Era um fim de tarde igual a qualquer outro. Laura caminhava pela rua, de cabeça baixa, embrenhada no turbilhão de pensamentos que a atropelavam.
O céu estava limpo, de azul pincelado a branco, e corria uma brisa fresca que a fazia cruzar os braços numa tentativa de se aconchegar em si mesma. Mais à frente, tropeça numa pedra que já tinha sido chutada por uma dezena de pessoas, sente uma dor agonizante no tornozelo e pára. Encosta-se à parede do prédio por onde passava e tenta apoiar-se. Depois, senta-se no degrau da entrada do prédio, pressiona o tornozelo com força para tentar disfarçar a dor e, enquanto massaja a zona dorida, pensa que tem de ir ao supermercado porque o frigorífico de casa está vazio. Voltar para casa tinha para Laura este significado de electrodoméstico vazio, este sentimento de abandono generalizado. Tenta voltar a levantar-se, coloca o pé novamente no chão. Doi, mas precisa do pé para chegar a casa. Aos pulos, entre um aliviar do pé magoado e uns suspiros de entrega desistente, chega ao seu apartamento. Acende as luzes e olha em redor na esperança de encontrar algo diferente do dia anterior. Sabe o exacto local de cada coisa mas encontrar algo fora do sítio trazia-lhe uma sensação de companhia. Por vezes, trocava os sítios às coisas ou deixava roupa espalhada pelo chão para que ao acordar pudesse, por segundos, sentir que mais alguém estivera ali. Levantar-se e reclamar pelas coisas fora do sítio mantinha-a sã e acompanhada. Laura sabia que estava só mas não tinha que viver como se estivesse.
Na mesa do pequeno almoço colocava sempre duas chávenas para café, vários pães e bolo à descrição. Vivia com o pensamento de que alguém poderia chegar nesse exacto momento e era melhor prevenir do que remediar. Não existe coisa pior do que um pequeno-almoço remediado, um café requentado ou pão com uns dias de atraso. Laura estava sempre pronta a receber quem pudesse estar para chegar. A casa era grande, maior do que precisaria vivendo sozinha. Mas havia sempre a hipótese de algum amigo precisar de ficar por lá ou, quem sabe, um destes dia a mãe poderia decidir-se a visitá-la. Havia sempre um quarto preparado para a possível vinda de alguém.
Laura desloca-se em direcção ao frigorífico vazio em busca de gelo que lhe acalme a dor, abre-o e descobre que sobraram uns restos do jantar de há 3 dias. O cheiro não está do melhor mas não cheirando totalmente a comida estragada talvez ainda se possa aproveitar. Com o pé dorido a ida ao supermercado ficou, mais uma vez, adiada. Senta-se no sofá, com o tabuleiro de comida duvidosa no colo, liga o rádio e sintoniza o canal que costuma ouvir. São músicas antigas mas, de uma forma estranha e quase desesperada, as memórias trazem-lhe um sentimento de companhia. Laura adormece no sofá. Ao lado, no chão, uma colónia de formigas vem visitar o tabuleiro com os restos do resto da comida de há 3 dias. Nada se perde, tudo se transforma.
É noite escura e Laura é acordada pela dor do pé que torceu e da posição em que adormeceu no sofá. Do rádio, só se ouve agora um som de chuva seca que se espalha por toda a sala. É tarde. A viagem do sofá até à cama, que fica do lado oposto da casa, é feita ao pé coxinho e com a ajuda da parede. Os lençois estão frios, Laura enrosca-se numa posição confortável e pensa que uma boa noite de sono ajudará a recuperar o tornozelo ferido e a sensação de imensidão que encontra diariamente na cama tamanho XL que comprou por poder vir a ser precisa um dia, mais tarde, quem sabe.
Na manhã seguinte, o despertador antigo que tem em cima da mesinha de cabeceira toca de forma desconcertada, como se lhe faltasse força para soar alto, a pulmões abertos. Laura não se incomodava com o desconcerto do som que a acordava todas as manhãs, ao contrário, reconhecia nele uma proximidade acolhedora. Quando alguém a confrontava com o seu aspecto desgastado, argumentava: "mas é natural sentir cansaço, perder a voz e as forças de vez em quando, no final de contas, até um aparelho mecânico se cansa com o passar dos dias." A custo, porque a noite não apagou nenhuma das suas dores, prepara-se para sair e enfrentar mais umas horas de uma vida que não reconhece como sua, populada de pessoas sem cara, de vozes desconectas e confusas. Frequentemente, tinha dificuldade em reconhecer a linguagem que as pessoas usavam quando a abordavam. Na maioria das vezes, alguns minutos depois e com uma quantidade considerável de esforço, lá ia decifrando o essencial, o básico e indispensável. Na verdade, assim era a vida de Laura, básica e limitada ao necessário para continuar a funcionar. Não tinha amigos, ainda que mantivesse um quarto na hipótese de um amigo poder vir a necessitar dele. A família tinha-a esquecido fazia já muito tempo, mas continuava a esperar a visita da mãe a qualquer momento. Esquecia-se de comer e quando o corpo a lembrava encontrava o frigorífico vazio e o supermercado fechado. Tomava banho quando percebia que as mesmas pessoas cuja linguagem não entendia, torciam o nariz e voltavam a cara ao falar com ela.
Sem se aperceber, sem conseguir identificar quando nem porquê, Laura tinha-se desconectado do mundo. Por vezes, entre um e outro piscar de olhos, sentia que estava longe, distante, desligada. Percebia que se tinha deixado ir. Nesses momentos, chegava mesmo a ouvir a campainha da porta tocar. Mas esses eram também os momentos em que sentia o corpo dorido e triste por uma vida de abandono e solidão. Então, deixava-se novamente ir e voltava para o único lugar onde sabia estar em segurança, aquele cujo caminho ninguém mais conhecia, aquele de onde ela própria não sabia voltar.
O céu estava limpo, de azul pincelado a branco, e corria uma brisa fresca que a fazia cruzar os braços numa tentativa de se aconchegar em si mesma. Mais à frente, tropeça numa pedra que já tinha sido chutada por uma dezena de pessoas, sente uma dor agonizante no tornozelo e pára. Encosta-se à parede do prédio por onde passava e tenta apoiar-se. Depois, senta-se no degrau da entrada do prédio, pressiona o tornozelo com força para tentar disfarçar a dor e, enquanto massaja a zona dorida, pensa que tem de ir ao supermercado porque o frigorífico de casa está vazio. Voltar para casa tinha para Laura este significado de electrodoméstico vazio, este sentimento de abandono generalizado. Tenta voltar a levantar-se, coloca o pé novamente no chão. Doi, mas precisa do pé para chegar a casa. Aos pulos, entre um aliviar do pé magoado e uns suspiros de entrega desistente, chega ao seu apartamento. Acende as luzes e olha em redor na esperança de encontrar algo diferente do dia anterior. Sabe o exacto local de cada coisa mas encontrar algo fora do sítio trazia-lhe uma sensação de companhia. Por vezes, trocava os sítios às coisas ou deixava roupa espalhada pelo chão para que ao acordar pudesse, por segundos, sentir que mais alguém estivera ali. Levantar-se e reclamar pelas coisas fora do sítio mantinha-a sã e acompanhada. Laura sabia que estava só mas não tinha que viver como se estivesse.
Na mesa do pequeno almoço colocava sempre duas chávenas para café, vários pães e bolo à descrição. Vivia com o pensamento de que alguém poderia chegar nesse exacto momento e era melhor prevenir do que remediar. Não existe coisa pior do que um pequeno-almoço remediado, um café requentado ou pão com uns dias de atraso. Laura estava sempre pronta a receber quem pudesse estar para chegar. A casa era grande, maior do que precisaria vivendo sozinha. Mas havia sempre a hipótese de algum amigo precisar de ficar por lá ou, quem sabe, um destes dia a mãe poderia decidir-se a visitá-la. Havia sempre um quarto preparado para a possível vinda de alguém.
Laura desloca-se em direcção ao frigorífico vazio em busca de gelo que lhe acalme a dor, abre-o e descobre que sobraram uns restos do jantar de há 3 dias. O cheiro não está do melhor mas não cheirando totalmente a comida estragada talvez ainda se possa aproveitar. Com o pé dorido a ida ao supermercado ficou, mais uma vez, adiada. Senta-se no sofá, com o tabuleiro de comida duvidosa no colo, liga o rádio e sintoniza o canal que costuma ouvir. São músicas antigas mas, de uma forma estranha e quase desesperada, as memórias trazem-lhe um sentimento de companhia. Laura adormece no sofá. Ao lado, no chão, uma colónia de formigas vem visitar o tabuleiro com os restos do resto da comida de há 3 dias. Nada se perde, tudo se transforma.
É noite escura e Laura é acordada pela dor do pé que torceu e da posição em que adormeceu no sofá. Do rádio, só se ouve agora um som de chuva seca que se espalha por toda a sala. É tarde. A viagem do sofá até à cama, que fica do lado oposto da casa, é feita ao pé coxinho e com a ajuda da parede. Os lençois estão frios, Laura enrosca-se numa posição confortável e pensa que uma boa noite de sono ajudará a recuperar o tornozelo ferido e a sensação de imensidão que encontra diariamente na cama tamanho XL que comprou por poder vir a ser precisa um dia, mais tarde, quem sabe.
Na manhã seguinte, o despertador antigo que tem em cima da mesinha de cabeceira toca de forma desconcertada, como se lhe faltasse força para soar alto, a pulmões abertos. Laura não se incomodava com o desconcerto do som que a acordava todas as manhãs, ao contrário, reconhecia nele uma proximidade acolhedora. Quando alguém a confrontava com o seu aspecto desgastado, argumentava: "mas é natural sentir cansaço, perder a voz e as forças de vez em quando, no final de contas, até um aparelho mecânico se cansa com o passar dos dias." A custo, porque a noite não apagou nenhuma das suas dores, prepara-se para sair e enfrentar mais umas horas de uma vida que não reconhece como sua, populada de pessoas sem cara, de vozes desconectas e confusas. Frequentemente, tinha dificuldade em reconhecer a linguagem que as pessoas usavam quando a abordavam. Na maioria das vezes, alguns minutos depois e com uma quantidade considerável de esforço, lá ia decifrando o essencial, o básico e indispensável. Na verdade, assim era a vida de Laura, básica e limitada ao necessário para continuar a funcionar. Não tinha amigos, ainda que mantivesse um quarto na hipótese de um amigo poder vir a necessitar dele. A família tinha-a esquecido fazia já muito tempo, mas continuava a esperar a visita da mãe a qualquer momento. Esquecia-se de comer e quando o corpo a lembrava encontrava o frigorífico vazio e o supermercado fechado. Tomava banho quando percebia que as mesmas pessoas cuja linguagem não entendia, torciam o nariz e voltavam a cara ao falar com ela.
Sem se aperceber, sem conseguir identificar quando nem porquê, Laura tinha-se desconectado do mundo. Por vezes, entre um e outro piscar de olhos, sentia que estava longe, distante, desligada. Percebia que se tinha deixado ir. Nesses momentos, chegava mesmo a ouvir a campainha da porta tocar. Mas esses eram também os momentos em que sentia o corpo dorido e triste por uma vida de abandono e solidão. Então, deixava-se novamente ir e voltava para o único lugar onde sabia estar em segurança, aquele cujo caminho ninguém mais conhecia, aquele de onde ela própria não sabia voltar.
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