Como a maioria das crianças com que cresci, a palavra Deus e o conceito que vinha com ela acompanharam-nos durante todo o processo de crescimento.
O meu primeiro contacto com este conceito aconteceu cedo. Com pouco mais de 7 anos entrei para uma escola marcadamente católica onde a relação com Deus e a forma como tínhamos que nos comportar para sermos aceites por ele, nos eram martelados minuto a minuto. Era um mundo à parte. Não existia um director da escola mas uma madre-superiora que me lembro fazer questão de ser reconhecida como tal em todas as conversas. O edíficio era antigo, como não podia deixar de ser, e as salas eram frias e desprovidas de qualquer conforto. Afinal de contas, para Deus gostar de nós não podíamos estar resguardados do frio do inverno e tínhamos que penar e esperar pelo soar do fim do dia para podermos voltar a casa. Lembro-me, também, que não podia vestir calças porque apesar da escola ser mista vivia-se um clima de terror latente, não fossem os rapazes aperceberem-se de que eramos raparigas e vice-versa. As calças, dizia a madre-superiora, marcavam o corpo, deixavam notar o corpo feminino e chamavam a atenção dos rapazes. Só com isto já tinha um problema, odiava saias, vestidos e tudo o que não fossem calças.
Quarta-feira, às 9h, era dia de missa e não falhava nem se o padre estivesse doente porque se arranjava logo um substituto. Nesse dia, a família podia estar presente e partilhar da palavra do senhor. Pena que o senhor falasse sempre tão baixo que não o conseguia ouvir. Para tal servia o padre, o tal interprete da palavra do senhor, diziam. Ao contrário também não funcionava muito bem, o senhor também devia ter problemas auditivos...
Sempre me senti deslocada naquele sítio. Não tinha pais ricos, não partilhava do mesmo background cultural e social das restantes crianças e sentia-me claramente excluída. Não tínhamos os mesmos gostos, não fazíamos os mesmos planos de fim-de-semana e o ambiente familiar não podia ser mais diferente. Mesmo assim, por insistência, queriam que permanecesse naquela escola. Claro está, que o resultado não podia ser famoso e com o tempo a madre-superiora brilhantemente percebeu que eu era uma criatura das trevas e não me enquadrava naquela escola pelo que chamou os meus pais e aconselhou-os a procurar uma escola onde me enquadrasse melhor; que foi o mesmo que dizer, fui expulsa e só não usaram essa palavra porque o valor que cobravam mensalmente não lhes permitia usar dela.
Mas, não foi fácil chegar a esse momento. Passei por um ano de orelhas de burro, reguadas, puxões de orelhas e tudo o mais que se fazia ali em nome do senhor. "Aqui as crianças crescem segundo as leis do senhor" era o que tanto se ouvia por aqueles corredores. Bom, se alguma vez estivemos de acordo foi quanto ao facto de que os caminhos do senhor são, de facto, turtuosos.
Havia um dia específico para as confissões em grupo, já não me lembro qual o dia, mas juntávamo-nos todos numa sala e cada um tinha que confessar, alto e bom som, os pecados que tinha cometido durante esses dias. Pior do que confessar os pecados era encontrá-los e o dia anterior era sempre dia de fazer uma lista e inventar coisas, pecados, que sabia iriam fazer os olhos da madre-superiora brilharem. "Ontem estava tão cheia de ódio que agarrei num sabonete, novinho em folha, que estava na casa-de-banho, arranhei-o todo e arranquei pedaços inteiros com as unhas. Depois, voltei a colocá-lo no suporte, já defeituoso e nada com aspecto de sabonete novo..." Lembro-me como se fosse hoje, os olhos dela vibraram, bateu na mesa com a palma da mão e disse: " Que coisa mais horrível de fazer! O que é que a menina acha que Jesus achou disso? Acha que ficou contente consigo?" Encolhi os ombros e fui para a capela fingir que rezava o número de pai-nossos e avé-marias que me iriam salvar do inferno, por ter destruído um sabonete perfeitamente bom e novo.
Mas, o pior dos piores cenários aconteceu com a ida a Fátima. Milagrosamente, coincidiu com a vinda do pápa a portugal e instalou-se o caos naquela escola. Era a loucura dos preparativos e lá fomos todos em camionetas abençoadas para fátima. O calor não se aguentava, estavam milhares e milhares de pessoas e não havia uma sombra. Lembro-me, como hoje, de perceber que de toda a comitiva era a única que parecia incomodada e muito pouco entusiasmada com todo aquele reboliço. Todos procuravam um lugar melhor, queriam ver o pápa, queriam a melhor vista. Eu, só queria mesmo sentar-me, de preferência à sombra, e conseguir um pouco de espaço livre para respirar sem ter que inalar o odor de um outro corpo colado a mim. Foi a histeria completa. Senti-me mal e só me lembro de acordar já na camioneta, de volta a casa. Uns dias depois, veio a conclusão de que não me enquadrava naquele modelo educativo e que a bem do meu interesse deveria mudar de escola. E lá fui eu para uma escola "normal" onde, aparentemente, o senhor não conseguia ver nem ouvir e estavamos todos a salvo. A salvo, entenda-se do inferno.
Ao longo dos anos a minha relação com Deus passou pelas mais variadas fases. Ouvi relatos e mais relatos de experiências e opiniões pessoais, li e reli em busca de algo que me trouxesse uma resposta. Finalmente, quando já não tinha mais onde procurar a um nível físico, concluí que a resposta tinha que estar dentro de mim. Ou acreditava ou não acreditava. Ou tinha ou fé ou não tinha. Tudo se resumia à crença individual e única de cada um. Com o tempo, fui criando a minha própria forma de aceitar Deus na minha vida, fui deixando pequenas coisas de parte que não me faziam sentido mas, ao mesmo tempo, permaneciam sempre alguns pós da essência que era acreditar em Deus. Mas, o meu sinal de alerta mantinha-se ligado. O puzzle ainda não estava completo e algumas das peças encaixavam a muitoo custo.
O teste, sentia-o sempre que me era colocada a pergunta: "Acreditas em Deus?" Sim, era a resposta automática. Depois, vinham todas as minhas explicações de como acreditava num Deus diferente, com esta e aquela alteração. Isto porque, interiormente, não tinha ainda encontrado a capacidade de assumir a verdade que sentia. Sempre que demorava mais a responder à pergunta e me preparava para acusar uma resposta negativa sentia uns olhos do tamanho do mundo postos em cima de mim, os olhos da madre-superiora, talvez, ou dos santos que o meu avô mantinha em cima da sua mesa de cabeceira, quem sabe.
O peso da crença familiar, social, faz-nos perder a força para aceitar a nossa própria verdade. O medo, disfarçado de argumentos lógios, leva-nos a afastar-nos mais e mais de nós próprios, a anularmos a voz que nos grita do fundo de nós mesmos.
Levei anos a conseguir afirmar que não acredito em Deus. Anos e anos de conquista da minha vontade interior, sem punição ou castração. Sem recear a sala de confissão de pecados.
Alguém dizia, um dia destes, que mesmo quem age de forma menos boa em relação aos outros está igualmente a fazer um trabalho na direcção do bem, porque nos permite constatar o seu erro e afastarmo-nos dessa forma de acção. Assim sendo, obrigada madre-superiora.
É um facto, que não existirá melhor ferramenta de controlo que esta da crença, seja ela no que for. Osho, disse algo do tipo " Todo o homem que vos der um sistema de crença é vosso inimigo". E os inimigos do Homem estão à vista, espalhados entre igrejas e governos, entre países e linguas diferentes, mas todos utilizam a mesma poderosa ferramenta.
O triste da coisa é que enquanto nos mantivermos a olhar para o céu, não conseguimos olhar para dentro de nós. Enquanto pudermos usar Deus como desculpa para os nossos próprios erros e escolhas, não as vamos aceitar e tomar responsabilidade por elas. Enquanto não matarmos definitivamente o Deus que veio com a cassete de formatação inicial, não conseguiremos encontrar a divindade que vive em nós. E, mais triste ainda, enquanto tudo isto não acontecer, todo o trabalho em prol de outro será pura projecção de ego, uma mera tentativa de preenchimento de vazios pessoais. Todo o serviço ao outro não passará, na realidade, de serviço a nós próprios, todo o amor que brotar de nós chegará ao outro contaminado, cheio de ansias e vontades individuais de compensação. Enquanto não matarmos este Deus e nos encontrarmos connosco próprios, estamos condenados a viver apenas na sombra de algo que poderia ser.
É preciso matar Deus para voltar a encontrá-lo, num outro plano, numa outra forma, na pura manifestação de energia que é a vida e no que de divino existe em todos os seres.
O meu primeiro contacto com este conceito aconteceu cedo. Com pouco mais de 7 anos entrei para uma escola marcadamente católica onde a relação com Deus e a forma como tínhamos que nos comportar para sermos aceites por ele, nos eram martelados minuto a minuto. Era um mundo à parte. Não existia um director da escola mas uma madre-superiora que me lembro fazer questão de ser reconhecida como tal em todas as conversas. O edíficio era antigo, como não podia deixar de ser, e as salas eram frias e desprovidas de qualquer conforto. Afinal de contas, para Deus gostar de nós não podíamos estar resguardados do frio do inverno e tínhamos que penar e esperar pelo soar do fim do dia para podermos voltar a casa. Lembro-me, também, que não podia vestir calças porque apesar da escola ser mista vivia-se um clima de terror latente, não fossem os rapazes aperceberem-se de que eramos raparigas e vice-versa. As calças, dizia a madre-superiora, marcavam o corpo, deixavam notar o corpo feminino e chamavam a atenção dos rapazes. Só com isto já tinha um problema, odiava saias, vestidos e tudo o que não fossem calças.
Quarta-feira, às 9h, era dia de missa e não falhava nem se o padre estivesse doente porque se arranjava logo um substituto. Nesse dia, a família podia estar presente e partilhar da palavra do senhor. Pena que o senhor falasse sempre tão baixo que não o conseguia ouvir. Para tal servia o padre, o tal interprete da palavra do senhor, diziam. Ao contrário também não funcionava muito bem, o senhor também devia ter problemas auditivos...
Sempre me senti deslocada naquele sítio. Não tinha pais ricos, não partilhava do mesmo background cultural e social das restantes crianças e sentia-me claramente excluída. Não tínhamos os mesmos gostos, não fazíamos os mesmos planos de fim-de-semana e o ambiente familiar não podia ser mais diferente. Mesmo assim, por insistência, queriam que permanecesse naquela escola. Claro está, que o resultado não podia ser famoso e com o tempo a madre-superiora brilhantemente percebeu que eu era uma criatura das trevas e não me enquadrava naquela escola pelo que chamou os meus pais e aconselhou-os a procurar uma escola onde me enquadrasse melhor; que foi o mesmo que dizer, fui expulsa e só não usaram essa palavra porque o valor que cobravam mensalmente não lhes permitia usar dela.
Mas, não foi fácil chegar a esse momento. Passei por um ano de orelhas de burro, reguadas, puxões de orelhas e tudo o mais que se fazia ali em nome do senhor. "Aqui as crianças crescem segundo as leis do senhor" era o que tanto se ouvia por aqueles corredores. Bom, se alguma vez estivemos de acordo foi quanto ao facto de que os caminhos do senhor são, de facto, turtuosos.
Havia um dia específico para as confissões em grupo, já não me lembro qual o dia, mas juntávamo-nos todos numa sala e cada um tinha que confessar, alto e bom som, os pecados que tinha cometido durante esses dias. Pior do que confessar os pecados era encontrá-los e o dia anterior era sempre dia de fazer uma lista e inventar coisas, pecados, que sabia iriam fazer os olhos da madre-superiora brilharem. "Ontem estava tão cheia de ódio que agarrei num sabonete, novinho em folha, que estava na casa-de-banho, arranhei-o todo e arranquei pedaços inteiros com as unhas. Depois, voltei a colocá-lo no suporte, já defeituoso e nada com aspecto de sabonete novo..." Lembro-me como se fosse hoje, os olhos dela vibraram, bateu na mesa com a palma da mão e disse: " Que coisa mais horrível de fazer! O que é que a menina acha que Jesus achou disso? Acha que ficou contente consigo?" Encolhi os ombros e fui para a capela fingir que rezava o número de pai-nossos e avé-marias que me iriam salvar do inferno, por ter destruído um sabonete perfeitamente bom e novo.
Mas, o pior dos piores cenários aconteceu com a ida a Fátima. Milagrosamente, coincidiu com a vinda do pápa a portugal e instalou-se o caos naquela escola. Era a loucura dos preparativos e lá fomos todos em camionetas abençoadas para fátima. O calor não se aguentava, estavam milhares e milhares de pessoas e não havia uma sombra. Lembro-me, como hoje, de perceber que de toda a comitiva era a única que parecia incomodada e muito pouco entusiasmada com todo aquele reboliço. Todos procuravam um lugar melhor, queriam ver o pápa, queriam a melhor vista. Eu, só queria mesmo sentar-me, de preferência à sombra, e conseguir um pouco de espaço livre para respirar sem ter que inalar o odor de um outro corpo colado a mim. Foi a histeria completa. Senti-me mal e só me lembro de acordar já na camioneta, de volta a casa. Uns dias depois, veio a conclusão de que não me enquadrava naquele modelo educativo e que a bem do meu interesse deveria mudar de escola. E lá fui eu para uma escola "normal" onde, aparentemente, o senhor não conseguia ver nem ouvir e estavamos todos a salvo. A salvo, entenda-se do inferno.
Ao longo dos anos a minha relação com Deus passou pelas mais variadas fases. Ouvi relatos e mais relatos de experiências e opiniões pessoais, li e reli em busca de algo que me trouxesse uma resposta. Finalmente, quando já não tinha mais onde procurar a um nível físico, concluí que a resposta tinha que estar dentro de mim. Ou acreditava ou não acreditava. Ou tinha ou fé ou não tinha. Tudo se resumia à crença individual e única de cada um. Com o tempo, fui criando a minha própria forma de aceitar Deus na minha vida, fui deixando pequenas coisas de parte que não me faziam sentido mas, ao mesmo tempo, permaneciam sempre alguns pós da essência que era acreditar em Deus. Mas, o meu sinal de alerta mantinha-se ligado. O puzzle ainda não estava completo e algumas das peças encaixavam a muitoo custo.
O teste, sentia-o sempre que me era colocada a pergunta: "Acreditas em Deus?" Sim, era a resposta automática. Depois, vinham todas as minhas explicações de como acreditava num Deus diferente, com esta e aquela alteração. Isto porque, interiormente, não tinha ainda encontrado a capacidade de assumir a verdade que sentia. Sempre que demorava mais a responder à pergunta e me preparava para acusar uma resposta negativa sentia uns olhos do tamanho do mundo postos em cima de mim, os olhos da madre-superiora, talvez, ou dos santos que o meu avô mantinha em cima da sua mesa de cabeceira, quem sabe.
O peso da crença familiar, social, faz-nos perder a força para aceitar a nossa própria verdade. O medo, disfarçado de argumentos lógios, leva-nos a afastar-nos mais e mais de nós próprios, a anularmos a voz que nos grita do fundo de nós mesmos.
Levei anos a conseguir afirmar que não acredito em Deus. Anos e anos de conquista da minha vontade interior, sem punição ou castração. Sem recear a sala de confissão de pecados.
Alguém dizia, um dia destes, que mesmo quem age de forma menos boa em relação aos outros está igualmente a fazer um trabalho na direcção do bem, porque nos permite constatar o seu erro e afastarmo-nos dessa forma de acção. Assim sendo, obrigada madre-superiora.
É um facto, que não existirá melhor ferramenta de controlo que esta da crença, seja ela no que for. Osho, disse algo do tipo " Todo o homem que vos der um sistema de crença é vosso inimigo". E os inimigos do Homem estão à vista, espalhados entre igrejas e governos, entre países e linguas diferentes, mas todos utilizam a mesma poderosa ferramenta.
O triste da coisa é que enquanto nos mantivermos a olhar para o céu, não conseguimos olhar para dentro de nós. Enquanto pudermos usar Deus como desculpa para os nossos próprios erros e escolhas, não as vamos aceitar e tomar responsabilidade por elas. Enquanto não matarmos definitivamente o Deus que veio com a cassete de formatação inicial, não conseguiremos encontrar a divindade que vive em nós. E, mais triste ainda, enquanto tudo isto não acontecer, todo o trabalho em prol de outro será pura projecção de ego, uma mera tentativa de preenchimento de vazios pessoais. Todo o serviço ao outro não passará, na realidade, de serviço a nós próprios, todo o amor que brotar de nós chegará ao outro contaminado, cheio de ansias e vontades individuais de compensação. Enquanto não matarmos este Deus e nos encontrarmos connosco próprios, estamos condenados a viver apenas na sombra de algo que poderia ser.
É preciso matar Deus para voltar a encontrá-lo, num outro plano, numa outra forma, na pura manifestação de energia que é a vida e no que de divino existe em todos os seres.





