quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Reflexos

No silêncio dos teus olhos procuro a vontade para agarrar o mundo.
Vejo-te, num reflexo ténue, numa mancha que desaparece quando estico a mão para te agarrar. A vida é feita de manchas e de mãos que envelhecem a tentar alcançar o que temos cá dentro. Estamos cheios, cheios de coisas que nos correm nas veias e se espalham à procura da porta de saída. Coisas que nos dão forma e nos fazem ser quem somos, coisas que carregamos connosco onde quer que vamos, coisas que queríamos poder arrancar de nós à dentada e cuspí-las, com força, para muito longe.
Quem és tu? Que trazes contigo quando chegas sem avisar e passas os teus braços pela minha cintura? Eu sou feita de bocados de terra seca que o vento atira em todas as direcções. A mesma terra que pisas onde quer que vás, a terra que serviu de ventre ao que te alimenta e que sustenta o sopro de todas as batalhas que travas, vestido de lança e armadura amolgada.
Eu sou o mesmo que tu mas há dias em que corres montanha abaixo pronto para me trespassar, para me fazer sangrar. E sangro, sangro, sangro e sangro e é sangue que procuras quando olhas para o meu corpo sem nele conseguires encontrar-te, encontrar-me. Somos o mesmo mas em momentos diferentes. Como se uma parte de de mim vivesse de noite e morrese ao amanhecer, quando vives tu. Como se o mesmo momento falhasse em nos aproximar o suficiente e o teu reflexo o que restasse todas as manhãs.
E todos os dias fazemos a mesma promessa; encontramo-nos aqui mais logo. Espero por ti.

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