seu amor não é de um pedinte, mas de um imperador, quando o seu amor não está pedindo nada em troca, mas está pronto para dar apenas -- dar só pela total alegria de dar --, então, acrescente a meditação a ele, e a pura fragrância é exalada. Isso é compaixão; compaixão é o fenômeno mais elevado.

Aquilo que chamamos de amor é na verdade todo um espectro de modos de se relacionar, abrangendo desde a terra até o céu. No nível mais terreno, o amor é a atração sexual. Muitos de nós continuamos presos nesse nível, porque o condicionamento a que fomos submetidos sobrecarregou nossa sexualidade com toda sorte de expectativas e de repressões.
Na verdade, o maior "problema" do amor sexual é que ele nunca perdura. Só quando aceitamos tal fato é que podemos celebrá-lo pelo que ele realmente é -- dar as boas-vindas a seu aparecimento, e dizer adeus com gratidão quando ele se vai.
Então, à medida que vamos amadurecendo, podemos vivenciar o amor que existe além da sexualidade, e que honra a individualidade singular do outro. Começamos a compreender que o nosso parceiro funciona freqüentemente como um espelho, refletindo aspectos desconhecidos do nosso ser mais profundo, e ajudando-nos a nos tornarmos completos em nós mesmos.
Esse amor é baseado na liberdade, não em expectativas nem na necessidade. Em suas asas, somos levados cada vez mais alto em direção ao amor universal, que vivencia tudo como uma coisa só."