quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Operadores de call center

Desde tempos ancestrais que existem registos da proximidade do ser humano à natureza e da utilização de meios naturais para os mais diversos fins. O uso de plantas, ervas e afins para fins curativos não é uma prática dos tempos de hoje, muito pelo contrário.
Com a natural evolução social, a inovação tecnológica e médica e a rápida resposta do organismo a estímulos químicos, passou a ser um hábito comum a ingestão de medicamentos que suprimem rapidamente sintomas que se manifestam ao nível do corpo físico.
Estranhamente, nesta era que prima pelos avanços e descobertas científicas em termos médicos, podemos constatar uma maior aproximação social ao mundo das terapias naturais e alternativas. Porquê? Creio, sinceramente que a resposta está muito para além da questão medicinal.
O percurso do ser humano, ao longo dos tempos, tem contribuído para um afastamento genérico do indivíduo da sua essência, da sua natureza interna. Numa sociedade marcadamente patriarcal, onde regras sociais, morais, éticas e inclusivamente médicas, eram votadas por grupos de pessoas motivadas pela necessidade de controlo social, cultural e mental, a consequência humana foi a desabituação do questionamento, a aceitação de verdades como absolutas sem a mínima reflexão individual. Criaram-se barreiras mentais fortíssimas que levaram ao aparecimento de uma sociedade de “fila indiana” onde quem ousa sair da fila é olhado de forma crítica e colocado à margem.
A bem da rapidez de processos, industrializaram-se áreas como o parto, o atendimento médico, a educação, etc. O resultado não poderia ser algo muito diferente do que temos: Pessoas industrializadas. De tal forma que, para algumas delas, a simples ideia de fazer algo de uma forma diferente da que lhe foi passada causa sofrimento e ansiedade. Um pouco como aqueles operadores de call-center quando lhes fazemos uma pergunta para a qual o guião que estão a seguir não tem resposta. Andamos todos a seguir um guião porque é mais rápido, eficaz e automático. Na realidade, temos uma sociedade repleta de operadores de call-center.
Pior, operadores de call center amedrontados. Porque o guião tráz um apêndice que informa que quem não o seguir à risca ou vai para o inferno ou não é um bom cidadão ou, simplesmente, é afastado do jogo.
Assim de repente, parece que me afastei totalmente do assunto terapêutico. Mas não.
Se industrializámos as pessoas em todas as outras áreas o mesmo aconteceu ao nível terapêutico e se, durante épocas, não se questionavam diagnósticos clínicos, nem práticas terapêuticas, hoje as respostas começam a não satisfazer o novo ser humano, aquele que começamos a encontrar mais frequentemente seja no café ou no banco do autocarro.
Este é, quanto a mim, o verdadeiro motivo desta reaproximação do ser humano a métodos mais naturais. É o regresso a casa. O regresso do centro de poder humano ao seu verdadeiro lugar; às emoções, ao coração.
A mente é uma excelente ferramenta, pode apresentar-nos teorias e mais teorias, desenvolver as mais inteligentes técnicas mas não pode trazer-nos de volta a casa, a nós próprios. O reconhecimento da verdade vai muito para além de regras científicas, não pode ficar por aí, não chega. Estas regras não medem nem captam a essência de cada ser. Têm um propósito que serviu e serve a sustentação de práticas necessárias ao funcionamento de uma sociedade nos moldes que hoje conhecemos.
Tal como chegámos a esta era de industrialização humana, também ela passará. Se há algo que a história nos tem ensinado é que: Também isto passará.

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