sábado, 29 de novembro de 2008

Versão adaptada de um poema não contado

Estava eu a falar ontem com uma amiga sobre como estava a ser díficil para ela chegar dentro de alguém a quem quer muito chegar. Falou-me de uma pergunta não respondida porque sabia que aquele não era o momento certo.
Fiquei com as palavras dela no ouvido. Cada querer soou como um poema de vontades inacabas que não conseguiam fazer-se guerreiras o suficiente para vencer as muralhas do medo.

- Epah, isso dito assim dava um poema! Disse eu.
- Ah isso dos poemas é a tua onda, faz tu e pôe no teu blog. Pode ser que um dia ela (a pessoa ) vá lá ver...

Esta é a versão adaptada do que alguém quiz dizer num momento e não conseguiu, porque não, porque não era a altura certa, porque a voz falhou, porque sabia não ter espaço.

Quero o não óbvio. O toque, o estremecer, o olhar.
Quero uma respiração abafada perto do meu peito que conte as tuas mágoas, assim, sem palavras.
Um abraço que aqueça todo o meu corpo e o faça tremer de sentimento.
Quero que cruzes os meus dedos com os teus e deixes que a tua história se conte, no silêncio.
Que sintas o bater do meu coração e que nele viajes por um tempo de tranquilidade e segurança.
Quero que em mim consigas deixar um pouco de ti.
Que sorrias num momento de prazer e me encontres nele.
Quero que me mostres algo novo de ti.
Que te permitas sentir, sentir-me.
Quero que atravesses o deserto e venhas na minha direcção.
Que o teu corpo flua em movimento e vença a inacção.
Quero contar as linhas do teu rosto e saber o dia em que nasceram.
Que aqui encontres uma história que ouviste um dia.
E quero que fiques só mais um pouco. Por mim, pela minha história, porque queres ficar.

Missão cumprida ;)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Os mestres da nova era

Ora, estava eu muito bem sentadinha na minha cadeira, na loja, a despejar referências para um maravilhoso programa de contabilidade, quando entra um indíviduo e me diz: Vi um papel ali fora a dizer que fazem reiki. E eu, sim. E ele continua: Ahh então fazem Reiki aqui, é isso? Ao que eu respondi, sim, tal como está escrito no papel,fazemos. E ele: Ahh pronto, é bom saber essas coisas. E eu, sorri... Do nada, vira-se e diz: Sabe, eu sou mestre de Reiki. E eu... não me ocorria nada mais para lhe dizer para além de: Bom para si! Mas, continuei apenas a sorrir... Ao que ele, não satisfeito com o facto de eu poder não ter ouvido bem a afirmação, repetiu: É que eu sou mestre de Reiki! Não consegui encontrar mais nenhuma resposta, sem ser o meu silêncio que deve ter feito algum ruído, ainda assim, porque a pessoa deu meia volta e saiu.
Isto é assustador. Como é que é possível que com o número de mestres que andam espalhados por todo o lado, o mundo esteja no plano em que está? Seria de esperar que algum equílibrio mais tívessemos já conseguido alcançar com tanto ser humano sábio e tanta mestria.
Nos últimos 2 a 3 anos, tenho conhecido mais mestres que pessoas "normais". É uma pena que se tenha perdido o verdadeiro sentido do que é um Mestre e que a meta seja muito mais o "cargo" do que o aprendizado e o crescimento.
O mais engraçado de tudo isto ainda é o facto de ter já conhecido algumas pessoas que, na minha opinião, se poderiam intitular verdadeiramente de mestres mas como estas têm humildade e sabedoria suficientes para entender o caminho que ainda têm para percorrer, recusam o título. Para mim, algumas dessas pessoas foram realmente mestres, mestres que me ensinaram coisas tão importantes que não poderia descrevê-las. Por vezes, um simples olhar, sorriso ou silêncio.
Fico grata por todos os meus mestres não o serem e por me terem permitido cruzar com eles.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O medo

O medo é o pior dos sentimentos.
Torna-nos pequenos, transforma o que nos rodeia em monstros com sete cabeças, qualquer uma delas pronta para nos engolir a todo o momento.
O medo vive em nós como a âncora de um barco que quer navegar para longe mas é impedido por forças incumensuravelmente maiores. O medo mantém-nos preso a lugares de que já nem temos lembrança.
Vou, não vou. Fico, não fico. Digo, não digo. Sou, não sou. Vivo, não vivo, morro...
Medo de ti, de mim, do mundo. Medo de ir e não voltar.
O medo tolhe-nos e, com o tempo, as marcas dele vão ficando impressas nos corpos que passeiam pelas ruas, desalinhados, encolhidos, sempre à procura da esquina que vem a seguir.
Foge-se não se sabe bem de quê, indo não se sabe bem para onde e, pelo meio, perdêmo-nos a nós próprios.
Medo é condição de infelicidade conscientemente disfarçada.

domingo, 9 de novembro de 2008

Desassossego


A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo.

Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos sonhado, intacto, eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.

Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'