sexta-feira, 30 de outubro de 2009
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Sobre o livro que contava histórias sem embalar
Hoje abri um livro e não te encontrei. Era o mesmo livro de sempre, a mesma capa empoeirada e gasta que via todos os dias quando descia as escadas ainda ensonada. O ritual era o mesmo, fazer café e juntar algo mais para poder chamar-lhe pequeno almoço. Sento-me no sofá, tabuleiro no colo, e vou absorvendo a sensação de estar mais acordada do que a dormir. Um gole de café, uma dentada num pão com manteiga e mais um gole de café. Olho em frente, na prateleira o mesmo livro de sempre, a mesma capa empoeirada e gasta. Tomo o café até ao fim, levanto-me e passo a mão pelo livro em tom de carícia. Pego nele e cheiro-o, fecho os olhos e levo-me para onde as minhas sensações me transportam. Cheira a velho, a passado. Gosto dele por isso mesmo, porque me traz pequenos bocados de coisas que me deixaram, que não estão comigo quando saboreio o meu café, sentada no sofá. Abri o livro, um arrepio percorre-me a espinha e o meu corpo gela da raiz dos cabelos à ponta do dedo maior dos pés. Não estavas lá. Abri o livro e não te encontrei. Procurei página após pagina, linha após linha e não estavas lá. Sentei-me, novamente no sofá, e o meu corpo rígido segura o livro aberto entre os joelhos trémulos. Num repente, fecho o livro com um gesto de força bruta que me faz tremer os ossos. Fecho e abro novamente as mesmas páginas, uma atrás da outra, mais e mais rápido. Estás aqui, estás aqui, sei que estás aqui algures! Tens que estar aqui.... tenho que te encontrar... não te posso ter perdido...
Sem expressão, continuo sentada com o livro nas pernas, fecho os olhos, inspiro um travo de ar e vou para outro lugar. Estou numa casa barulhenta, há crianças a correr de um lado para o outro e as paredes são cor-de-rosa a esconder um verde garrafa antigo cheio de histórias. Ouço a chuva lá fora e num canto um velho aquecedor faz o seu melhor por enxugar a roupa que se molhou de manhã ao voltar da escola. Tem que secar a tempo de voltar para as aulas da tarde. " - O almoço está pronto, meninos, venham para a mesa!
- Que é o almoço hoje? estou cheia de fomeee!
- Sopa de santa teresinha. Vá, sentem-se e comam senão vão chegar tarde às aulas.
- Ohhhhh, outra vez?! Não gosto desta sopa!!!
- Olhem que há muitos meninos que não têm nada na mesa para comer, vá, comam a sopa e despachem-se. Vou ver se a tua roupa já enchugou para não teres que faltar de tarde às aulas."
Abro os olhos, volto ao sofá. Não vejo o livro, olho novamente e encontro-o caído no chão ao meu lado. Seguro-o nas mãos e lembro-me que não estavas no sonho. Não eras tu que colocavas as roupas no aquecedor. Tento encontrar-te num outro momento mas é tudo tão cinzento. Não consigo encontrar-te. Não te encontro no livro de capa gasta, não te encontro no tempo que me trouxe até aqui, não te encontro em mim, nem em ti, nem naquele pequeno momento de tempo em que fui um pedaço de ti. Não sei como te encontrar porque nunca soube onde estavas.
Guardei o livro porque me fazia sentir que estavas aqui. Nele vivia histórias onde te encontrava, onde me aconchegavas à noite e me dizias que não precisava ter medo do escuro, que não existia o bicho-papão e que te podia chamar se sentisse medo, que estavas já ali ao lado. A porta do quarto ficava entre aberta e podia ouvir o barulho da televisão e das conversas de serão na sala. Adormecia e sentia que tinha o mundo. Guardei o livro porque não te queria deixar ir, mesmo sem nunca aqui teres estado.
Pelo caminho, tropecei, caí, levantei-me, chorei, gritei, dormi e acordei. Acordei hoje, nesta sala, sentada neste sofá e nos intervalos dos goles de um café amargo e fraco abri um livro e não te encontrei. Não te encontrei a ti porque foi a mim que me encontrei nele. Nesta casa, neste sofá, nesta vida que entra pela janela e me faz sentir amada e com vontade de amar. Que me faz querer abrir os braços e deixar que me levem sem perguntar onde vamos. Que me faz querer deixar-te ir e que contigo leves tudo o que não tiveste para me dar mas que guardei num livro que carreguei comigo em todos os lugares onde fui mas não estive.
Sigo sem ti, mas agora comigo.
Sem expressão, continuo sentada com o livro nas pernas, fecho os olhos, inspiro um travo de ar e vou para outro lugar. Estou numa casa barulhenta, há crianças a correr de um lado para o outro e as paredes são cor-de-rosa a esconder um verde garrafa antigo cheio de histórias. Ouço a chuva lá fora e num canto um velho aquecedor faz o seu melhor por enxugar a roupa que se molhou de manhã ao voltar da escola. Tem que secar a tempo de voltar para as aulas da tarde. " - O almoço está pronto, meninos, venham para a mesa!
- Que é o almoço hoje? estou cheia de fomeee!
- Sopa de santa teresinha. Vá, sentem-se e comam senão vão chegar tarde às aulas.
- Ohhhhh, outra vez?! Não gosto desta sopa!!!
- Olhem que há muitos meninos que não têm nada na mesa para comer, vá, comam a sopa e despachem-se. Vou ver se a tua roupa já enchugou para não teres que faltar de tarde às aulas."
Abro os olhos, volto ao sofá. Não vejo o livro, olho novamente e encontro-o caído no chão ao meu lado. Seguro-o nas mãos e lembro-me que não estavas no sonho. Não eras tu que colocavas as roupas no aquecedor. Tento encontrar-te num outro momento mas é tudo tão cinzento. Não consigo encontrar-te. Não te encontro no livro de capa gasta, não te encontro no tempo que me trouxe até aqui, não te encontro em mim, nem em ti, nem naquele pequeno momento de tempo em que fui um pedaço de ti. Não sei como te encontrar porque nunca soube onde estavas.
Guardei o livro porque me fazia sentir que estavas aqui. Nele vivia histórias onde te encontrava, onde me aconchegavas à noite e me dizias que não precisava ter medo do escuro, que não existia o bicho-papão e que te podia chamar se sentisse medo, que estavas já ali ao lado. A porta do quarto ficava entre aberta e podia ouvir o barulho da televisão e das conversas de serão na sala. Adormecia e sentia que tinha o mundo. Guardei o livro porque não te queria deixar ir, mesmo sem nunca aqui teres estado.
Pelo caminho, tropecei, caí, levantei-me, chorei, gritei, dormi e acordei. Acordei hoje, nesta sala, sentada neste sofá e nos intervalos dos goles de um café amargo e fraco abri um livro e não te encontrei. Não te encontrei a ti porque foi a mim que me encontrei nele. Nesta casa, neste sofá, nesta vida que entra pela janela e me faz sentir amada e com vontade de amar. Que me faz querer abrir os braços e deixar que me levem sem perguntar onde vamos. Que me faz querer deixar-te ir e que contigo leves tudo o que não tiveste para me dar mas que guardei num livro que carreguei comigo em todos os lugares onde fui mas não estive.
Sigo sem ti, mas agora comigo.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Reflexos
Vejo-te, num reflexo ténue, numa mancha que desaparece quando estico a mão para te agarrar. A vida é feita de manchas e de mãos que envelhecem a tentar alcançar o que temos cá dentro. Estamos cheios, cheios de coisas que nos correm nas veias e se espalham à procura da porta de saída. Coisas que nos dão forma e nos fazem ser quem somos, coisas que carregamos connosco onde quer que vamos, coisas que queríamos poder arrancar de nós à dentada e cuspí-las, com força, para muito longe.
Quem és tu? Que trazes contigo quando chegas sem avisar e passas os teus braços pela minha cintura? Eu sou feita de bocados de terra seca que o vento atira em todas as direcções. A mesma terra que pisas onde quer que vás, a terra que serviu de ventre ao que te alimenta e que sustenta o sopro de todas as batalhas que travas, vestido de lança e armadura amolgada.
Eu sou o mesmo que tu mas há dias em que corres montanha abaixo pronto para me trespassar, para me fazer sangrar. E sangro, sangro, sangro e sangro e é sangue que procuras quando olhas para o meu corpo sem nele conseguires encontrar-te, encontrar-me. Somos o mesmo mas em momentos diferentes. Como se uma parte de de mim vivesse de noite e morrese ao amanhecer, quando vives tu. Como se o mesmo momento falhasse em nos aproximar o suficiente e o teu reflexo o que restasse todas as manhãs.
E todos os dias fazemos a mesma promessa; encontramo-nos aqui mais logo. Espero por ti.
Quem és tu? Que trazes contigo quando chegas sem avisar e passas os teus braços pela minha cintura? Eu sou feita de bocados de terra seca que o vento atira em todas as direcções. A mesma terra que pisas onde quer que vás, a terra que serviu de ventre ao que te alimenta e que sustenta o sopro de todas as batalhas que travas, vestido de lança e armadura amolgada.
Eu sou o mesmo que tu mas há dias em que corres montanha abaixo pronto para me trespassar, para me fazer sangrar. E sangro, sangro, sangro e sangro e é sangue que procuras quando olhas para o meu corpo sem nele conseguires encontrar-te, encontrar-me. Somos o mesmo mas em momentos diferentes. Como se uma parte de de mim vivesse de noite e morrese ao amanhecer, quando vives tu. Como se o mesmo momento falhasse em nos aproximar o suficiente e o teu reflexo o que restasse todas as manhãs.
E todos os dias fazemos a mesma promessa; encontramo-nos aqui mais logo. Espero por ti.
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