quarta-feira, 29 de abril de 2009

Na ausência de ti

A propósito de uma história (in)acabada que me foi contada num dia de ausência sentida.

Contigo ia até ao fim do mundo. Não sei bem onde ele fica, mas ia.
Esta coisa dos sentimentos é assim, faz-nos ir a lugares onde não iríamos de outra forma.
Contigo ia ver o mar, em silêncio, e sentava-me na areia húmida. Depois, olhavamos um para o outro e ríamos porque é mais fácil rir do que falar. Foi sempre mais fácil rir do que falar.
Daqui consigo ouvir o som do mar. Ouço o teu silêncio e nele a voz de todas as coisas não ditas. Talvez porque não houvesse nada para dizer, talvez porque os gestos nos tenham sempre bastado. Talvez porque o tempo nos tenha trazido até aqui, até este lugar onde não precisamos de mais, ou talvez os nossos medos se reconheçam de tal forma que nos paralise a ideia de sermos descobertos um pelo outro. O problema de nos escondermos é que ficamos com um sabor amargo na boca. O problema de nos mostrarmos é que nos dá aquele frio na barriga e começamos a dizer coisas sem sentido. E assim, entre o destapar ou não de nós, vivemos um tempo em que nos perdemos do mundo por momentos breves, tão breves como as palavras que dizemos um ao outro.
O que faz duas pessoas gostarem uma da outra? Acho que ninguém sabe muito bem. Eu não sei porque faço as coisas que faço quando estás comigo ou porque me falta o ar quando te aproximas. Não sei porque não penso em ti durante dias e depois noutros só penso nisso. Não sei porque gosto de sentir os teus braços apertarem-me como se não me quisesses deixar ir. Sei que gosto de ti e que hoje, agora, me fazes bem.
Contigo ficava a noite toda acordada a contar estrelas no céu e quando nos perdessemos na conta voltavamos ao início só porque tinha piada. O riso é a máscara que nos segura quando nos sentimos abandonar um em direcção ao outro. Quando não há mais nada a dizer, quando os olhos se cruzam e os joelhos tremem, é o riso que nos sustém.
Contigo ia até à lua e voltava mas, antes de voltarmos, mostrava-te como o mundo em baixo é pequeno e tudo parece leve e tranquilo. Talvez assim os joelhos não tremessem tanto, talvez assim encontrássemos um espaço onde o chão não parecesse fugir.
Mas, a verdade é que o chão foge e com ele foge o teu toque, que não sinto, o teu suspiro, que não ouço, a expressão nos teus olhos que, sem palavras, dizem "quero-te" e foges tu. O problema é que, sem chão, também eu não consigo ficar.
Mas, no mesmo instante em que viro as costas e caminho para longe de ti, fecho levemente os olhos e revivo todos os momentos; O momento em que senti que me tocavas e me suspiravas ao ouvido. O momento em que nos imaginei sentados, em frente ao mar, em silêncio. O momento em que me pareceu ouvir o teu riso e senti que tudo estava como deveria estar.
Sei que, por um momento, estiveste aqui. Sei que não vais voltar.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Fazes-me falta, sabes?

Não sei onde estavas hoje quando me sentei no banco do jardim.Tenho pensado em ti em muitos momentos, pequenos momentos, intervalos de tempo que te aproximam de mim e nos quais permito que existas. Noutros não te deixo entrar. Fecho os olhos e vou para outro lugar onde não estás porque não consigo estar contigo aqui, neste lugar. Este lugar é cruel, cruel como todos os lugares que sobrevivem ao tempo. Estou aqui e não te sinto. Fazes-me falta, sabes?
Vejo-te sentado na beira do lago a passar a mão pela água, a tentar molhar-me um pouco, a querer que sinta a vida que corre em cada coisa. E sorris, levemente, como quem sabe o que está a oferecer. Depois sentas-te na relva e tentas que me sente contigo. Espalhas a tua voz por entre a brisa que corre e dizes-me como sou bonita, como vês em mim o mundo repleto de fogo de artíficio. "Sabes isso, não sabes? vês como és bonita?" Há momentos, palavras, que só entendemos quando nos aquecem o corpo frio, esquecido num quarto escuro e cinzento. Houve momentos em que a tua voz me fez voltar a mim. Noutros a ausência dela deixou-me cair.
Só por hoje queria ouvir a tua voz novamente e que me contasses uma história, não importa qual. Só por hoje queria ver-te chegar, cansado, e atirares-te para cima da cama num acto de pura preguiça. Só por hoje queria que me abraçasses como se não fosses partir.
Tentei que não ficasses preso no momento de chuva em que te vi desaparecer. Que os dias não trouxessem o peso da tua ausência, que as noites não me asfixiassem ao reviver um momento feliz contigo. Tentei respirar quando senti o ar falhar-me e percebi que não ias voltar, nunca mais. Tentei trazer-te comigo todos os dias. A verdade é que não estás aqui. Não te sinto.
Os dias passam indiferentes à falta que sinto de ti e com eles chegam as imagens esbatidas do que um dia foi mas que lembro com dificuldade. Não sei onde estás, como estás, se estás. Sei que não te sinto e que a memória me vai falhando ano após ano. Em cada respiração tento trazer um pouco de ti para os meus braços e penso no que faríamos se estivesses aqui. Talvez nos sentássemos em frente à televisão a ver um western, enquanto fumavas cigarro atrás de cigarro. Ou então, talvez fossemos até à pastelaria da esquina beber um café e um garoto. Pelo caminho passávamos na banca dos jornais e fazias a tua selecção de leitura.
Passo todos os dias pelo lugar da banca de antigamente que já não é uma simples banca. Está mais apetrechada de material, os jornais são protegidos por uma estrutura sólida em vez de plásticos rasgados e há uma nova senhora que vende os jornais. A outra, a da minha história, mudou de lugar, não vende jornais na banca mas continua criteriosamente sentada no mesmo lugar de sempre. Como se fosse necessária a sua presença para nos lembrar de quem somos.
Fazes-me falta e por vezes acho que o mundo parou de girar no momento em que desapareceste. Abro os braços e giro em torno de mim para produzir um efeito de movimento. Levantam-se as folhas do chão e a poeira aproveita a deixa para mudar de sítio. Mudam-se as poeiras, mudam-se as verdades. Levam-se as verdades de um lugar para o outro e elas deixam de ser o que foram. Nada permanece como me lembro. Não te sinto e não me lembro dos traços do teu rosto. Fazes-me falta.

sábado, 4 de abril de 2009

Asas


"I am a bird girl now, i've got my heart here in my hands now, i 've been searching for my wings some time, i'm gonna be born into soon the sky, 'Cause i'm a bird girl and the bird girls go to heaven. I'm a bird girl, and the bird girls can fly, bird girls can fly."

Quando era criança costumava fechar os olhos e imaginar que estava a voar. Voltava a abrir os olhos sempre para descobrir que não tinha levantado vôo. Nalguns momentos, a capacidade de voar para bem longe ter-me-ia sido muito benéfica. Podia ter batido as asas em momentos que esqueceria de bom grado. Mas a verdade é que nunca consegui voar. Talvez a consequência mais directa disso seja a minha incontrolável vontade de não permanecer no mesmo sítio muito tempo. Feitas as contas, não conheço ninguém que tenha mudado de casa tantas vezes quanto eu. Tenho esta dificuldade de permanecer num lugar. Não tanto por não estar bem onde estou mas por querer mais estar noutro sítio. Muitas vezes esse outro sítio nada mais tem para além de ser simplesmente outro sítio. Mas é que já quis tanto estar noutros sítios e não podia voar..
A certa altura estava a falar com alguém sobre o desejo de voar e ela respondeu-me: "tudo se resume ao que conseguimos ou não ver. No momento em que conseguires ver as tuas asas e acreditares que te vão levantar, então voarás." Lembro-me disso sempre que me doem as costas. Fico a olhar, à espera de ver alguma penugem nascer, à procura das minhas asas. Se me nascessem umas asas de que cor seriam? Brancas, pretas, cinzentas? Queria mesmo umas asas, a cor não me importa nada.