segunda-feira, 16 de junho de 2008

Procura-se: Alma gémea.

Os fenómenos sociais são de facto extraordinários. Estudá-los e analisá-los tem sido uma imensa fonte de crescimento a todos os níveis.

O conceito de alma gémea tem sido algo tão explorado nas últimas décadas que já roça o aborrecido, o número de livros e filmes que falam de como encontrar a nossa alma gémea ou de alguém que encontrou a sua e viveu feliz para sempre. Arghhhh

É extraordinário o processo que fazemos de nos despirmos de tudo o que é belo e existe em nós e colocá-lo longe, sabe-se lá onde, para depois passarmos o resto da vida a juntar os pedaços que espalhámos por aí.

Como autómatos, engolimos estas baboseiras pré-fabricadas e entoamos estas palavras num tom especial, quase divino. A minha alma gémea...

Primeiro retiraram Deus de dentro de nós e colocaram-no num lugar que ninguém vê, mas tem que acreditar que lá está e, melhor ainda, dita os destinos de todos nós. Claro, é muito mais fácil, para o bem e para o mal, culpar Deus, o Diabo ou a má sorte pelo que quer que aconteça no nosso caminho. Posto isto, temos três tipos de pessoas. As que se condenam a viver deusificadas toda uma vida, sem encontrar a verdadeira divindade dentro de si mesmo, mas entregando as suas vidas a conjunto de normas e regras que servem tão bem os interesses de alguns. As que vivem vazias porque não acreditam no Deus instituído mas também não o encontram dentro de si. E, finalmente, as que se aceitam como seres plenos e descobrem a divindade que habita em si próprio.

Depois, cortaram-nos ao meio, tipo laranja e atiraram uma das metades para o outro lado do mundo, dizendo-nos: Só serás verdadeiramente feliz quando encontrares a tua outra metade, a tua alma gémea.

E, lá vêm todos os peritos em almas gémeas e meias laranjas dizer-nos que a tua alma gémea é esta ou aquela pessoa, blá, blá,blá... Vendem-se livros, fazem-se filmes, cobra-se dinheiro, tudo para encontrar a tal alma gémea.

Pois, desculpem-me todos os peritos no assunto, mas eu recuso-me a aceitar que sou um ser incompleto e que metade de mim anda por aí a vaguear. Tal como me recuso a aceitar que Deus está fora de mim e não em mim.

Se há algo que aprendi com o tempo é que se não tivernos nós mesmo a capacidade de nos amarmos e fazer felizes mais ninguém o poderá fazer.

Lamento se é mais fácil deixar para outros a tarefa de nos amar mas, garantidamente, não se dá o que não se tem ou o que não se sabe dar. Não se dá amor quando não se sabe amar e não é possível amar verdadeiramente outra pessoa antes de nos termos aprendido a amar a nós próprios. Até o termos conseguido fazer, como alguém que conheço costuma dizer:"tudo o resto é bebedeira do ego".

Porque é que esta verdade é mais verdade que a outra? Não é mais nem menos verdade. É aquela em que acredito e que me permite sentir inteira e completa. Permite-me aceitar a responsabilidade pelas minhas escolhas e pela tarefa de me amar da forma mais plena de todas.
Permite-me tomar as rédeas da minha vida e não deixá-la a flutuar, por aí, qual barco sem rumo, condenado ao destino que alguém ou alguma coisa tenha para mim desenhado.

É esta a verdade pela qual me guio e que me ajudou a fechar um ciclo de agonia e sofrimento em busca da tal outra metade de mim. Porque, ao contrário da história que nos tentam vender, só existe uma alma gémea para cada um de nós e essa está dentro do nosso coração, no mais profundo do nosso ser.

Por isso, a todos aqueles que ainda continuam nesta busca só posso dizer: Não procurem para além das fronteiras do vosso ser, do vosso interior. Tudo o resto é uma viagem que apenas vos leva para mais longe de vocês próprios.

domingo, 15 de junho de 2008

Epah não leiam isto

Isto é um puro acesso de loucura, por isso não percam tempo com leituras.

Nenhures. Sei, porque dizem, que fica algures por aqueles lados da banda de lá para uns e de cá para outros.

- Espelho, espelho meu, existirá no mundo alguém mais feio do que eu? É que a pergunta assim tem muito mais graça! Ahahahah. Sim, espelho, eu sei, eu sei… Nenhures…

Na manhão fria, de um dia cinzento com muita chuva à mistura chegou lá a casa uma menina. Os seus olhos gritavam alegria e as longas tranças embalavam um sonho distante, perdido entre montes e vales de um cabelo negro que parecia não ter fim. Foi então que veio o pai natal, mais o palhaço e foram todos num comboio para o circo.

O comboio descarrilou e ao longe, numa placa já apagada pelo tempo, lia-se: Nenhures.

As pequenas coisas

Este mundo é grande, gigantesco e nele passam-se coisas igualmente gigantescas.
Grande, imenso é também a importância que damos a certas coisas, como o carro que conduzimos, a casa onde vivemos, a roupa de marca que vestimos, os perfumes que usamos, etc… Levamos uma vida inteira a perseguir sonhos imensos, estabelecemos objectivos distantes e deixamos de viver para os atingir mas quando lá chegamos, se chegamos, o tempo já é muito pouco para usufruir deles em pleno. Estamos velhos, doentes e sem paciência e já nem nos lembramos dos motivos que nos levaram a fazer algumas das escolhas que fizemos.

Mudamos e não entendemos porque não aproveitámos todos aqueles anos para estar com as pessoas que amamos em vez de passarmos o dia com estranhos, que mal conhecemos mas que tentamos impressionar a todo o custo, mais uma vez, com o que conduzimos, vestimos, cheiramos, etc. Não entendemos porque vivemos a correr e nunca reparámos na árvore centenária e majestosa que está todos os dias no caminho que fazemos ou no maravilhoso quadro de flores que nos sorriem quando passamos com tanta pressa ou ainda no olhar triste de um personagem chamado Jeremias que dorme há anos numa escada de pedra fria e suja no prédio ao lado do nosso.

Um dia, quando finalmente olhamos e vemos tudo isto , parece-nos um quadro novo, acabado de pendurar mas está velho e desgastado de tanta indiferença, de tantos olhares apressados. E é então que percebemos o que são as tais pequenas coisas de que tanto se fala… São as pequenas coisas esquecidas num mundo de gigantes. Aquelas que, no final, procuramos no mais intimo do nosso ser e as únicas que preenchem o vazio de uma vida inteira de procura frenética.

São as palavras que nunca dissemos por falta de tempo e que nos pesam e queimam o peito quando é tarde demais e já não há ninguém para as ouvir. São os momentos que não partilhámos e deixámos para mais tarde… mas é tarde.. São os carinhos que não se fazem por vergonha ou teimosia e que ficam marcados no tempo que não perdoa incertezas.

É a vida, bela, cruel e misteriosa, mas breve como uma brisa suave que passa despercebida. São as pequenas coisas…

As ruas de uma vida

E então, quando vem a noite as pedras da calçada correm sem destino. As vidraças dos prédios reflectem a imagem esbatida do mendigo de pele gasta e sem idade. Uma rua que sobe em direcção ao céu cinzento e desenha uma núvem em forma de porta que nos convida a entrar. Do lado de lá da porta, nada. O vazio. A solidão dos dias que nascem, uns atrás dos outros, sempre como esperado.

São muitas as portas, muitos os céus, mas a mesma cor, o mesmo vazio e a mesma ordem.

A rosa não tem forma. As pétalas não têm forma nem cheiro. É a dor alucinante de não saber quem se é. O vulto sombrio no final da rua acena e deixa as memórias de uma vida estilhaçada. Sente frio nos pés, está descalça e os seus pés sangram dos pedaços de vidro de tantas vidas. A cada passo mais e mais memórias entranham-se na carne e maior é a dor, a dor de não saber que pedaços são seus.

O peito explode e de dentro dele saem mil almas aprisionadas, contorcendo-se numa dança de fogo e vento. Ao longe, uma mulher de olhar sereno contempla o rio e lembra uma outra vida.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

O peso da vida

Quanto peso tem uma vida, a tua vida?
Quanto peso levas contigo quando sais da cama de manhã?
Quanto pesa cada lembrança, cada memória?
Quanto mais caminho consegues percorrer com todo esse peso?
O que acontece se largares algum desse peso? O que vai embora com ele? O que temes perder?
Quanto dele é verdadeiramente teu?
Onde estás tu por detrás de tudo o que carregas? Quem és tu realmente?
Porque te vestes de sol e de lua ao mesmo tempo quando não é possível ao dia ser noite e à noite ser dia?
Porque caminhas no escuro de um corpo, sem destino? Porque segues a estrada que se afasta de ti próprio?
Volta a casa, volta a ti, lembra-te do caminho de regresso a casa...