terça-feira, 29 de abril de 2008

O Amor nos tempos de cólera

Do nada lembrei-me que tenho deixado passar, dia após dia, a ida ao cinema para ver a passagem à tela de um livro que me deixou imagens simpáticas e sensações de sentimento verdadeiro.

Gabriel Garcia Marquez escreve de Amor como só ele sabe e escrevo a palavra com maiúscula porque a forma como fala de Amor é também ela imensa. Amor, na escrita de Marquez, tem um significado infindável, incomensurável.

Ao mesmo tempo que pensava neste livro, que li faz já muito tempo, percebi que me lembrava do essencial mas não dos nomes dos personagens nem de lugares onde algumas cenas se passavam. Lembro-me da história no geral, do que me trouxe pessoalmente, do que trouxe a todos enquanto mensagem pessoal do autor, mas não de factos mais específicos.

Não pude deixar de pensar que o Amor é um pouco assim. As pessoas que vamos amando, ao longo de uma vida, vão deixando em nós sentimentos e imagens e, com o passar do tempo, alguns deles parecem-nos turvos e lembramo-nos apenas de fracções. As imagens vão perdendo a cor, a textura e, em tom de sépia, assemelham-se a uma qualquer foto de um qualquer album antigo.

Lembro-me que encontrava muitas destas fotos lá por casa e quando perguntava à minha avó quem era a pessoa de determinada foto ela dizia sempre: Ora, deixa-me cá olhar bem para ver se me lembro... Pois, acho que fazemos o mesmo com os personagens da nossa vida.

Certo será, que uns apresentarão mais cor que outros e resistirão melhor ao passar do tempo.

Isto leva-me ao título deste artigo e ao motivo real de toda esta divagação e que se prende com a forma como amamos em tempos menos bons. É fácil, muito fácil, amar quando tudo está bem no nosso mundo, quando cada coisa está no seu lugar e a sabemos de cor. É fácil amar quem nos acaricia o cabelo e nos pede que fiquemos, quem nos segreda em tom de amor e nos encanta. Amar assim é quase inato.

Mas, como amamos nós em tempos de cólera e tempestade? Como reagimos quando alguém nos diz não te amo mais? Como amamos sem a carícia no cabelo e sem os segredos musicados em acorde maior de amor?

Amar em tempos de cólera não é fácil simplesmente porque não amamos, na maioria das vezes, de forma desinteressada e porque o que queremos do outro nada mais é do que o que necessitamos de preencher em cada parte vazia de nós.

Não é fácil porque não sabemos amar sem ser amados, não sabemos dar sem receber, não conseguimos amar só porque sim, independentemente do que seja. Medimos o que damos pelo que recebemos e quando não há nada a receber deixamos automaticamente de amar. Era só o que faltava, amar alguém que me mente, que me trama, que me diz coisas que não quero ouvir ou que acha que não me quer mais na sua vida. E, então, vem o ódio. Passamos de uma polaridade à outra sem entendermos o que aconteceu no caminho.

Este é o verdadeiro teste, amar, com chuva, num dia de tempestade, em tempo de cólera. Amar quando do outro lado não há amor, quando não há nada do qual nos possamos alimentar. Amar, só porque sim, porque brota de nós e deixamos que se espalhe em nosso redor.


quarta-feira, 23 de abril de 2008

Momento

Por vezes vou juntando umas palavras em tom de poema, com a noção que estão muito longe dessa categoria, mas são palavras e são minhas. Vou soltando por aqui algumas delas, não porque sinta necessidade de partilhá-las mas porque me lembram momentos particulares de coisas que vivi. São momentos...

Pedra desfigurada pelo tempo,
Sorriso apagado e macio...
Olhar de criança cansada....

Mãos rasgadas pela dor,
Peito que o vento teima em queimar...
Perfume de caminhos por percorrer...

Gestos de medos escondidos,
Beijos leves e soltos, desencontrados...
Abraço forte, muralha centenária...

Prazer desenfreado qual noite de vendaval,
Corpo quente, escaldante, em eterna busca...
Carícias ternas, sinceras...longinquas...

Porto seguro, à deriva, num mar de tempestade calma,
Estrela cadente sem destino...viajando sem norte...
Vento que sopra quente no frio da manhã...

Estrada de cores infinitas e curvas sinuosas,
Caminhos sem ver fim...apenas o arco-iris...
Dias de chuva e sol que queimam sentimentos...

Ténue, etéreo, esvoaçante...
Suspiros numa noite que não basta...
Perdido no silêncio que guardas em tua pele...

Momento,
Deixas-me momentos...
Outubro, 2005

Do sentimento que cola

Falar de sentimento nunca é fácil. Ou então, até é fácil mas a sensação é a de que as palavras nunca são as certas e de que o que quer que se escreva nunca está terminado. O sentimento é algo tão imenso, tão inabraçável, que falar dele é sempre começar algo que sabemos não vamos acabar. São as peças inacabadas de uma vida... e a minha vida está repleta de peças inacabadas...

Hoje li algo que uma outra pessoa escreveu sobre o ter que deixar alguém ir. Sobre o não querer, mas ter que deixá-la ir, porque sim, porque a outra pessoa quer, porque não podemos amarrar as pessoas a nós e mantê-las aqui. Era um texto onde cada letra cheirava a mágoa, cada frase deitava uma lágrima por um futuro que não ia chegar. Em cada caracter ou em todos eles só consegui ler: Não quero que vás! Fica!

E, de seguida, pensei que este é o processo natural do ser humano. Não queremos nunca deixar nada ir embora e os argumentos para isso são do mais elaborado. Mas, no final, tudo se resume ao mesmo, ou seja, a questão da perda. Sempre que deixamos algo ou alguém ir sentimos que perdemos um pedaço de nós também. Esta é a verdade e ninguém quer ficar incompleto, sem um bocado de si. Por outro lado, também não queremos largar a única coisa que ainda nos liga a essa pessoa ou coisa e, se continuarmos a sofrer por ela, pelo menos ainda temos isso. E, assim continuamos a alimentar-nos desse sentimento e se mais não há, então que seja de sofrimento que nos alimentamos mas ao menos é direccionado para o mesmo objecto e isso mantém-nos ligado a ele.

Fazemos isso quando alguém querido abandona o seu corpo físico. Choramos não pela pessoa mas por nós, porque não vamos poder estar mais com ela, fazer o que fazíamos com ela, alimentar-nos dela como anteriormente. Não choramos a pessoa em si mas a nossa perda dessa pessoa. Choramos a dor que a ausência dela nos provoca e não a sua ausência de facto. E, ao continuar a chorar mantêmos essa pessoa em nós. Não a deixamos ir.
Fazemos o mesmo quando uma relação amorosa termina. Não o aceitamos e sofremos porque sentimos que no momento em que o fizermos deixamos ir o que resta.

O que não percebemos com todo este processo e que são duas coisa que aprendi, a muito custo e ainda permanecem em processo de digestão... é que a chave de tudo isto está na forma como arrancamos de dentro de nós sentimentos como amor, alegria, felicidade, vontade de viver e os depositamos nessas outras pessoas. Fazemo-lo segredando-nos que não somos nós próprios capazes de nos amar, de nos trazer felicidade, de nos nutrir, que todos os sentimentos de alegria e entusiasmo pela vida estão nessa outra pessoa e que sem ela o céu não é azul e o sol não aquece o nosso rosto. Pois se depositamos tudo isto numa outra pessoa é certo que quando ela vai embora leva tudo isso com ela... e cá ficamos nós...vazios e desmembrados.

Ao mesmo tempo, esta fixação no sofrimento é tal que nos impedimos de entender o verdadeiro propósito das coisas. Porque entram e saem estas pessoas das nossas vidas, o que nos trazem elas, o que deveríamos ter aprendido e não fizemos, mas acima de tudo, não entendemos que elas nunca deixarão de fazer parte de nós. Que o sentimento a que nos agarramos é apenas um espelho do que não conseguimos encontrar em nós e tentamos minimizar a ausência de nós com o sentimento de posse de outrem. Sem nos lembrarmos que a inconstância arruína qualquer tentantiva de plano detalhado e organizado e que estamos, na realidade, a colocar o mais profundo de nós, a nossa essência, numa espécie de bilhete de lotaria que nunca sabemos se tem prémio ou não mas pelo qual vamos esperando, semana após semana.

As pessoas não partem apenas quando as deixamos ir. Por vezes já partiram e nem nos demos conta disso. Mas, ao contrário, é possivel deixar alguém partir e senti-la sempre dentro de nós.

As pessoas não estão connosco apenas porque ficam ou porque nos colamos a elas na esperança da cola nunca perder a sua força, estão connosco porque vivem em nós e há moradas que nunca se esquece. Há pessoas que viverão sempre em mim porque habitam em mim.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Nós e os outros

Não sei se já pararam para analisar as pessoas que normalmente vos rodeiam. Se sim, certamente perceberam em cada uma dessas pessoas aspectos muito particulares que, de uma forma ou de outra, interferem directamente com os vossos processos individuais.

Ele há pessoas para todas as áreas e processos. Há as da irritação, as da falta de paciência, as da estupidez natural ou da falta de dentes ( como diria alguém que descobriu ultimamente uma relação directa entre a ausência de dentes e o nível de inteligência ), as do odor, as da inteligência em excesso, etc, etc, etc. É só escolher. Escolher e olhar para cada um desses comportamentos que nos tiram do sério e perguntarmo-nos, porquê?

Mas porque raio é que o senhor que arruma carros aqui na rua me deixa com os cabelos em pé quando insiste em partilhar comigo a sua má sorte e me vem perguntar qual é o melhor incenso para afastar o mau olhado? Porque será que certos tiques e formas de estar me incomodam até à exaustão? Qual o poder que estas pessoa têm de interferir com com o curso dos meus dias?

Pois, o tempo ensinou-me que ao olhar cuidadosamente para cada pequena coisa que nos faz explodir ou implodir, dependendo de pessoa para pessoa, descobrimos as mais profundas verdades sobre nós próprios. Se assim não fosse, porque motivo nos deixaríamos afectar tanto por factores exteriores a nós próprios?

A importância de fazermos esta análise prende-se com a forma como vivêmos mais ou menos em harmonia. Garantidamente, se não o fizermos e não entendermos a mensagem que subjaz em cada uma dessas pessoas, continuaremos a cruzar-nos com pessoas e processos semelhantes ao longo do nosso percurso sem entender o que significam.

Sim, porque as relações com os outros são verdadeiros testes. Testes à nossa capacidade de aceitação, ao nosso julgador interior, às conceptualizações que estabelecemos sobre o que nos rodeia, aos certos e errados, ao facto de vermos o mundo a preto e branco, a conseguirmos ver para além da formatação que trazemos de trás. No final, a descobrirmos quem somos verdadeiramente.

Crescemos com a ideia de que os outros estão lá e nós aqui, que eles são uns e nós outros, que cada um de nós é uma parte separada do resto. Mas, se voltarmos atrás, muito atrás, e olharmos para a evolução da vida, desde o seu primeiro impulso, percebemos que no início apenas existia uma única parte que se foi multiplicando dando origem a outras pequenas partes que, por sua vez, originaram outras tantas. À luz deste panorama, não fazemos todos parte do mesmo pedaço de vida? Não somos todos uma parte de um todo imenso mas que não significa nada sem as outras partes? Sim, até o senhor que arruma carros aqui na rua é uma dessas partes e, certamente, sem ele o universo não estaria completo. Porque nos cruzamos? pois, essa é a grande questão e o trabalho que vamos continuando a desenvolver para melhor entendermos a vida como uma só, misteriosa e em alguns momentos indecifrável mas uma única peça com milhões e milhões de pequenos pedaços.





quinta-feira, 3 de abril de 2008