quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Dias de tempestade

Sabem aquela velha história sobre os homens não entenderem as mulheres, de sermos livros em branco, de não sabermos o que queremos, blá,blá,blá...? Pois, gostava de os ver passar pelas alterações hormonais a que estamos sujeitas mensalmente e manterem a mesma opinião.
Não vou comentar sobre o chavão que é o tema porque sempre achei que é apenas mais um daqueles assuntos de café, típico de quem não tem mais nada para dizer. Algo equivalente ao futebol e à política quando discutidos em locais públicos, é isso.
Quando alguém não tem ou não sabe dizer mais, lá vêm as frases originais: "então o nosso sporting/benfica/whatever ontem..." ou quando alguém é assaltado " foi isto que deu o 25 de abril e as liberdades" ou " É tudo a roubar, o governo isto e aquilo, blá,blá,blá" e, se o tema é a mulher, lá vem o belo do chavão " vá lá a gente entender as mulheres..."
Bom, homens deste universo, vou dar-vos umas dicas importantes:
- Quando mudarmos de humor repentinamente, são as hormonas a falar mais alto, por favor não falem connosco.
- Quando nos sentarmos a ver um filme e começarmos a chorar por "dá cá aquela palha", são as hormonas outra vez, não se melindrem, não precisamos de ser abraçadas ou de palavras de conforto e todas aquelas coisas em que são peritos.
- Quando ouvirmos uma música que já ouvimos vezes sem conta e desta vez nos virem a chorar... é, são elas outra vez.
- Quando o apetite aumentar e nos apetecer comer todas aquelas coisas que engordam e fazem mal, sejam simpáticos e finjam que não estão a ver, porque acreditem que são as hormonas!
Por isso, parem de tentar entender o que não existe e concentrem-se na realidade. São os dias de tempestade em nós e não são fáceis. Acreditem.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

As minhas pessoas

Um destes dias a Mécia, a propósito já nem sei de quê, virou-se para mim e perguntou-me:" Oh, Carla, como é que tu chamas às pessoas que têm consultas contigo? paciente, clientes..?" Pois, respondi eu, não sei... Acho que são as "minhas pessoas"...
O termo paciente lembra-me doença, mas daquelas que criam um abismo imenso entre duas pessoas e transmite a sensação sonora que uma delas nunca adoece, é imune a qualquer doença. O cliente, pior um pouco. Não se criam laços, alguns profundos, com clientes...
É, acho que são mesmo as "minhas pessoas".
Deixem-me esclarecer, desde já, que o termo "minhas" em nada se assemelha ao que utilizei no texto " o meu lada do sofá". Ao contrário do meu pedaço de sofá, estas pessoas partilham o seu espaço, os seus sentimentos, os seus sorrisos e tristezas com outras pessoas para além de mim. O meu lado do sofá, não. É só meu. Estas pessoas não são minhas, ou pelo menos não são só minhas. Mas gosto de as chamar assim.
Há algum tempo que me apetece escrever sobre elas, mas tenho sempre tanto para dizer que nunca sei por onde começar. Penso sempre se elas saberão a forma como afectam a minha vida. Como servem tantas vezes de espelho para os meus próprios processos, como vivo e sinto as várias fases por que passam, como vibro com as suas alegrias ou com as tristezas. Penso, se terão ideia do número de vezes que encontro eu própria os meus caminhos quando converso com elas, se entenderão a extensão da sua importância na minha evolução pessoal.
Ontem li um texto sobre mim no blog pessoal de uma destas pessoas. Entendi a importância que os nossos encontros tinham para esta pessoa, não sei se ela terá entendido a importância que têm para mim. Pensei deixar um comentário no seu blog, não deixei. Não por falta do que dizer, muito pelo contrário, mas porque o que tinha para lhe dizer não era tanto em relação ao que tinha escrito sobre mim, mas muito mais em relação ao que queria escrever sobre ela.
Entendi, porque o disse de forma explicita, que me tinha tornado num ponto de luz na sua vida. Fico feliz. Não por mim, nem pelos comentários simpáticos que fazem parte da sua forma de estar, mas porque não teria sido possível eu tornar-me num ponto de luz da sua vida sem, de alguma forma, ela própria também se ter tornado num dos meus. Esta será, certamente, uma daquelas frases que ela irá guardar para mais tarde analisar e procurar entender. A seu tempo a entenderá, tal como a seu tempo se reencontrará definitivamente consigo própria. Eu encontrei-a desde o primeiro minuto, da primeira palavra. Não a pessoa que cruzou a primeira vez a porta do consultório, mas a que saiu, sim, porque eram diferentes. Mais tarde, vi uma foto sua de criança e pensei, era ela, é ela.
Não posso, por motivos vários, dizer-lhe agora todas as coisas que tenho para dizer. É preciso tempo, é preciso deixar o tempo fazer o seu trabalho, é preciso saber aceitar que o tempo tem o seu próprio tempo e aprender a fluir com ele, com a vida.
Mas posso e quero muito dizer-lhe que de todos os pontos de luz da minha vida, há um que é o mais especial e querido de todos eles, e esse sou eu própria. É a minha luz interior que me permite ver o suficiente para detectar outros pontos de luz. Por isso, fiquei feliz por ela ter encontrado em mim um ponto de luz, não por mim, mas por si.
Também, posso e quero dizer-lhe que o universo tem pontos sem nós, sim. Não fosse a tamanha confusão que por aí vamos vendo... O universo não trabalha sózinho nem tem poderes especiais de condecer desejos ou fazer milagres. O grande milagre somos nós próprios, o facto de estarmos vivos e podermos fazer as nossas escolhas que, sejam elas quais forem, são nossas.
Eu escolhi um caminho e os meus pontos de luz vão-me mostrando como esta foi a escolha certa.
São estas as "minhas pessoas".


segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Pontos de luz

Se acreditasse que a minha vida é conduzida por factores tão efémeros como sorte ou azar poderia considerar-me uma pessoa de sorte. Como não acredito, sinto-me diariamente mais forte e confiante num caminho que comecei a traçar faz algum tempo e que dia após dia se torna mais amplo e iluminado.
São os pontos de luz que me fazem ter essa certeza. Esses pontos de luz são pessoas, acontecimentos, sentimentos com que me cruzo e que me têm trazido crescimento, informação e um sentimento de plenitude como julgamos só encontrar nos livros. Tenho vários pontos de luz na minha vida.
Um desses pontos de luz ilumina-me diariamente e caminha a meu lado. Abraça-me quando tenho frio, sorri quando faço cara de má e faz-me rir nos momentos mais inacreditáveis. Sim, depois de 3 horas de seca à espera dele dentro dum carro, a congelar no fim do mundo, o que foi um verdadeiro teste ao meu processo mais trabalhoso, ele chega e eu nem falo e peço para não falar tão pouco, porque não queria soltar o monstro e lá vamos nós, em silêncio... Todas as pessoas que passavam por nós riam e eu sem perceber porquê. Quando finalmente saí por um minuto da minha neurose, olhei para o lado e ele tinha colocado um nariz de palhaço e esperava que eu olhasse para ele e sorrisse. Pois, eis que não me aguentei e desatei mesmo a rir à gargalhada e me esqueci da neura! Um nariz de palhaço, a conduzir um carro, na esperança de arrancar um sorriso ... convenhamos que é um ponto de luz imenso.
Estou grata a mim mesma por ter feito as escolhas que fiz e aos meus pontos de luz por existirem e terem escolhido fazer parte da minha história.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

O meu lado do sofá

Ontem dei por mim a reclamar o meu lado do sofá. " Não, deixa-me sentar aí, esse é o meu lado do sofá!"Depois, sentei-me e reflecti sobre o que é isto de termos coisas nossas, sobre o sentimento de posse e de exclusividade que mostramos em relação a algumas coisas.
O meu lado do sofá, o meu lado da cama, a minha cadeira, a minha caneca...
É como se, ainda que inconscientemente, tívessemos a necessidade de verbalizar que somos "donos" de algumas coisas e que controlamos quando e de que forma elas são usadas.
Está-nos tão enraízada esta necessidade de posse e controlo que a estendemos a áreas tão absurdas como sofás, cadeiras e afins...
Aos poucos, vamos desmanchando o novelo. Percebemos que não podemos controlar a pessoa que amamos, depois que não controlamos sentimentos, que chove mesmo quando queremos desesperadamente que faça sol, que o nosso corpo físico muda diariamente e nos confronta com as nossas mudanças mais profundas, que há pessoas que desaparecem das nossas vidas sem que nada possamos fazer.
E vamos digerindo e aprendendo. Mas, quando esta característica humana fala mais alto damos connosco a controlar um dos lados de um sofá. Podia-me dar para pior...

sábado, 19 de janeiro de 2008

Sol num dia de nevoeiro


Hoje está nevoeiro. As ruas, os prédios, as pessoas, aparecem-me envoltos num misto de neblina e maresia, com cheiro de flor desnudada.
Há dias em que saímos à rua, mesmo num dia cinzento, o sol brilha por entre nuvens e ondas revoltas e conseguimos sentir o seu calor na face, no corpo frio. Mas noutros não. Noutros é dia de nevoeiro e não há nada a fazer. Não pode ser verão todo o ano...

Um texto especial

Este texto chama-se Desiderata e, durante anos, tinha-o estrategicamente colocado no meu local de trabalho para que não me esquecesse da importância destas palavras. Partilho-o hoje convosco e espero, para quem não o conhece, que seja uma fonte de inspiração e acordar. Peço desculpa por estar em inglês...

"Go placidly amid the noise and the haste, and remember what peace there may be in silence.

As far as possible, without surrender, be on good terms with all persons. Speak your truth quietly and clearly; and listen to the dull and ignorant; they too have their story.

Avoid loud and aggressive persons; they are vexatious to the spirit. If you compare yourself with others, you may become vain or bitter, for always there will be greater and lesser persons than yourself.

Enjoy your achievements as well as your plans. Keep interested in your career, however humble; it is a real possession in the changing fortunes of time.

Exercise caution in your business affairs, for the world is full of trickery. But let this not blind you to what virtue there is; many persons strive for high ideals and everywhere life is full of heroism.

Be yourself. Especially do not feign affection. Neither be cynical about love; for in the face of all aridity and disenchantment, it is as perennial as the grass.

Take kindly the counsel of the years, gracefully surrendering the things of youth. Nurture strength of spirit to shield you in sudden misfortune.

But do not distress yourself with imaginings. Many fears are born of fatigue and loneliness.

Beyond a wholesome discipline be gentle to yourself. You are a child of the universe, no less than the trees and the stars and you have a right to be here. And whether or not it is clear to you, no doubt the universe is unfolding as it should.

Therefore, be at peace with God, whatever you conceive Him to be. And whatever your labors and aspirations, in the noisy confusion of life, keep peace with your soul.

With all its sham, drudgery and broken dreams, it is still a beautiful world. Be cheerful. Strive to be happy."

Max Ehrmann


O gang dos abraços

Comecei a contar as pessoas a quem abraço diária e mensalmente e são, de facto, muitas. É estranho, mas há momentos em que um beijo na face não chega. Um beijo na face é um vulgar cumprimento, um abraço não. Um abraço implica contacto físico, intimidade, quebra de barreiras e fragilidades. Um abraço faz-nos perceber a dificuldade de nos darmos e de receber. Um abraço é um vulcão adormecido que entra em erupção no momento do confronto físico e cospe fogo em todas as direcções, de forma desorientada e infantil. Um abraço lembra-nos que somos merecedores de amor e que alguém perde tempo e se importa connosco. Um abraço faz-nos enfrentar medos. O medo de mostrar que sentimos, o medo de mostrar que não sabemos sentir, o medo de mostrar que não queremos sentir.
Um abraço é uma viagem de segundos ao mais profundo do nosso ser, dos nossos sentimentos.
Por tudo isto, não consigo deixar de abraçar as pessoas com quem me cruzo, principalmente " as minhas pessoas" e lembrar-lhes como são importantes para mim.
Acima de tudo, não posso deixar de me sentir feliz por o gang dos abraços continuar a aumentar e cada vez mais me cruzar com braços tão desejosos como os meus de abraçarem e serem abraçados.
Um abraço luz do tamanho do mundo para todos os membros deste gang!




terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Estranha sensação

Acordei com uma estranha sensação de ausência. Não uma ausência minha em relação ao mundo mas ausência de algo em mim... Não sei explicar. Como se explica esta sensação de ausência de pessoas em nós?... não se explica, sente-se...
Sinto-a por todos os pontos do meu corpo e nalguns momentos quase que a consigo ouvir sussurrar... ausência...sentes a ausência....? Pois que sinto.
Não é fácil estar presente em momentos que já passaram e deixá-los permanecer em nós apenas pelo que nos trouxeram, deixá-los ir... guardar o que se tornou num pedaço de nós, encaixar a peça em falta no puzzle e seguir em frente. É díficil deitar fora o puzzle anterior e não deixar que as suas lembranças, boas e más, nos afastem do presente. É díficil viver a ausência no plano físico, é díficil e doloroso.
Hoje acordei com esta dor no peito que tem o peso da ausência de quem não está presente, de quem não posso tocar, sentir, cheirar. Do tempo que passou entre palavras e sentimentos que não se trocaram. Da impossibilidade de ganhar asas, voar alto e estar perto das estrelas que estiveram na minha vida e que brilham à noite no céu escuro, distante e frio, mas que não consigo alcançar. Das pessoas que me tiveram, que em mim deixaram marca mas que desapareceram... por minha culpa...por culpa deles...porque o tempo chegou...
Hoje, o peso da saudade acordou-me...