quinta-feira, 9 de abril de 2009

Fazes-me falta, sabes?

Não sei onde estavas hoje quando me sentei no banco do jardim.Tenho pensado em ti em muitos momentos, pequenos momentos, intervalos de tempo que te aproximam de mim e nos quais permito que existas. Noutros não te deixo entrar. Fecho os olhos e vou para outro lugar onde não estás porque não consigo estar contigo aqui, neste lugar. Este lugar é cruel, cruel como todos os lugares que sobrevivem ao tempo. Estou aqui e não te sinto. Fazes-me falta, sabes?
Vejo-te sentado na beira do lago a passar a mão pela água, a tentar molhar-me um pouco, a querer que sinta a vida que corre em cada coisa. E sorris, levemente, como quem sabe o que está a oferecer. Depois sentas-te na relva e tentas que me sente contigo. Espalhas a tua voz por entre a brisa que corre e dizes-me como sou bonita, como vês em mim o mundo repleto de fogo de artíficio. "Sabes isso, não sabes? vês como és bonita?" Há momentos, palavras, que só entendemos quando nos aquecem o corpo frio, esquecido num quarto escuro e cinzento. Houve momentos em que a tua voz me fez voltar a mim. Noutros a ausência dela deixou-me cair.
Só por hoje queria ouvir a tua voz novamente e que me contasses uma história, não importa qual. Só por hoje queria ver-te chegar, cansado, e atirares-te para cima da cama num acto de pura preguiça. Só por hoje queria que me abraçasses como se não fosses partir.
Tentei que não ficasses preso no momento de chuva em que te vi desaparecer. Que os dias não trouxessem o peso da tua ausência, que as noites não me asfixiassem ao reviver um momento feliz contigo. Tentei respirar quando senti o ar falhar-me e percebi que não ias voltar, nunca mais. Tentei trazer-te comigo todos os dias. A verdade é que não estás aqui. Não te sinto.
Os dias passam indiferentes à falta que sinto de ti e com eles chegam as imagens esbatidas do que um dia foi mas que lembro com dificuldade. Não sei onde estás, como estás, se estás. Sei que não te sinto e que a memória me vai falhando ano após ano. Em cada respiração tento trazer um pouco de ti para os meus braços e penso no que faríamos se estivesses aqui. Talvez nos sentássemos em frente à televisão a ver um western, enquanto fumavas cigarro atrás de cigarro. Ou então, talvez fossemos até à pastelaria da esquina beber um café e um garoto. Pelo caminho passávamos na banca dos jornais e fazias a tua selecção de leitura.
Passo todos os dias pelo lugar da banca de antigamente que já não é uma simples banca. Está mais apetrechada de material, os jornais são protegidos por uma estrutura sólida em vez de plásticos rasgados e há uma nova senhora que vende os jornais. A outra, a da minha história, mudou de lugar, não vende jornais na banca mas continua criteriosamente sentada no mesmo lugar de sempre. Como se fosse necessária a sua presença para nos lembrar de quem somos.
Fazes-me falta e por vezes acho que o mundo parou de girar no momento em que desapareceste. Abro os braços e giro em torno de mim para produzir um efeito de movimento. Levantam-se as folhas do chão e a poeira aproveita a deixa para mudar de sítio. Mudam-se as poeiras, mudam-se as verdades. Levam-se as verdades de um lugar para o outro e elas deixam de ser o que foram. Nada permanece como me lembro. Não te sinto e não me lembro dos traços do teu rosto. Fazes-me falta.

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