Saí hoje de manhã e não voltei. Vou ali, já volto - disse.
O que não pensei, quando saí a porta, é que houvessem tantos olhares na paragem do autocarro, à espera desse momento. O momento de voltar, já, mais daqui a pouco, mais logo.
Sabes, tens um hálito quente e doce e quando estou nos teus braços, despida do mundo, podia neles viver sem esforço. Até quando? dizes. Até quando, não sei. Até agora, talvez amanhã.
Tantas praças de pombos cinzentos e pedras escorregadias. Podia jurar que o caminho até aqui não tinha sido este. Havia mais sol e as janelas tinham mais flores. Se as estrelas brilhassem de tarde certamente tinha voltado.
São as pedras, as pedras não são as mesmas. Estão umas quantas pessoas na esquina a falar de como facilmente se levam coisas que são de todos, assim, sem pensar em mais nada. As pedras têm as pegadas de todos. Como encontramos o caminho de volta?
Sim, ouço-te e as palavras abrem buracos no meu corpo, o mesmo que vês todas as manhãs por entre a luz que as persianas deixam passar. A luz que me aponta as marcas de mágoa na tua cara e que me esconde por entre as árvores plantadas num quarto, numa casa que cresceu em nós. As Árvores lembram-nos a nossa mortalidade. Lembram a mortalidade de tudo em nós, à nossa volta. Não reconheço estas raízes nem a terra em que se desmembram. Não reconheço o lugar de onde vieram mas sei que estão aqui. Sinto-as sempre que abro uma janela e respiro fundo, de olhos fechados.
Deixei flores frescas na jarra por cima da lareira. O vento corre pela casa e o dia mostra a vontade que tem de continuar a nascer, todos os dias, sem cansaço. Vou ali, já venho. Há pão fresco na cesta e café acabado de fazer.
Todas as vezes que me olhaste sem conseguir falar deixaram-me o corpo dolorido. Mexo-me e sei exactamente a ausência que cada nódoa negra tem consigo. Quando não estás de manhã a cama não sabe ao mesmo. Mudo de posição e doi-me a alma. O turpor morno de não querer acordar, a vida que se esvai pelas molas do colchão. Doi-me o corpo do silêncio que fazes sempre que falas do tempo, das coisas. Está um mosquito na parede, imóvel há meses, se calhar está morto. Não me apercebi de ter chegado, não o ouvi, não dei por ele. Os sentimentos são como os mosquitos. O cenário do calor húmido e pegajoso que se cola à pele, da informação guardada em cada gota de suor que corre nos corpos, umas vezes mais planície outras mais montanha.
Olha-me como se acreditasses que volto já, como se soubesses que não vou demorar. Diz-me que passe na mercearia e compre uns limões para dar cor à cozinha. Diz-me que me esperas de luz acesa mesmo que seja de tarde, esteja sol e me vejas encostada à ombreira da porta a mordiscar o lábio, assim, a sorrir para um pensamento de aventura nua e maliciosa.
Está a chover, a água tem esta capacidade de nos fazer sentir leves. Uma borboleta pousa no corrimão de umas escadas de pedra que se insinuam pela encosta desta cidade que me tem nela. Tenho de voltar. Sento-me num dos degraus e fico a observar o movimento da vida que por ali passa. Há uma cara que espreita numa janela, tem rugas, muitas e está como eu, a ver a vida que se cruza com ela naquele lugar. É tarde, tenho de voltar. Não, não vou sem que venhas à janela e grites por mim. Penso no que estás a fazer e se sentes a cama igual sem o meu corpo. Está frio, devia ter trazido um agasalho. Encosto-me à parede do prédio e aninho-me em mim como habitualmente fazes. Fecho os olhos, ouço o teu riso e a forma doce como dizes que não devo demorar. Ao longe, sinos de igreja. É tarde, não encontro o caminho de volta. Apaga a luz e não esperes por mim, vou demorar.
O que não pensei, quando saí a porta, é que houvessem tantos olhares na paragem do autocarro, à espera desse momento. O momento de voltar, já, mais daqui a pouco, mais logo.
Sabes, tens um hálito quente e doce e quando estou nos teus braços, despida do mundo, podia neles viver sem esforço. Até quando? dizes. Até quando, não sei. Até agora, talvez amanhã.
Tantas praças de pombos cinzentos e pedras escorregadias. Podia jurar que o caminho até aqui não tinha sido este. Havia mais sol e as janelas tinham mais flores. Se as estrelas brilhassem de tarde certamente tinha voltado.
São as pedras, as pedras não são as mesmas. Estão umas quantas pessoas na esquina a falar de como facilmente se levam coisas que são de todos, assim, sem pensar em mais nada. As pedras têm as pegadas de todos. Como encontramos o caminho de volta?
Sim, ouço-te e as palavras abrem buracos no meu corpo, o mesmo que vês todas as manhãs por entre a luz que as persianas deixam passar. A luz que me aponta as marcas de mágoa na tua cara e que me esconde por entre as árvores plantadas num quarto, numa casa que cresceu em nós. As Árvores lembram-nos a nossa mortalidade. Lembram a mortalidade de tudo em nós, à nossa volta. Não reconheço estas raízes nem a terra em que se desmembram. Não reconheço o lugar de onde vieram mas sei que estão aqui. Sinto-as sempre que abro uma janela e respiro fundo, de olhos fechados.
Deixei flores frescas na jarra por cima da lareira. O vento corre pela casa e o dia mostra a vontade que tem de continuar a nascer, todos os dias, sem cansaço. Vou ali, já venho. Há pão fresco na cesta e café acabado de fazer.
Todas as vezes que me olhaste sem conseguir falar deixaram-me o corpo dolorido. Mexo-me e sei exactamente a ausência que cada nódoa negra tem consigo. Quando não estás de manhã a cama não sabe ao mesmo. Mudo de posição e doi-me a alma. O turpor morno de não querer acordar, a vida que se esvai pelas molas do colchão. Doi-me o corpo do silêncio que fazes sempre que falas do tempo, das coisas. Está um mosquito na parede, imóvel há meses, se calhar está morto. Não me apercebi de ter chegado, não o ouvi, não dei por ele. Os sentimentos são como os mosquitos. O cenário do calor húmido e pegajoso que se cola à pele, da informação guardada em cada gota de suor que corre nos corpos, umas vezes mais planície outras mais montanha.
Olha-me como se acreditasses que volto já, como se soubesses que não vou demorar. Diz-me que passe na mercearia e compre uns limões para dar cor à cozinha. Diz-me que me esperas de luz acesa mesmo que seja de tarde, esteja sol e me vejas encostada à ombreira da porta a mordiscar o lábio, assim, a sorrir para um pensamento de aventura nua e maliciosa.
Está a chover, a água tem esta capacidade de nos fazer sentir leves. Uma borboleta pousa no corrimão de umas escadas de pedra que se insinuam pela encosta desta cidade que me tem nela. Tenho de voltar. Sento-me num dos degraus e fico a observar o movimento da vida que por ali passa. Há uma cara que espreita numa janela, tem rugas, muitas e está como eu, a ver a vida que se cruza com ela naquele lugar. É tarde, tenho de voltar. Não, não vou sem que venhas à janela e grites por mim. Penso no que estás a fazer e se sentes a cama igual sem o meu corpo. Está frio, devia ter trazido um agasalho. Encosto-me à parede do prédio e aninho-me em mim como habitualmente fazes. Fecho os olhos, ouço o teu riso e a forma doce como dizes que não devo demorar. Ao longe, sinos de igreja. É tarde, não encontro o caminho de volta. Apaga a luz e não esperes por mim, vou demorar.
Sem comentários:
Enviar um comentário