sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sobre Deus e outros fenómenos

Como a maioria das crianças com que cresci, a palavra Deus e o conceito que vinha com ela acompanharam-nos durante todo o processo de crescimento.
O meu primeiro contacto com este conceito aconteceu cedo. Com pouco mais de 7 anos entrei para uma escola marcadamente católica onde a relação com Deus e a forma como tínhamos que nos comportar para sermos aceites por ele, nos eram martelados minuto a minuto. Era um mundo à parte. Não existia um director da escola mas uma madre-superiora que me lembro fazer questão de ser reconhecida como tal em todas as conversas. O edíficio era antigo, como não podia deixar de ser, e as salas eram frias e desprovidas de qualquer conforto. Afinal de contas, para Deus gostar de nós não podíamos estar resguardados do frio do inverno e tínhamos que penar e esperar pelo soar do fim do dia para podermos voltar a casa. Lembro-me, também, que não podia vestir calças porque apesar da escola ser mista vivia-se um clima de terror latente, não fossem os rapazes aperceberem-se de que eramos raparigas e vice-versa. As calças, dizia a madre-superiora, marcavam o corpo, deixavam notar o corpo feminino e chamavam a atenção dos rapazes. Só com isto já tinha um problema, odiava saias, vestidos e tudo o que não fossem calças.
Quarta-feira, às 9h, era dia de missa e não falhava nem se o padre estivesse doente porque se arranjava logo um substituto. Nesse dia, a família podia estar presente e partilhar da palavra do senhor. Pena que o senhor falasse sempre tão baixo que não o conseguia ouvir. Para tal servia o padre, o tal interprete da palavra do senhor, diziam. Ao contrário também não funcionava muito bem, o senhor também devia ter problemas auditivos...
Sempre me senti deslocada naquele sítio. Não tinha pais ricos, não partilhava do mesmo background cultural e social das restantes crianças e sentia-me claramente excluída. Não tínhamos os mesmos gostos, não fazíamos os mesmos planos de fim-de-semana e o ambiente familiar não podia ser mais diferente. Mesmo assim, por insistência, queriam que permanecesse naquela escola. Claro está, que o resultado não podia ser famoso e com o tempo a madre-superiora brilhantemente percebeu que eu era uma criatura das trevas e não me enquadrava naquela escola pelo que chamou os meus pais e aconselhou-os a procurar uma escola onde me enquadrasse melhor; que foi o mesmo que dizer, fui expulsa e só não usaram essa palavra porque o valor que cobravam mensalmente não lhes permitia usar dela.
Mas, não foi fácil chegar a esse momento. Passei por um ano de orelhas de burro, reguadas, puxões de orelhas e tudo o mais que se fazia ali em nome do senhor. "Aqui as crianças crescem segundo as leis do senhor" era o que tanto se ouvia por aqueles corredores. Bom, se alguma vez estivemos de acordo foi quanto ao facto de que os caminhos do senhor são, de facto, turtuosos.
Havia um dia específico para as confissões em grupo, já não me lembro qual o dia, mas juntávamo-nos todos numa sala e cada um tinha que confessar, alto e bom som, os pecados que tinha cometido durante esses dias. Pior do que confessar os pecados era encontrá-los e o dia anterior era sempre dia de fazer uma lista e inventar coisas, pecados, que sabia iriam fazer os olhos da madre-superiora brilharem. "Ontem estava tão cheia de ódio que agarrei num sabonete, novinho em folha, que estava na casa-de-banho, arranhei-o todo e arranquei pedaços inteiros com as unhas. Depois, voltei a colocá-lo no suporte, já defeituoso e nada com aspecto de sabonete novo..." Lembro-me como se fosse hoje, os olhos dela vibraram, bateu na mesa com a palma da mão e disse: " Que coisa mais horrível de fazer! O que é que a menina acha que Jesus achou disso? Acha que ficou contente consigo?" Encolhi os ombros e fui para a capela fingir que rezava o número de pai-nossos e avé-marias que me iriam salvar do inferno, por ter destruído um sabonete perfeitamente bom e novo.
Mas, o pior dos piores cenários aconteceu com a ida a Fátima. Milagrosamente, coincidiu com a vinda do pápa a portugal e instalou-se o caos naquela escola. Era a loucura dos preparativos e lá fomos todos em camionetas abençoadas para fátima. O calor não se aguentava, estavam milhares e milhares de pessoas e não havia uma sombra. Lembro-me, como hoje, de perceber que de toda a comitiva era a única que parecia incomodada e muito pouco entusiasmada com todo aquele reboliço. Todos procuravam um lugar melhor, queriam ver o pápa, queriam a melhor vista. Eu, só queria mesmo sentar-me, de preferência à sombra, e conseguir um pouco de espaço livre para respirar sem ter que inalar o odor de um outro corpo colado a mim. Foi a histeria completa. Senti-me mal e só me lembro de acordar já na camioneta, de volta a casa. Uns dias depois, veio a conclusão de que não me enquadrava naquele modelo educativo e que a bem do meu interesse deveria mudar de escola. E lá fui eu para uma escola "normal" onde, aparentemente, o senhor não conseguia ver nem ouvir e estavamos todos a salvo. A salvo, entenda-se do inferno.
Ao longo dos anos a minha relação com Deus passou pelas mais variadas fases. Ouvi relatos e mais relatos de experiências e opiniões pessoais, li e reli em busca de algo que me trouxesse uma resposta. Finalmente, quando já não tinha mais onde procurar a um nível físico, concluí que a resposta tinha que estar dentro de mim. Ou acreditava ou não acreditava. Ou tinha ou fé ou não tinha. Tudo se resumia à crença individual e única de cada um. Com o tempo, fui criando a minha própria forma de aceitar Deus na minha vida, fui deixando pequenas coisas de parte que não me faziam sentido mas, ao mesmo tempo, permaneciam sempre alguns pós da essência que era acreditar em Deus. Mas, o meu sinal de alerta mantinha-se ligado. O puzzle ainda não estava completo e algumas das peças encaixavam a muitoo custo.
O teste, sentia-o sempre que me era colocada a pergunta: "Acreditas em Deus?" Sim, era a resposta automática. Depois, vinham todas as minhas explicações de como acreditava num Deus diferente, com esta e aquela alteração. Isto porque, interiormente, não tinha ainda encontrado a capacidade de assumir a verdade que sentia. Sempre que demorava mais a responder à pergunta e me preparava para acusar uma resposta negativa sentia uns olhos do tamanho do mundo postos em cima de mim, os olhos da madre-superiora, talvez, ou dos santos que o meu avô mantinha em cima da sua mesa de cabeceira, quem sabe.
O peso da crença familiar, social, faz-nos perder a força para aceitar a nossa própria verdade. O medo, disfarçado de argumentos lógios, leva-nos a afastar-nos mais e mais de nós próprios, a anularmos a voz que nos grita do fundo de nós mesmos.
Levei anos a conseguir afirmar que não acredito em Deus. Anos e anos de conquista da minha vontade interior, sem punição ou castração. Sem recear a sala de confissão de pecados.
Alguém dizia, um dia destes, que mesmo quem age de forma menos boa em relação aos outros está igualmente a fazer um trabalho na direcção do bem, porque nos permite constatar o seu erro e afastarmo-nos dessa forma de acção. Assim sendo, obrigada madre-superiora.
É um facto, que não existirá melhor ferramenta de controlo que esta da crença, seja ela no que for. Osho, disse algo do tipo " Todo o homem que vos der um sistema de crença é vosso inimigo". E os inimigos do Homem estão à vista, espalhados entre igrejas e governos, entre países e linguas diferentes, mas todos utilizam a mesma poderosa ferramenta.
O triste da coisa é que enquanto nos mantivermos a olhar para o céu, não conseguimos olhar para dentro de nós. Enquanto pudermos usar Deus como desculpa para os nossos próprios erros e escolhas, não as vamos aceitar e tomar responsabilidade por elas. Enquanto não matarmos definitivamente o Deus que veio com a cassete de formatação inicial, não conseguiremos encontrar a divindade que vive em nós. E, mais triste ainda, enquanto tudo isto não acontecer, todo o trabalho em prol de outro será pura projecção de ego, uma mera tentativa de preenchimento de vazios pessoais. Todo o serviço ao outro não passará, na realidade, de serviço a nós próprios, todo o amor que brotar de nós chegará ao outro contaminado, cheio de ansias e vontades individuais de compensação. Enquanto não matarmos este Deus e nos encontrarmos connosco próprios, estamos condenados a viver apenas na sombra de algo que poderia ser.
É preciso matar Deus para voltar a encontrá-lo, num outro plano, numa outra forma, na pura manifestação de energia que é a vida e no que de divino existe em todos os seres.

A maratona dos erros

Passamos a vida a dizer que nada acontece por acaso. Eu, confesso, gasto a frase. Mas, uma coisa é dizer, outra é perceber diariamente a sua abrangência e o impacto em nós.
Acredito que não existem coincidências, digo-o tantas vezes que já é quase mecânico. Sei que não nos cruzamos com ninguém só porque sim. Sei que todas as pessoas que passam pela minha vida trazem algo de crescimento para mim.
O que me irrita tremendamente, é o estar a ver tudo ao longe, a assistir de camarote ao cometer de erros mais do que conhecidos e ainda assim não conseguir pará-los. Por vezes, vejo-os, aos erros, a saírem disparados na direcção da ratoeira, ainda tento alcançá-los na esperança de interromper o processo mas parece-me que eles, os erros, correm a uma velocidade largamente superior à da minha capacidade de reacção... Quase como um vómito inesperado que não se controla.
Bolas, um dia destes hei-de conseguir correr mais rápido e cortar a meta das asneira antes deles, dos erros. Ai vou, vou!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A propósito de sentimentos verdadeiros

Anjana é um chimpanzé que vive na Tigers, na carolina do Sul. Quando o furacão Hannah separou dois tigres brancos da sua mãe, Anjana resgatou-os e adoptou-os. Não é caso raro uma vez que Anjana tem frequentemente adoptado vários com várias crias de leões e leopardos que ali chegam desamparados.




Estes são os momentos em que a maioria dos humanos tem muito a aprender com um animal não humano.

É natal, é natal

Ontem, por motivos de força maior, tive que me deslocar a um shopping... dia 23 de Dezembro, 20h e bora lá ao shopping... Às tantas, pensei eu, até já nem está muita gente porque já fizeram as compras todas. Pois, claro que sim, e o pai natal existe mesmo, não muda de roupa há anos e consegue estar em milhares de sítios ao mesmo tempo...
Filas e filas, gente e mais gente, compras e mais compras. Não há altura do ano que espelhe melhor o tipo de pessoas em que nos tornámos.
Depois vem a cena da família. Gente que não se suporta, não se vê durante todo o ano mas que se aturam noite a dentro porque é tradição e parece mal não ter família. Sim, porque família é família e não há-de ser por durante o ano terem andado a lixar a vida uns aos outros que se deixa de passar o natal em família.
Com o tempo vou tendo menos família de natal, é um facto. Mas o tempo também me tem trazido o verdadeiro significado de família e, garanto-vos, afasta-se muito deste teatro natalício.
Família, são as pessoas que gostam de nós, no matter what, com o que temos ou não temos, que nos aceitam como os seres que somos realmente. São aqueles que não estão na festança de natal mas pensam em mim, com carinho, no outro canto do mundo.
O jantar lá em casa hoje é seitan à braz, vinho e conversa. No pensamento, como em qualquer outro dia, estarão pessoas por quem nutro o maior carinho. A eles brindaremos com alegria.
Um feliz dia para todos.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Gosto de ti, simplesmente

Gosto de ti. Sem porquês, sem complicações, sem motivo. Gosto de ti porque sim.
Mas se queres um motivo, que seja por hoje ser sexta-feira. Ou talvez, porque do outro lado do mundo existe uma montanha toda forrada de verde, com um colar branco desenhado à mão. Se isto não chegar, então pode ser porque ontem, ao sair de casa, uma borboleta azul me pousou no ombro e respirou fundo. Mas, a mim, simplesmente porque sim, basta-me.
Podia pensar em mil motivos para gostar de ti mas não quero. Quero isto do gostar só porque sim. Quero não pensar no que vem a seguir e ver a tua transparência por entre um esgalhar de sorrisos escondidos.
Que bom! Gosto de ti! E gosto de ti assim, sem mais nada a atrapalhar.
E não me perguntes quanto gosto porque não sei. Não sei se gosto de ti daqui até à lua ou daqui até ao sol. Não sei quanto isso é e não o quero medir.
Quero apenas gostar, assim, como quando a espuma do mar bate na rocha e vai embora depressa, mas com a certeza de voltar.
Talvez, de mim até ti seja a medida certa. E de quanto mais precisamos realmente?
Gosto tanto de ti quando vejo o pôr do sol... Gosto de ti quando acordo de manhã e vejo o céu azul através da janela... Gosto de ti.
E se isto não te chega, tudo será diferente porque falta um pouco de ti em cada movimento breve, em cada respiração que prendo de olhos fechados e em cada suspiro que deixámos fugir.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Versão adaptada de um poema contado

Não se deixem confundir pela similaridade dos dois títulos. O outro post refere-se a um poema que nunca chegou a ser contado, simplesmente porque não. Ao contrário, este de que vos falo agora tem sido contado, vezes sem conta, de uma e outra forma, com palavras de todas as cores e cheiros. E, não, não foram as palavras que não foram as adequadas. O muro que vislumbras é que é demasiado alto e denso. E não, as mãos não não atravessam muros mas os sentimentos sim.

A propósito de um pedido de alguém que leu o tal outro poema não contado e veio ter comigo: "A pedir um jeitinho também para mim ( ela ) . Julgo que seria um serviço muito útil à comunidade, criar um blog só com expressões de sentimentos alheios, com manifestações de pontos de vista em nome de outros, com uma retórica qualquer cujo objectivo primordial fosse a re-união e o re-entendimento. Com jeitinho até fazias fortuna."

[ela a tentar convencer-me]

- Ó pá... mas tu conheces alguém que tenha batido mais com a cabeça na parede do que eu?
- Mas tu consegues escrever.
- Mas os meus dons não surtiram efeito nenhum.
- Se calhar não é por causa das palavras. É pela qualidade da parede.

"Tenho dúvidas que alguém mude de ideias porque leu seja o que for. É escusado juntar mais verbo, menos adjectivo, mais nome, menos ritmo. Quando uma pessoa decidiu emocionalmente não nos ligar nenhuma, não há nada que se possa fazer. Cheguei a pensar que estaria a dizer as coisas erradas. Mas hoje acredito que não há melhor nem pior maneira de dizer uma coisa. Há melhores e piores maneiras de se ouvir. As vezes que mais fui ouvida, não cheguei a dizer nada. Para quem quer ouvir-nos, chega o silêncio. Não concordas?"

Concordo. Não é possível ouvir quando estamos rodeados de barulho, seja de que tipo for, sendo que o barulho mental é aquele de que mais dificuldade temos em nos abstrair. Mas isto tu sabes...

"Obrigada na mesma. No entanto, se quiseres investir just for fun naquilo que eu devia dizer ou naquilo que sinto que não soube transmitir, estás à vontade. Gostava de ver o exercício. Pode ser que eu me comova. Ou que me reveles um caminho novo que eu me esqueci de percorrer."

O jeitinho, a ajuda que me pedes passa muito pouco pelas minhas palavras e muito mais pela direcção na qual vão as tuas. O tal caminho novo que equacionas ter esquecido de percorrer.

" Mas porque me fazes tantas perguntas e levantas tantas hipóteses se são só isso mesmo? não passam de hipóteses."

Por isso mesmo, para que não deixes de lado nenhum dos caminhos que poderás percorrer. Para que não te centres no único que te mantém ligada ao teu foco de dor. Para que reencontres o caminho de volta para ti própria e não o que te afasta dele.

Repara, vou usar as tuas palavras e soprá-las noutra direcção. Quando as leres, em voz alta, deixa que sejas tu mesma o destinatário. Sente, de que forma elas vivem dentro de ti mesma. Fecha os olhos e repete estas palavras para ti própria:

"Sei-te de cor. Como fecham os olhos. As rugas que riscam os espelhos. Os cabelos alinhados. A tosse-tique-ritmado. Sinais. Olhar posto no infinito mas para dentro, na profundidade. Mau-humor. Coração ora mel ora pedra: a contradição que te desconcerta. Avisos de frágil na expressão do rosto como se fosses um caixote vindo de muito longe, lá dos confins da terra sem nome de onde vens. Como se pusesses um aviso para a quantidade de coisas que levas dentro: figuras quebráveis de gelo transparente.

Vejo-te quando fecho os olhos. E também consigo ver-te quando não os fecho.

Gosto de ti e agora sei que gosto de ti até ao fim da vida. Sem tamanho possível de conceber. Sem drama. A felicidade existe sem ti. Mas cheia de contra-senso, como se eu vivesse duas vidas em paralelo."

"Aquela dor persiste nas gargalhadas e sorrisos. Mesmo quando me sinto alegre. Sobretudo aí. Faltas-me sobretudo aí. Que eu sinto felicidade, sinto. Como esperei, como esperámos, lembras-te? Mas faltas-me tu para rir comigo do lado de dentro dela."

"Escrever não serve para nada se não serve para isto: para sermos ouvidos. Sempre que o fiz, bati com a cabeça nos muros erguidos. Sempre que falo contigo, as palavras não passam de uma boca cheia de verbos que se abre e fecha, inúmeras vezes, a encher-te o cérebro de ruido. Isso, apenas ruido. A verdade é que não me ouves. Sei lá qual é a qualidade do muro que ergueste.

[É como se não me ouvisse, como se não se ouvisse, nada a fazer.]"

Muito barulho em redor. Muitas distracções mentais. Só se duvida com a mente, só se ouve bem com o coração.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Anatomia de Grey e Dali

Ontem, depois de ver um episódio da Anatomia de Grey, levei uma pergunta comigo para a cama:
- O que precisamos fazer para impedir de nos afogarmos?
Adormeci com este pensamento e, claro está, tive o mais estranho dos sonhos:
Sonhei com um mar imenso, encrespado, cinzento e frio. Populado de milhares de cabeças que tentavam desesperadamente manter-se à superfície e não se deixar levar pelo silêncio e calma que se ofereciam uns palmos abaixo. Não me vi, mas sei que estava lá. Senti o frio daquela água, ouvi os segredos que o vento trazia por entre o embate de cada onda e o meu corpo cansado de lutar para se manter.
Era um quadro de Dali, seguramente. A força das ondas trazia o impacto das suas pinturas.
Acordei com a imagem da meredith a desaparecer na água, simplesmente a deixar-se ir...
O que temos de fazer para impedir de nos afogarmos?

sábado, 29 de novembro de 2008

Versão adaptada de um poema não contado

Estava eu a falar ontem com uma amiga sobre como estava a ser díficil para ela chegar dentro de alguém a quem quer muito chegar. Falou-me de uma pergunta não respondida porque sabia que aquele não era o momento certo.
Fiquei com as palavras dela no ouvido. Cada querer soou como um poema de vontades inacabas que não conseguiam fazer-se guerreiras o suficiente para vencer as muralhas do medo.

- Epah, isso dito assim dava um poema! Disse eu.
- Ah isso dos poemas é a tua onda, faz tu e pôe no teu blog. Pode ser que um dia ela (a pessoa ) vá lá ver...

Esta é a versão adaptada do que alguém quiz dizer num momento e não conseguiu, porque não, porque não era a altura certa, porque a voz falhou, porque sabia não ter espaço.

Quero o não óbvio. O toque, o estremecer, o olhar.
Quero uma respiração abafada perto do meu peito que conte as tuas mágoas, assim, sem palavras.
Um abraço que aqueça todo o meu corpo e o faça tremer de sentimento.
Quero que cruzes os meus dedos com os teus e deixes que a tua história se conte, no silêncio.
Que sintas o bater do meu coração e que nele viajes por um tempo de tranquilidade e segurança.
Quero que em mim consigas deixar um pouco de ti.
Que sorrias num momento de prazer e me encontres nele.
Quero que me mostres algo novo de ti.
Que te permitas sentir, sentir-me.
Quero que atravesses o deserto e venhas na minha direcção.
Que o teu corpo flua em movimento e vença a inacção.
Quero contar as linhas do teu rosto e saber o dia em que nasceram.
Que aqui encontres uma história que ouviste um dia.
E quero que fiques só mais um pouco. Por mim, pela minha história, porque queres ficar.

Missão cumprida ;)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Os mestres da nova era

Ora, estava eu muito bem sentadinha na minha cadeira, na loja, a despejar referências para um maravilhoso programa de contabilidade, quando entra um indíviduo e me diz: Vi um papel ali fora a dizer que fazem reiki. E eu, sim. E ele continua: Ahh então fazem Reiki aqui, é isso? Ao que eu respondi, sim, tal como está escrito no papel,fazemos. E ele: Ahh pronto, é bom saber essas coisas. E eu, sorri... Do nada, vira-se e diz: Sabe, eu sou mestre de Reiki. E eu... não me ocorria nada mais para lhe dizer para além de: Bom para si! Mas, continuei apenas a sorrir... Ao que ele, não satisfeito com o facto de eu poder não ter ouvido bem a afirmação, repetiu: É que eu sou mestre de Reiki! Não consegui encontrar mais nenhuma resposta, sem ser o meu silêncio que deve ter feito algum ruído, ainda assim, porque a pessoa deu meia volta e saiu.
Isto é assustador. Como é que é possível que com o número de mestres que andam espalhados por todo o lado, o mundo esteja no plano em que está? Seria de esperar que algum equílibrio mais tívessemos já conseguido alcançar com tanto ser humano sábio e tanta mestria.
Nos últimos 2 a 3 anos, tenho conhecido mais mestres que pessoas "normais". É uma pena que se tenha perdido o verdadeiro sentido do que é um Mestre e que a meta seja muito mais o "cargo" do que o aprendizado e o crescimento.
O mais engraçado de tudo isto ainda é o facto de ter já conhecido algumas pessoas que, na minha opinião, se poderiam intitular verdadeiramente de mestres mas como estas têm humildade e sabedoria suficientes para entender o caminho que ainda têm para percorrer, recusam o título. Para mim, algumas dessas pessoas foram realmente mestres, mestres que me ensinaram coisas tão importantes que não poderia descrevê-las. Por vezes, um simples olhar, sorriso ou silêncio.
Fico grata por todos os meus mestres não o serem e por me terem permitido cruzar com eles.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O medo

O medo é o pior dos sentimentos.
Torna-nos pequenos, transforma o que nos rodeia em monstros com sete cabeças, qualquer uma delas pronta para nos engolir a todo o momento.
O medo vive em nós como a âncora de um barco que quer navegar para longe mas é impedido por forças incumensuravelmente maiores. O medo mantém-nos preso a lugares de que já nem temos lembrança.
Vou, não vou. Fico, não fico. Digo, não digo. Sou, não sou. Vivo, não vivo, morro...
Medo de ti, de mim, do mundo. Medo de ir e não voltar.
O medo tolhe-nos e, com o tempo, as marcas dele vão ficando impressas nos corpos que passeiam pelas ruas, desalinhados, encolhidos, sempre à procura da esquina que vem a seguir.
Foge-se não se sabe bem de quê, indo não se sabe bem para onde e, pelo meio, perdêmo-nos a nós próprios.
Medo é condição de infelicidade conscientemente disfarçada.

domingo, 9 de novembro de 2008

Desassossego


A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo.

Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos sonhado, intacto, eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.

Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Tributo a ti



Para um dos personagens mais importantes da minha vida. Amo-te.

Ana Free pelos meus pensamentos


Agora que aprendi a mexer com o moviemaker não quero outra coisa!
Deixo aqui a minha interpretação para uma música que me tem varrido o pensamento diariamente... é daquelas coisas que simplesmente não desaparecem...

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Uma vez...

Uma vez
Era o génio e o louco
Separaram-se até mais ver
Mas não deixaram de se corresponder
Uma vez
Era o choro e o riso
Também eles fizeram planos
De nunca deixarem de se entender

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Activismo puro!



Sei que nunca falei muito por aqui do meu tempo de activismo pelos direitos dos animais. Foram tempos que me trouxeram um crescimento imenso a vários níveis. Também, um cansaço emocional proporcional... Mas, não posso deixar de partilhar estas pérolas que descobri no meu pc e das quais já nem me lembrava!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Demónios interiores

Sentei à minha mesa
os meus demónios interiores
falei-lhes com franqueza
dos meus piores temores

tratei-os com carinho
pus jarra de flores
abri o melhor vinho
trouxe amêndoas e licores

chamei-os pelo nome
quebrei a etiqueta
matei-lhes a sede e a fome
dei-lhes cabo da dieta

conheci bem cada um
pus de lado toda a farsa
abri a minha alma
como se fosse um comparsa

E no fim, já bem bebidos
demos abraços fraternos
saíram de mansinho
aos primeiros alvores
de copos bem erguidos
brindámos aos infernos
fizeram-se ao caminho
sem mágoas nem rancores

Adeus, foi um prazer!
disseram a cantar
mantém a mesa posta
porque havemos de voltar

Mais Jorge Palma, no seu melhor

O discurso do método

Quando Descartes escreveu o Discurso do Método, certamente escreveu-o com o cuidado necessário a que todos o entendessem. Afinal, é esse o propósito de um pensador e filósofo que dedica o seu tempo ao entendimento e explicação das coisas do mundo. O Discurso do Método não é de leitura simples, pelo menos para o comum dos mortais, mas deparei-me com a sensação de que nenhum discurso, com mais ou menos método, o é.
Acho que, em boa verdade, ninguém pode dizer com toda a certeza, que todas as dissertações que Descartes escreveu sobre o seu entendimento do mundo das coisas, são realmente entendidas da forma que pretendia. Descartes e outros escreveram sobre coisas e seguiram-se outros que escreveram sobre o entendimento das coisas que os anteriores tinham escrito.
São palavras e palavras. Muitas palavras a explicarem coisas, coisas que outros disseram e escreveram num dado momento, coisas que não se sabe bem estarem intactas na sua verdade.
Este é o problema de todos os discursos; Muitas palavras ditas num momento.
Quem discursa, por norma, fá-lo porque sente ter algo a transmitir de importante a outros, logo o entendimento das suas palavras é importante. Não sei se todas as minhas palavras têm sido verdadeiramente entendidas em todos os momentos.
Quero eu que assim tenha acontecido... Quero eu, também, que todas as palavras que a mim tenham que chegar, aconteçam no momento, forma e entendimento correctos...

O bairro do amor ( sim, sorrir um pouco ajuda...)

No bairro do amor a vida é um carrossel
Onde há sempre lugar para mais alguém
O bairro do amor foi feito a lápis de cor
Por gente que sofreu por não ter ninguém

No bairro do amor o tempo morre devagar
Num cachimbo a rodar de mão em mão
No bairro do amor há quem pergunte a sorrir:
Será que ainda cá estamos no fim do verão?

Eh, pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair-me um pouco
Eu sei que tu compreendes bem.

No bairro do amor a vida corre sempre igual
De café em café, de bar em bar
No bairro do amor o sol parece maior
E há ondas de ternura em cada olhar.

O bairro do amor é uma zona marginal
Onde não há prisões nem hospitais
No bairro do amor cada um tem de tratar
Das suas nódoas negras sentimentais

Eh, pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair-me um pouco
Eu sei que tu compreendes bem.

Mestre, Jorge Palma

domingo, 5 de outubro de 2008

Metade

Tenho estado apaixonada por este poema cantado desde o momento em que o ouvi pela primeira vez. Têm sido vários os filmes e interpretações que vi dele, até que chegou o momento de criar a minha própria interpretação.

Estas imagens são as que falam de mim neste poema e o resultado final nada tem de metade mas de plenitude. Esta sou eu, inteira.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Procura-se: Alma gémea.

Os fenómenos sociais são de facto extraordinários. Estudá-los e analisá-los tem sido uma imensa fonte de crescimento a todos os níveis.

O conceito de alma gémea tem sido algo tão explorado nas últimas décadas que já roça o aborrecido, o número de livros e filmes que falam de como encontrar a nossa alma gémea ou de alguém que encontrou a sua e viveu feliz para sempre. Arghhhh

É extraordinário o processo que fazemos de nos despirmos de tudo o que é belo e existe em nós e colocá-lo longe, sabe-se lá onde, para depois passarmos o resto da vida a juntar os pedaços que espalhámos por aí.

Como autómatos, engolimos estas baboseiras pré-fabricadas e entoamos estas palavras num tom especial, quase divino. A minha alma gémea...

Primeiro retiraram Deus de dentro de nós e colocaram-no num lugar que ninguém vê, mas tem que acreditar que lá está e, melhor ainda, dita os destinos de todos nós. Claro, é muito mais fácil, para o bem e para o mal, culpar Deus, o Diabo ou a má sorte pelo que quer que aconteça no nosso caminho. Posto isto, temos três tipos de pessoas. As que se condenam a viver deusificadas toda uma vida, sem encontrar a verdadeira divindade dentro de si mesmo, mas entregando as suas vidas a conjunto de normas e regras que servem tão bem os interesses de alguns. As que vivem vazias porque não acreditam no Deus instituído mas também não o encontram dentro de si. E, finalmente, as que se aceitam como seres plenos e descobrem a divindade que habita em si próprio.

Depois, cortaram-nos ao meio, tipo laranja e atiraram uma das metades para o outro lado do mundo, dizendo-nos: Só serás verdadeiramente feliz quando encontrares a tua outra metade, a tua alma gémea.

E, lá vêm todos os peritos em almas gémeas e meias laranjas dizer-nos que a tua alma gémea é esta ou aquela pessoa, blá, blá,blá... Vendem-se livros, fazem-se filmes, cobra-se dinheiro, tudo para encontrar a tal alma gémea.

Pois, desculpem-me todos os peritos no assunto, mas eu recuso-me a aceitar que sou um ser incompleto e que metade de mim anda por aí a vaguear. Tal como me recuso a aceitar que Deus está fora de mim e não em mim.

Se há algo que aprendi com o tempo é que se não tivernos nós mesmo a capacidade de nos amarmos e fazer felizes mais ninguém o poderá fazer.

Lamento se é mais fácil deixar para outros a tarefa de nos amar mas, garantidamente, não se dá o que não se tem ou o que não se sabe dar. Não se dá amor quando não se sabe amar e não é possível amar verdadeiramente outra pessoa antes de nos termos aprendido a amar a nós próprios. Até o termos conseguido fazer, como alguém que conheço costuma dizer:"tudo o resto é bebedeira do ego".

Porque é que esta verdade é mais verdade que a outra? Não é mais nem menos verdade. É aquela em que acredito e que me permite sentir inteira e completa. Permite-me aceitar a responsabilidade pelas minhas escolhas e pela tarefa de me amar da forma mais plena de todas.
Permite-me tomar as rédeas da minha vida e não deixá-la a flutuar, por aí, qual barco sem rumo, condenado ao destino que alguém ou alguma coisa tenha para mim desenhado.

É esta a verdade pela qual me guio e que me ajudou a fechar um ciclo de agonia e sofrimento em busca da tal outra metade de mim. Porque, ao contrário da história que nos tentam vender, só existe uma alma gémea para cada um de nós e essa está dentro do nosso coração, no mais profundo do nosso ser.

Por isso, a todos aqueles que ainda continuam nesta busca só posso dizer: Não procurem para além das fronteiras do vosso ser, do vosso interior. Tudo o resto é uma viagem que apenas vos leva para mais longe de vocês próprios.

domingo, 15 de junho de 2008

Epah não leiam isto

Isto é um puro acesso de loucura, por isso não percam tempo com leituras.

Nenhures. Sei, porque dizem, que fica algures por aqueles lados da banda de lá para uns e de cá para outros.

- Espelho, espelho meu, existirá no mundo alguém mais feio do que eu? É que a pergunta assim tem muito mais graça! Ahahahah. Sim, espelho, eu sei, eu sei… Nenhures…

Na manhão fria, de um dia cinzento com muita chuva à mistura chegou lá a casa uma menina. Os seus olhos gritavam alegria e as longas tranças embalavam um sonho distante, perdido entre montes e vales de um cabelo negro que parecia não ter fim. Foi então que veio o pai natal, mais o palhaço e foram todos num comboio para o circo.

O comboio descarrilou e ao longe, numa placa já apagada pelo tempo, lia-se: Nenhures.

As pequenas coisas

Este mundo é grande, gigantesco e nele passam-se coisas igualmente gigantescas.
Grande, imenso é também a importância que damos a certas coisas, como o carro que conduzimos, a casa onde vivemos, a roupa de marca que vestimos, os perfumes que usamos, etc… Levamos uma vida inteira a perseguir sonhos imensos, estabelecemos objectivos distantes e deixamos de viver para os atingir mas quando lá chegamos, se chegamos, o tempo já é muito pouco para usufruir deles em pleno. Estamos velhos, doentes e sem paciência e já nem nos lembramos dos motivos que nos levaram a fazer algumas das escolhas que fizemos.

Mudamos e não entendemos porque não aproveitámos todos aqueles anos para estar com as pessoas que amamos em vez de passarmos o dia com estranhos, que mal conhecemos mas que tentamos impressionar a todo o custo, mais uma vez, com o que conduzimos, vestimos, cheiramos, etc. Não entendemos porque vivemos a correr e nunca reparámos na árvore centenária e majestosa que está todos os dias no caminho que fazemos ou no maravilhoso quadro de flores que nos sorriem quando passamos com tanta pressa ou ainda no olhar triste de um personagem chamado Jeremias que dorme há anos numa escada de pedra fria e suja no prédio ao lado do nosso.

Um dia, quando finalmente olhamos e vemos tudo isto , parece-nos um quadro novo, acabado de pendurar mas está velho e desgastado de tanta indiferença, de tantos olhares apressados. E é então que percebemos o que são as tais pequenas coisas de que tanto se fala… São as pequenas coisas esquecidas num mundo de gigantes. Aquelas que, no final, procuramos no mais intimo do nosso ser e as únicas que preenchem o vazio de uma vida inteira de procura frenética.

São as palavras que nunca dissemos por falta de tempo e que nos pesam e queimam o peito quando é tarde demais e já não há ninguém para as ouvir. São os momentos que não partilhámos e deixámos para mais tarde… mas é tarde.. São os carinhos que não se fazem por vergonha ou teimosia e que ficam marcados no tempo que não perdoa incertezas.

É a vida, bela, cruel e misteriosa, mas breve como uma brisa suave que passa despercebida. São as pequenas coisas…

As ruas de uma vida

E então, quando vem a noite as pedras da calçada correm sem destino. As vidraças dos prédios reflectem a imagem esbatida do mendigo de pele gasta e sem idade. Uma rua que sobe em direcção ao céu cinzento e desenha uma núvem em forma de porta que nos convida a entrar. Do lado de lá da porta, nada. O vazio. A solidão dos dias que nascem, uns atrás dos outros, sempre como esperado.

São muitas as portas, muitos os céus, mas a mesma cor, o mesmo vazio e a mesma ordem.

A rosa não tem forma. As pétalas não têm forma nem cheiro. É a dor alucinante de não saber quem se é. O vulto sombrio no final da rua acena e deixa as memórias de uma vida estilhaçada. Sente frio nos pés, está descalça e os seus pés sangram dos pedaços de vidro de tantas vidas. A cada passo mais e mais memórias entranham-se na carne e maior é a dor, a dor de não saber que pedaços são seus.

O peito explode e de dentro dele saem mil almas aprisionadas, contorcendo-se numa dança de fogo e vento. Ao longe, uma mulher de olhar sereno contempla o rio e lembra uma outra vida.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

O peso da vida

Quanto peso tem uma vida, a tua vida?
Quanto peso levas contigo quando sais da cama de manhã?
Quanto pesa cada lembrança, cada memória?
Quanto mais caminho consegues percorrer com todo esse peso?
O que acontece se largares algum desse peso? O que vai embora com ele? O que temes perder?
Quanto dele é verdadeiramente teu?
Onde estás tu por detrás de tudo o que carregas? Quem és tu realmente?
Porque te vestes de sol e de lua ao mesmo tempo quando não é possível ao dia ser noite e à noite ser dia?
Porque caminhas no escuro de um corpo, sem destino? Porque segues a estrada que se afasta de ti próprio?
Volta a casa, volta a ti, lembra-te do caminho de regresso a casa...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Negativo

Qualquer semelhança entre a letra desta música e o que vai dentro de umas quantas pessoas é tudo menos coincidência... Jorge palma...mestre da mistura de sentimentos e palavras...

Não é que o medo a impeça de ser quem é
Só não sabe lá muito bem como é que há-de ser
Não é que ela não aprecie aquilo que tem
Mas dá muito mais atenção ao que pode ter
Não é que o silêncio a aflija mais do que o Sol
Em qualquer dos casos ela acaba por se esconder

Não é que ela viva do sonho de ter alguém
Mas tem uma esperança guardada de ser feliz
Não é que ela não acredite em ser mulher
Mas se alguém a quer e a seduz ela não diz
Então ela troca as palavras e fecha a luz
E pensa outra vez que o amor lhe escapou por um triz

E ela vai e vem
Vai e vem
Deixa no banco tudo o que tem
Ela vai e vem
Vai e vem
Nos bastidores não vê ninguém

Não é que ela esteja encalhada junto ao farol
Mas tem uma vela pintada por outra mão
Não é que o vento a amachuque mais do que o Sol
Porque o vento é sempre mais fraco que a solidão
Como as certezas são mais caras que as opiniões
E quando ela olha para o leme não há capitão

E ela vai e vem
Vai e vem
Deixa no banco tudo o que tem
Ela vai e vem
Vai e vem
Nos bastidores não vê ninguém

Jorge Palma

O bairro do Amor

No bairro do amor a vida é um carrossel
Onde há sempre lugar para mais alguém
O bairro do amor foi feito a lápis de cor
Por gente que sofreu por não ter ninguém

No bairro do amor o tempo morre devagar
Num cachimbo a rodar de mão em mão
No bairro do amor há quem pergunte a sorrir:
Será que ainda cá estamos no fim do Verão?

Eh, pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair-me um pouco
Eu sei que tu compreendes bem

No bairro do amor a vida corre sempre igual
De café em café, de bar em bar
No bairro do amor o Sol parece maior
E há ondas de ternura em cada olhar

O bairro do amor é uma zona marginal
Onde não há hotéis nem hospitais
No bairro do amor cada um tem que tratar
Das suas nódoas negras sentimentais

Eh, pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair-me um pouco
Eu sei que tu compreendes bem

Jorge Palma

terça-feira, 29 de abril de 2008

O Amor nos tempos de cólera

Do nada lembrei-me que tenho deixado passar, dia após dia, a ida ao cinema para ver a passagem à tela de um livro que me deixou imagens simpáticas e sensações de sentimento verdadeiro.

Gabriel Garcia Marquez escreve de Amor como só ele sabe e escrevo a palavra com maiúscula porque a forma como fala de Amor é também ela imensa. Amor, na escrita de Marquez, tem um significado infindável, incomensurável.

Ao mesmo tempo que pensava neste livro, que li faz já muito tempo, percebi que me lembrava do essencial mas não dos nomes dos personagens nem de lugares onde algumas cenas se passavam. Lembro-me da história no geral, do que me trouxe pessoalmente, do que trouxe a todos enquanto mensagem pessoal do autor, mas não de factos mais específicos.

Não pude deixar de pensar que o Amor é um pouco assim. As pessoas que vamos amando, ao longo de uma vida, vão deixando em nós sentimentos e imagens e, com o passar do tempo, alguns deles parecem-nos turvos e lembramo-nos apenas de fracções. As imagens vão perdendo a cor, a textura e, em tom de sépia, assemelham-se a uma qualquer foto de um qualquer album antigo.

Lembro-me que encontrava muitas destas fotos lá por casa e quando perguntava à minha avó quem era a pessoa de determinada foto ela dizia sempre: Ora, deixa-me cá olhar bem para ver se me lembro... Pois, acho que fazemos o mesmo com os personagens da nossa vida.

Certo será, que uns apresentarão mais cor que outros e resistirão melhor ao passar do tempo.

Isto leva-me ao título deste artigo e ao motivo real de toda esta divagação e que se prende com a forma como amamos em tempos menos bons. É fácil, muito fácil, amar quando tudo está bem no nosso mundo, quando cada coisa está no seu lugar e a sabemos de cor. É fácil amar quem nos acaricia o cabelo e nos pede que fiquemos, quem nos segreda em tom de amor e nos encanta. Amar assim é quase inato.

Mas, como amamos nós em tempos de cólera e tempestade? Como reagimos quando alguém nos diz não te amo mais? Como amamos sem a carícia no cabelo e sem os segredos musicados em acorde maior de amor?

Amar em tempos de cólera não é fácil simplesmente porque não amamos, na maioria das vezes, de forma desinteressada e porque o que queremos do outro nada mais é do que o que necessitamos de preencher em cada parte vazia de nós.

Não é fácil porque não sabemos amar sem ser amados, não sabemos dar sem receber, não conseguimos amar só porque sim, independentemente do que seja. Medimos o que damos pelo que recebemos e quando não há nada a receber deixamos automaticamente de amar. Era só o que faltava, amar alguém que me mente, que me trama, que me diz coisas que não quero ouvir ou que acha que não me quer mais na sua vida. E, então, vem o ódio. Passamos de uma polaridade à outra sem entendermos o que aconteceu no caminho.

Este é o verdadeiro teste, amar, com chuva, num dia de tempestade, em tempo de cólera. Amar quando do outro lado não há amor, quando não há nada do qual nos possamos alimentar. Amar, só porque sim, porque brota de nós e deixamos que se espalhe em nosso redor.


quarta-feira, 23 de abril de 2008

Momento

Por vezes vou juntando umas palavras em tom de poema, com a noção que estão muito longe dessa categoria, mas são palavras e são minhas. Vou soltando por aqui algumas delas, não porque sinta necessidade de partilhá-las mas porque me lembram momentos particulares de coisas que vivi. São momentos...

Pedra desfigurada pelo tempo,
Sorriso apagado e macio...
Olhar de criança cansada....

Mãos rasgadas pela dor,
Peito que o vento teima em queimar...
Perfume de caminhos por percorrer...

Gestos de medos escondidos,
Beijos leves e soltos, desencontrados...
Abraço forte, muralha centenária...

Prazer desenfreado qual noite de vendaval,
Corpo quente, escaldante, em eterna busca...
Carícias ternas, sinceras...longinquas...

Porto seguro, à deriva, num mar de tempestade calma,
Estrela cadente sem destino...viajando sem norte...
Vento que sopra quente no frio da manhã...

Estrada de cores infinitas e curvas sinuosas,
Caminhos sem ver fim...apenas o arco-iris...
Dias de chuva e sol que queimam sentimentos...

Ténue, etéreo, esvoaçante...
Suspiros numa noite que não basta...
Perdido no silêncio que guardas em tua pele...

Momento,
Deixas-me momentos...
Outubro, 2005

Do sentimento que cola

Falar de sentimento nunca é fácil. Ou então, até é fácil mas a sensação é a de que as palavras nunca são as certas e de que o que quer que se escreva nunca está terminado. O sentimento é algo tão imenso, tão inabraçável, que falar dele é sempre começar algo que sabemos não vamos acabar. São as peças inacabadas de uma vida... e a minha vida está repleta de peças inacabadas...

Hoje li algo que uma outra pessoa escreveu sobre o ter que deixar alguém ir. Sobre o não querer, mas ter que deixá-la ir, porque sim, porque a outra pessoa quer, porque não podemos amarrar as pessoas a nós e mantê-las aqui. Era um texto onde cada letra cheirava a mágoa, cada frase deitava uma lágrima por um futuro que não ia chegar. Em cada caracter ou em todos eles só consegui ler: Não quero que vás! Fica!

E, de seguida, pensei que este é o processo natural do ser humano. Não queremos nunca deixar nada ir embora e os argumentos para isso são do mais elaborado. Mas, no final, tudo se resume ao mesmo, ou seja, a questão da perda. Sempre que deixamos algo ou alguém ir sentimos que perdemos um pedaço de nós também. Esta é a verdade e ninguém quer ficar incompleto, sem um bocado de si. Por outro lado, também não queremos largar a única coisa que ainda nos liga a essa pessoa ou coisa e, se continuarmos a sofrer por ela, pelo menos ainda temos isso. E, assim continuamos a alimentar-nos desse sentimento e se mais não há, então que seja de sofrimento que nos alimentamos mas ao menos é direccionado para o mesmo objecto e isso mantém-nos ligado a ele.

Fazemos isso quando alguém querido abandona o seu corpo físico. Choramos não pela pessoa mas por nós, porque não vamos poder estar mais com ela, fazer o que fazíamos com ela, alimentar-nos dela como anteriormente. Não choramos a pessoa em si mas a nossa perda dessa pessoa. Choramos a dor que a ausência dela nos provoca e não a sua ausência de facto. E, ao continuar a chorar mantêmos essa pessoa em nós. Não a deixamos ir.
Fazemos o mesmo quando uma relação amorosa termina. Não o aceitamos e sofremos porque sentimos que no momento em que o fizermos deixamos ir o que resta.

O que não percebemos com todo este processo e que são duas coisa que aprendi, a muito custo e ainda permanecem em processo de digestão... é que a chave de tudo isto está na forma como arrancamos de dentro de nós sentimentos como amor, alegria, felicidade, vontade de viver e os depositamos nessas outras pessoas. Fazemo-lo segredando-nos que não somos nós próprios capazes de nos amar, de nos trazer felicidade, de nos nutrir, que todos os sentimentos de alegria e entusiasmo pela vida estão nessa outra pessoa e que sem ela o céu não é azul e o sol não aquece o nosso rosto. Pois se depositamos tudo isto numa outra pessoa é certo que quando ela vai embora leva tudo isso com ela... e cá ficamos nós...vazios e desmembrados.

Ao mesmo tempo, esta fixação no sofrimento é tal que nos impedimos de entender o verdadeiro propósito das coisas. Porque entram e saem estas pessoas das nossas vidas, o que nos trazem elas, o que deveríamos ter aprendido e não fizemos, mas acima de tudo, não entendemos que elas nunca deixarão de fazer parte de nós. Que o sentimento a que nos agarramos é apenas um espelho do que não conseguimos encontrar em nós e tentamos minimizar a ausência de nós com o sentimento de posse de outrem. Sem nos lembrarmos que a inconstância arruína qualquer tentantiva de plano detalhado e organizado e que estamos, na realidade, a colocar o mais profundo de nós, a nossa essência, numa espécie de bilhete de lotaria que nunca sabemos se tem prémio ou não mas pelo qual vamos esperando, semana após semana.

As pessoas não partem apenas quando as deixamos ir. Por vezes já partiram e nem nos demos conta disso. Mas, ao contrário, é possivel deixar alguém partir e senti-la sempre dentro de nós.

As pessoas não estão connosco apenas porque ficam ou porque nos colamos a elas na esperança da cola nunca perder a sua força, estão connosco porque vivem em nós e há moradas que nunca se esquece. Há pessoas que viverão sempre em mim porque habitam em mim.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Nós e os outros

Não sei se já pararam para analisar as pessoas que normalmente vos rodeiam. Se sim, certamente perceberam em cada uma dessas pessoas aspectos muito particulares que, de uma forma ou de outra, interferem directamente com os vossos processos individuais.

Ele há pessoas para todas as áreas e processos. Há as da irritação, as da falta de paciência, as da estupidez natural ou da falta de dentes ( como diria alguém que descobriu ultimamente uma relação directa entre a ausência de dentes e o nível de inteligência ), as do odor, as da inteligência em excesso, etc, etc, etc. É só escolher. Escolher e olhar para cada um desses comportamentos que nos tiram do sério e perguntarmo-nos, porquê?

Mas porque raio é que o senhor que arruma carros aqui na rua me deixa com os cabelos em pé quando insiste em partilhar comigo a sua má sorte e me vem perguntar qual é o melhor incenso para afastar o mau olhado? Porque será que certos tiques e formas de estar me incomodam até à exaustão? Qual o poder que estas pessoa têm de interferir com com o curso dos meus dias?

Pois, o tempo ensinou-me que ao olhar cuidadosamente para cada pequena coisa que nos faz explodir ou implodir, dependendo de pessoa para pessoa, descobrimos as mais profundas verdades sobre nós próprios. Se assim não fosse, porque motivo nos deixaríamos afectar tanto por factores exteriores a nós próprios?

A importância de fazermos esta análise prende-se com a forma como vivêmos mais ou menos em harmonia. Garantidamente, se não o fizermos e não entendermos a mensagem que subjaz em cada uma dessas pessoas, continuaremos a cruzar-nos com pessoas e processos semelhantes ao longo do nosso percurso sem entender o que significam.

Sim, porque as relações com os outros são verdadeiros testes. Testes à nossa capacidade de aceitação, ao nosso julgador interior, às conceptualizações que estabelecemos sobre o que nos rodeia, aos certos e errados, ao facto de vermos o mundo a preto e branco, a conseguirmos ver para além da formatação que trazemos de trás. No final, a descobrirmos quem somos verdadeiramente.

Crescemos com a ideia de que os outros estão lá e nós aqui, que eles são uns e nós outros, que cada um de nós é uma parte separada do resto. Mas, se voltarmos atrás, muito atrás, e olharmos para a evolução da vida, desde o seu primeiro impulso, percebemos que no início apenas existia uma única parte que se foi multiplicando dando origem a outras pequenas partes que, por sua vez, originaram outras tantas. À luz deste panorama, não fazemos todos parte do mesmo pedaço de vida? Não somos todos uma parte de um todo imenso mas que não significa nada sem as outras partes? Sim, até o senhor que arruma carros aqui na rua é uma dessas partes e, certamente, sem ele o universo não estaria completo. Porque nos cruzamos? pois, essa é a grande questão e o trabalho que vamos continuando a desenvolver para melhor entendermos a vida como uma só, misteriosa e em alguns momentos indecifrável mas uma única peça com milhões e milhões de pequenos pedaços.





quinta-feira, 3 de abril de 2008

quinta-feira, 27 de março de 2008

Um dia

Um dia destes vou sair pelas ruas fora, despenteada e a gritar ao vento que estou viva.
Um dia destes vou acarinhar um ovo entre as minhas mão e fazê-lo viver, respirar, amar.
Um dia destes vou andar nua pelo mar revolto e sentir o meu corpo a flutuar de tanto suspiro em segredo.
Ai um dia, um dia vou correr descalça por entre uma tempestade e sentir cada gota passar a minha pele e tocar-me na alma.
Um dia vou voar, mas tão, tão alto, que vou conseguir vislumbrar a minha sombra do outro lado do planeta.
Um dia destes vou olhar nos meus olhos e ver a cor de todos os meus sentimentos.
Um dia vou sentar-me numa varanda, no crepúsculo, e reviver todos os momentos e pessoas que por mim passaram.
Um dia vou rebolar por um prado repleto de flores frescas e sentir o seu cheiro em mim.
Um dia vou viajar numa nuvém e ver tudo o que agora não consigo ver, lá bem ao longe.
Um dia, ai um dia, vou agarrar o sol com uma mão e a lua com outra e apresentá-los.
Um dia destes vou estender os meus braços e tocar uma estrela.
Um dia vou cantar em segredo para um cometa e murmurar-lhe palavras quentes.
Um dia destes vou perseguir-me por um labirinto sem início nem fim.
Um dia, um dia vou viver cada emoção no seu tom original, sem desafinar ou sair do ritmo.
Um dia destes vou provar todos os sabores que não tive ainda coragem e sorrir.
Um dia destes não vou mais esperar por esse dia e vou sair de dentro de mim, como quem quebra a casca de uma noz ou rompe um casulo e deliciar-me com tudo isto por um segundo que nunca acabe.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Ausência

Já tinha desligado o pc, estava a iniciar a minha sessão diária de reiki quando senti esta vontade de voltar aqui, neste momento.
Não tem acontecido muito ultimamente, é um facto. Dei por mim, há uns dias, a pensar se não estava a entrar novamente no ciclo do "fim de blog" e não voltaria aqui com palavras e coisas para dizer. Mas, cá estou.
Não sei bem a dizer o quê, é uma verdade, mas tinha que vir simplesmente porque o motivo que me tem mantido afastada tem-se escondido por detrás do véu da falta de tempo. É o que todos fazemos em algum momento, acho. Quando deixamos algo de lado, normalmente argumentamos com a falta de tempo. Na grande maioria dos casos, a falta de tempo é sinónimo de qualquer coisa que não tem que ver com tempo ou ausência dele.
No meu caso, a falta de tempo usou-a a minha mente como justificação. O verdadeiro motivo está muito além do tempo. O tempo gira em torno de nós, no exterior, vive por entre as estruturas a que nos tentamos manter seguras a todo o custo, as tais que são instáveis, todas elas. Mas, dentro de nós não existe tempo, não existe porque no interior de nós existe a presença, a consciência e essa não tem tempo, não se desloca entre o passado e futuro, simplesmente está, vive, existe. Logo, não tem sido falta de tempo mas, ao contrário, o estar nele, o permanecer.
Percebi agora, que ficar, permanecer, estar, não implicam necessariamente a nossa ausência de outros locais ou pessoas. Não. Significa que podemos levar-nos até esses locais ou pessoas de uma forma também presente, estando e permanecendo em cada um deles. Ainda que, permanecer e estar não sejam reconhecidos no formato habitual. Ainda que, nem sempre consigamos tocar ou ser tocados, cheirar ou ser cheirados. Ainda que, nem sempre aqui venha escrever algo. Mas estou aqui, porque sou.


quarta-feira, 12 de março de 2008

Para a caminhante da luz

Voltar-se para dentro não é movimentar-se, absolutamente. Ir para dentro de si não é deslocar-se. Voltar-se para dentro simplesmente significa que você tem estado perseguindo um desejo atrás do outro, que esteve correndo cada vez mais, para chegar repetidas vezes à frustração; que cada desejo traz infelicidade, que não existe nenhum preenchimento por meio de desejos; que você nunca chega a lugar nenhum, que o contentamento é impossível. Percebendo a verdade de que correr atrás de desejos não leva a lugar nenhum, você acaba parando. Não que você faça algum esforço para parar. Se você fizer qualquer esforço para parar, de uma maneira subtil você ainda estará correndo atrás de alguma coisa novamente. Você ainda está desejando -- talvez, agora, seja a ausência de desejo o seu desejo.

Se estiver fazendo algum esforço para voltar-se para dentro, você ainda estará saindo de si mesmo. Qualquer esforço só poderá levá-lo para fora, em direcção ao exterior. Todas as viagens são viagens para fora -- não há viagem para dentro. Como você pode viajar para dentro de si mesmo? Você já está ali, não faz sentido ir. Quando o deslocar-se cessa, a viagem desaparece; quando não há mais nenhum desejo obscurecendo a sua mente, você está dentro. A isso é que se chama voltar-se para dentro. Mas não se trata absolutamente de um deslocamento, trata-se simplesmente de não sair para fora.

Osho This Very Body The Buddha Chapter 9

sábado, 1 de março de 2008

Milarepa e o falso mestre

O Osho Tarot de transformação, dá-nos histórias, pensamentos, lendas, das tais que tanto tenho usado. São oportunidades de meditação diária, simples mas complexas no seu conteúdo e, especificamente, na forma como gerimos estes comportamentos diariamente. Vou passar a deixar por aqui algumas destas histórias mais frequentemente.

A coisa real não é um caminho. A coisa real é a autenticidade do buscador. Deixe-me enfatizar isso.

Você pode percorrer qualquer caminho. Se você for sincero e autêntico, atingirá seu objetivo. Alguns caminhos serão difíceis, alguns podem ser mais fáceis, alguns podem ter folhas verdes de ambos os lados, outros podem passar através de desertos, haverá caminhos com um belo cenário ao redor deles, enquanto em outros não haverá cenário algum, essas coisas fazem parte do caminho, mas se você for sincero, honesto, autêntico e verdadeiro, então cada caminho lhe conduzirá ao objetivo.

Então é possível reduzir tudo a uma só coisa: a autenticidade é o caminho. Não importa qual o caminho escolhido, se você for autêntico, cada um deles conduzira a meta. O contrário também é verdadeiro: não importa que caminho você seguir, se não for autêntico, não alcançará lugar algum. Sua autenticidade lhe traz de volta ao lar, nada mais. Todos os caminhos são secundários. O básico é ser autêntico, verdadeiro.

"Conta-se sobre um grande místico, Milarepa:
Quando foi encontrar seu mestre no Tibet ele era tão humilde, tão puro, tão autêntico, que os outros discípulos ficaram com inveja dele. Era certo que ele seria o sucessor. E é claro, que havia política envolvida, assim eles tentaram matá-lo.

Um dia disseram a ele, “Se você realmente acredita no mestre, pode pular da montanha? Se você realmente acredita, se tiver confiança, então nada irá lhe acontecer, você não irá se machucar.” E Milarepa saltou, sem hesitar por um momento sequer. Eles correram para baixo, pois era uma queda de quase mil metros. Eles desceram esperando encontrar os ossos dele espatifados, mas encontraram-no sentado numa postura de lótus, muito feliz, imensamente feliz. Ele abriu os olhos e disse, “vocês estão certos, confiança protege.”

Pensaram que isso devia ser alguma coincidência. Uma outra vez, quando uma casa estava pegando fogo, disseram a ele: "Se você ama seu mestre e confia nele, você pode entrar lá.” Ele entrou correndo para salvar uma mulher e seu filho que estavam lá dentro. O fogo era tão intenso que os outros discípulos esperavam que ele morresse – mas quando ele saiu com a mulher e a criança, não havia sequer uma queimadura em seu corpo. E ele ficou ainda mais radiante, pois a confiança protege.

Um outro dia eles estavam indo a algum lugar, e tinham que atravessar um rio, e disseram a ele, “Você não precisa ir no barco. Você tem uma confiança tão grande, que pode andar sobre o rio” – e ele andou.

Essa foi a primeira vez que o mestre o viu fazendo essas coisas. Ele não sabia que tinham dito a Milarepa que pulasse da montanha ou entrasse na casa em chamas. Mas dessa vez ele estava ali na outra margem e ele viu Milarepa caminhando sobre as águas e disse: “O que você está fazendo? Isso é impossível!”

E Milarepa disse, “Não é impossível de jeito nenhum! Estou fazendo isso através de seu poder, meu senhor.”

Então o Mestre pensou, “Se meu nome e meu poder podem fazer isso a esse homem estúpido e ignorante, imagine comigo. E eu mesmo nunca tentei..." Assim ele tentou fazer o mesmo. Ele afogou-se. Nunca mais se ouviu falar nele depois desse dia."

Osho Zen Tarot / relacionamentos

Por vezes apetece-me escrever sobre vários temas mas depois, começa a procura das palavras que exprimam de uma forma clara e despreconceituosa a essência de alguns deles. No entanto, se me é relativamente fácil encontrar as palavras adequadas a algumas coisas, no que diz respeito a umas outras tantas, a coisa não flui da mesma forma. Talvez porque ainda não vivam de forma plena em mim, talvez porque outros o tenham já dito de forma tão límpida que não há muito mais a acrescentar.
Por isso mesmo, nos últimos tempos tenho dado comigo a contar mais histórias e lendas do que propriamente a tentar explicar o que quer que seja. As explicações, percebi eu, trazem muito das nossas identificações e (pre) conceitos e, na grande maioria das vezes, acabam por desviar a atenção de quem ouve para longe de si próprio.
Tanto que temos falado de relacionamentos nos últimos tempos que queria escrever algo mais concreto sobre o tema. Mas, de facto, encontro noutras palavras já escritas uma expressão largamente melhor construída do que a minha algum dia poderia vir a ter e, certamente, mais sentida porque há muito trabalho ainda para fazer por aqui...
Decidi transcrever algumas palavras do Osho Zen Tarot, porque Osho é uma daquelas energias que vive em cada uma destas palavras, tendo permitido que essas mesmas palavras vivessem dentro de si.

"É preciso ter em mente estas três coisas: o amor de nível inferior é o sexo -- este é físico -- e o refinamento maior do amor é a compaixão. O sexo encontra-se abaixo do amor, a compaixão está acima dele; o amor fica exatamente no meio.

Bem pouca gente sabe o que é o amor. Noventa e nove por cento das pessoas, infelizmente, pensa que sexualidade é amor -- não é. A sexualidade é por demais animal; certamente, ela contém o potencial para transformar-se em amor, mas ainda não é amor, apenas potencial...

Se você se tornar consciente e alerta, meditativo, então o sexo poderá ser transformado em amor. E se a sua atitude meditativa tornar-se total, absoluta, o amor poderá ser transformado em compaixão. O sexo é a semente, o amor é a flor, compaixão é a fragrância.

Buda definiu a compaixão como sendo "amor mais meditação". Quando o seu amor não é apenas um desejo pelo outro, quando o seu amor não é apenas uma necessidade, quando o seu amor é um compartilhar, quando seu amor não é de um pedinte, mas de um imperador, quando o seu amor não está pedindo nada em troca, mas está pronto para dar apenas -- dar só pela total alegria de dar --, então, acrescente a meditação a ele, e a pura fragrância é exalada. Isso é compaixão; compaixão é o fenômeno mais elevado.

Aquilo que chamamos de amor é na verdade todo um espectro de modos de se relacionar, abrangendo desde a terra até o céu. No nível mais terreno, o amor é a atração sexual. Muitos de nós continuamos presos nesse nível, porque o condicionamento a que fomos submetidos sobrecarregou nossa sexualidade com toda sorte de expectativas e de repressões.
Na verdade, o maior "problema" do amor sexual é que ele nunca perdura. Só quando aceitamos tal fato é que podemos celebrá-lo pelo que ele realmente é -- dar as boas-vindas a seu aparecimento, e dizer adeus com gratidão quando ele se vai.
Então, à medida que vamos amadurecendo, podemos vivenciar o amor que existe além da sexualidade, e que honra a individualidade singular do outro. Começamos a compreender que o nosso parceiro funciona freqüentemente como um espelho, refletindo aspectos desconhecidos do nosso ser mais profundo, e ajudando-nos a nos tornarmos completos em nós mesmos.
Esse amor é baseado na liberdade, não em expectativas nem na necessidade. Em suas asas, somos levados cada vez mais alto em direção ao amor universal, que vivencia tudo como uma coisa só."


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A minha Lisboa

Ontem estava aqui, sentada no meu cantinho de trabalho, quando ouvi um som que não ouvia há muito tempo.
Durante anos, desde que saí de Lisboa, sentia falta de coisas que não conseguia identificar. Não sabia se das gentes, dos prédios, dos cheiros, mas sabia que algo me fazia falta e me chamava de novo para este local.
Aos poucos, agora que voltei, fui-me apercebendo que coisas eram essas. O que não conseguia explicar naqueles tempos, transformou-se hoje em sons e cheiros com que me cruzo diariamente. Há coisas que só ouvimos, cheiramos, vivemos em Lisboa e só quem cá tem uma parte sua consegue entender.
Ontem ouvi o cantar do amolador, primeiro ao longe, depois foi-se aproximando, e o som era-me tão familiar e reconfortante que senti uma onda de calor percorrer-me o corpo.
São coisas de Lisboa, esta cidade que aprendemos a amar com todas as suas imperfeições.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O pato que tinha uma mente humana

Vou continuando a ler "Um mundo novo" do Eckhart Tolle e não consigo deixar de partilhar algumas pérolas do livro. Deixo-vos mais uma:

"Após uma luta que nunca dura muito tempo, os patos separam-se e flutuam em direcções opostas. Depois, cada pato bate vigorosamente as asas algumas vezes, libertanto assim a energia em excesso acumulada durante a luta. Após baterem as asas, flutuam com serenidade, como se nada tivesse acontecido.
Se o pato tivesse uma mente humana, ele manteria a luta acesa através do pensamento, da criação de histórias. Esta seria provavelmente a história do pato:"Não acredito no que ele acabou de fazer. Ele esteve a dez centímetros de mim. Ele acha que é dono deste lago. Não tem consideração pela minha esfera privada. Nunca mais volto a confiar nele. Para a próxima ele vai tentar outra coisa qualquer só para me arreliar. Tenho a certeza de que já está a preparar alguma. Mas eu não vou permitir isso. Vou dar-lhe uma lição que ele nunca há-de esquecer." E a mente continua ininterruptamente concentrada nas suas fantasias, pensando e falando nisso passados dias, meses ou até anos. No que diz respeito ao corpo, a luta ainda continua, e a energia gerada por ele em resposta a todos estes pensamentos é a emoção, que, por sua vez gera mais pensamentos. Isto transforma-se no pensamento emocional do ego. É fácil imaginar como a vida do pato seria problemática se ele tivesse uma mente humana. Porém, é assim que a maior parte dos seres humanos vive. As situações ou acontecimentos nunca chegam realmente a ter um fim. A mente e a sua maquinação de "eu e a minha história" continuam a alimentá-los.
Nós somos uma espécie que se perdeu no caminho. Tudo o que faz parte da Natureza, todas as flores, árvores e animais têm lições importantes a ensinar-nos, se pararmos para os ver e ouvir.
A lição que o nosso pato nos deu é esta: bate as tuas asas - o que se traduz por abandona a tua história - e regressa ao único sítio do poder: o momento presente.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O Paco


O Paco é um cão, um dos muitos animais que se cruzou comigo. Foi, sem sombra de dúvida, o animal mais traumatizado que até hoje encontrei e foram muitos, acreditem.
As fotos do Paco chegaram até mim por e-mail enviado por amiga sempre preocupada com o imenso problema dos animais abandonados e da sua adopção. O Paco tinha sido abandonado com 2 meses numa praia, dentro de uma gruta e lá tinha permanecido até ser encontrado. O que vem a seguir não foi muito melhor. Foi levado para uma instituição que não vou referir o nome e, devido à sua pouca idade e ao facto de não poder estar com os outros animais mais velhos, viveu 2 meses literalmente fechado numa casa de banho. O único contacto que tinha com alguém acontecia no momento de uma porta se abrir para lhe ser dada comida, água e limpar o local onde fazia as suas necessidades. Tornou-se um cão completamente anti-social para quem o contacto com o mundo exterior à casa de banho era motivo de pânico.
Uns dias depois de ter recebido as fotos por e-mail, alguém me falou que queria adoptar um cão e lembrei-me automaticamente do Paco. Não sabia, porque não me era possível imaginar, o nível de trauma que o Paco tinha desenvolvido. Falei com a pessoa e desloquei-me até à tal instituição para ver o Paco, tirar algumas fotos e enviar para o futuro "pai de adopção". O primeiro encontro com o Paco foi um drama, do mais puro. O facto de o tirarem do seu universo, diga-se casa de banho, fez com entrasse em estado de choque, fez xixi pelas pernas abaixo, tremia incessantemente e o seu coração parecia que ia saltar do peito. O terror e o pânico que vi nos seus olhos não se esquece facilmente. Por motivos que entenderão, o Paco não ficou mais um dia nesse local e trouxe-o comigo para casa.
Trabalhava em casa nessa altura o que me deu algum espaço para estar com ele e permitir-lhe o contacto com seres humanos, gatos e outros locais que não casas de banho. No momento que entrámos em casa, a primeira coisa que fez foi procurar a casa de banho e esconder-se onde conseguiu. Era o que conhecia, não conhecia nada mais. Não o pressionámos, deixámos que ficasse onde queria, como queria e quando queria. Saiu até ao corredor quando quis, chegou até à porta da sala quando sentiu que o conseguia fazer, deixou-nos fazer-lhe festas quando esteve preparado e saltou para cima do sofá de famíla no seu momento. Com o passar do tempo, meses, integrou-se na família, como podem ver na foto em cima, e o universo dele tornou-se mais abrangente.
Infelizmente, chegou um momento em que tive que começar a sair de casa para trabalhar e foi um novo drama. O Paco já não estava habituado a passar o dia sem mim e começou a roer tudo o que encontrava. Desde móveis, a rodapés, até às ombreiras das portas... e passou a ter que viver num corredor e na cozinha porque todas as outras portas tinham que permanecer fechadas. Foi um tempo díficil para ele e para mim que o imaginava sem espaço e em stress.
Um fim de semana fomos a Tábua, a casa dos pais do Humberto, e levámos o Paco. Era um novo mundo para ele mas desta feita um mundo que lhe permitia sentir-se livre como ainda não tinha tido hipótese de experenciar. O terreno da casa permitia-lhe saltar, correr atrás dos pássaros e interagir com os outros animais que por lá habitam; gatos, galinhas, etc. O Paco estava feliz e vê-lo daquela forma encheu-me o coração.
Os pais do Humberto tinham tido um desgosto com o último cão que tiveram e, até àquele fim de semana, tinham sempre dito que não queriam mais nenhum cão, não queriam mais desgostos. Mas, a mãe do Humberto não resistiu ao charme natural do Paco, apesar de ele manter a sua distância e naquela altura ainda não a deixar chegar perto, e propôs-nos que o deixássemos ficar com eles. A minha primeira reacção foi negativa. Não queria deixá-lo. Estava demasiado ligada a ele e vice-versa. Passou a noite, dormi sobre o assunto e no dia seguinte, pelo meio duma das suas investidas em perseguição de um pássaro que por lá andava, percebi que não o conseguia deixar ficar por egoismo. Voltando connosco, não conseguiria ter o que ali vivia. Trocava o espaço de ser livre e feliz por um corredor escuro e sózinho. O amor que tenho por ele conseguiu sobrepôr-se ao sofrimento de ter que lidar com a sua ausência física. O Paco fica, decidi.
Hoje, quando o vejo por lá a correr e conviver com os outros cães, a acompanhar as pessoas da vila nas suas caminhadas nocturnas, habituado às rotinas do campo, etc, o meu coração sabe que fez a melhor escolha mas, no momento de deixá-lo, foi díficil não sentir a tristeza da ausência, foi díficil para mim e incompreensível para ele. O Paco não entendeu, naquela altura, porque não vinha connosco, porque o tínhamos deixado para trás. Sentiu-se abandonado. Sentiu-se traído pelas únicas duas pessoas em quem tinha confiado. Sentiu que o mundo o traíra mais uma vez. Isolou-se, não comia, não deixava ninguém aproximar-se e vivia escondido. Sofreu porque não entendeu. Eu entendi, mas nem por isso deixei de sofrer.
Passou mais de um ano desde que se passou este episódio. Vamos a tábua com alguma frequência visitá-lo, estar com ele e presenciar a sua felicidade. Hoje o Paco não quer vir connosco. Se abrirmos a bagageira do carro e o chamarmos ele anda na direcção oposta e lança-nos um olhar claro de "nem pensar!". Contínuamos a ser aquelas duas pessoas em quem confia, que salta e chora de alegria de nos ver mas não quer o corredor escuro e sózinho. Entendeu, encontrou-se, encontrou a sua nova vida, o seu novo eu, a sua felicidade.
Contei esta história hoje aqui porque é, para mim, um claro exemplo dos momentos em que não entendêmos algumas das coisas que nos acontecem e sofremos com elas. Mas, por vezes, deixar alguém ir não é sinónimo de frieza ou ausência de amor, pelo contrário, há momentos em que por amarmos muito temos que deixar alguém ir e encontrar-se a si mesmo num outro lugar e num outro tempo. Há momentos em que o que nos parece desinteresse e abandono nada mais é do que uma prova imensa de amor ao mais profundo dos níveis que este pode atingir. O amor de lidarmos com as nossas fraquezas e inseguranças, com o que nos faz sofrer, em prol da felicidade de outro ser.
Dedico este texto ao meu querido Paco e a todos que, em algum momento, se tenham sentido abandonados de uma forma que não entendem mas que, a seu tempo, encontrarão o caminho para si mesmos e a verdadeira felicidade.

Um novo mundo

Estou a ler um livro do Eckhart Tolle, o título é " Um novo mundo". Eckhart Tolle é um escritor iluminado, um ser humano especial que mostra fortes indícios de genialidade. Não uma genialidade forçada mas um comunicador nato com uma mensagem clara e perceptível a todos. Depois do "Poder do Agora", que nos mostrou a importância de "estar" e "ser" agora, chega-nos este "novo mundo" que mal comecei a ler mas já me deixa inspirada e encantada. Não posso deixar de partilhar convosco algumas palavras deste livro inspirador que espero faça parte das escolhas literárias de todos.

"O florescimento da consciência humana -

Estamos no planeta Terra há 114 milhões de anos, minutos após o amanhecer: a primeira flor a aparecer no planeta desabrocha para acolher os raios de sol. Antes deste acontecimento tão marcante, que representa uma evolução revolucionária na vida das plantas, o planeta já se encontrava coberto de vegetação há milhões de anos. A primeira flor provavelmente não sobreviveu muito tempo, e as flores devem ter permanecido fenómenos raros e isolados, uma vez que as condições ainda não deviam ser favoráveis à ocorrência de um florescimento mais amplo. Um dia, porém, foi atingido um limiar crítico e, de súbito, deve ter-se dado uma explosão de cores e fragrâncias por todo o planeta - se houvesse uma consciência perceptível presente para a testemunhar.
Muito mais tarde, estas criaturas delicadas e perfumadas a que chamamos flores iriam desempenhar um papel crucial na evolução da consciência de outra espécie. Os seres humanos foram-se sentindo cada vez mais atraídos e fascinados por elas. À medida que a sua consciência se desenvolvia, as flores devem ter sido a primeira coisa sem fins utilitários a ser apreciada pelos seres humanos, isto é, sem estar relacionada com a sua sobrevivência. Tornaram-se fonte de inspiração para inúmeros artistas, poetas e místicos. Jesus diz-nos para contemplar as flores e aprender com elas a viver. Diz-se que Buda deu uma vez um "sermão em silêncio", durante o qual pegou numa flor e a contemplou. Algum tempo depois, um dos presentes, um monge chamado Mahakasyapa, começou a sorrir. Diz-se que foi ele o único a compreender o sermão. Segundo reza a lenda, este sorriso ( ou seja, esta compreensão ) foi transmitida sucessivamente por 28 mestres e, muito mais tarde, tornou-se a origem do zen.
Ver a beleza duma flor conseguia despertar os seres humanos, mesmo que por um breve momento, para a beleza que faz parte integrante da sua essência mais profunda, da sua verdadeira natureza. O primeiro reconhecimento da beleza foi um dos acontecimentos mais importantes na evolução da consciência humana. Os sentimentos de alegria e amor estão intrinsecamente relacionados com esse reconhecimento. Sem estarmos totalmente conscientes disso, as flores tornar-se-iam para nós uma expressão corpórea daquilo que é mais elevado, mais sagrado e, em última análise, que não tem forma dentro de nós próprios. As flores, que são mais efémeras, mais etéreas e mais delicadas do que as plantas de onde emergem, tornar-se-iam uma espécie de mensageiras de uma outra dimensão, uma ponte entre o mundo das formas físicas e o mundo sem forma. Não só tinham um aroma delicado e agradável para os seres humanos, como também exalavam uma fragrância do reino do espírito. Se empregarmos a palavra "iluminação" num sentido mais abrangente do que o aceite convencionalmente, podemos olhar para as flores como a iluminação das plantas.
É possível qualquer forma de vida, de qualquer reino - mineral, vegetal, animal ou humano -, passar por uma experiência de "iluminação". Contudo, é um acontecimento muitíssimo raro, pois representa mais do que um progresso evolucionário: também implica uma descontinuidade no seu desenvolvimento, um salto para um nível completamente diferente do Ser e, acima de tudo, um desprendimento da materialidade.
O que pode ser mais pesado e impenetrável do que uma rocha, a mais densa de todas as formas? Não obstante, algumas rochas sofrem uma mudança na sua estrutura molecular, transformam-se em cristais e, por conseguinte, tornam-se transparentes à luz. Alguns carbonos, sob um calor e uma pressão incríveis, transformam-se em diamantes, e alguns minerais pesados noutras pedras preciosas.
A maior parte dos répteis rastejantes, de todas as criaturas as mais ligadas à terra, permaneceu inalterada ao longo de milhões de anos. Porém, a alguns cresceram penas e asas, transformando-os em aves, desafiando assim a força da gravidade que durante tanto tempo os aprisionara. Não desenvolveram novas formas de rastejar ou andar, transcendendo completamente estes tipos de locomoção.
Desde tempos imemoráveis, as flores, os cristais, as pedras preciosas e os pássaros têm ocupado um lugar especial no espírito humano. Como todas as formas de vida, são evidentemente manifestações temporárias da Vida única essencial, da Consciência única. O seu significado especial e a razão pela qual os seres humanos sentiram tamanho fascínio e afinidade por elas podem ser atribuídos à sua natureza etérea.
Quando existe um certo nível de Presença, paz e atenção consciente nas percepções de um ser humano, este é capaz de sentir a essência divina da vida, a consciência única ou o espírito único que habita dentro de todas as criaturas e todas as formas de vida, reconhecendo-a como una com a sua própria essência e sendo, por isso, capaz de a amar como a si próprio. Contudo, até este nível ser atingido, a maior parte dos seres humanos vê apenas as formas exteriores, sem ter consciência da essência interior nem da sua própria essência, identificando-se apenas com a sua própria forma física e psicológica.
Porém, no caso de uma flor, de um cristal, de uma pedra preciosa ou de um pássaro, mesmo um ser humano com pouca ou nenhuma Presença é capaz de sentir ocasionalmente que há mais alguma coisa para além da mera existência física dessa forma, sem saber que este é o motivo pelo qual é atraído por ela e sente uma afinidade com ela. Devido à sua natureza etérea, estas formas ensombram o espírito que habita no nosso interior em menor grau do que outras formas de vida. A excepção a esta regra são todas as formas de vida recém-nascidas - bebés, cachorrinhos, gatinhos, cordeiros e assim por diante. São frágeis, delicadas e ainda não estão firmemente enraízadas na materialidade. Ainda conseguem irradiar uma inocência, uma doçura e uma beleza que não pertencem a este mundo. Até fazem as delícias dos seres humanos relativamente insensíveis.
Quando estamos alertas e contemplamos uma flor, um cristal ou um pássaro sem o rotular mentalmente, este torna-se uma porta de entrada para o mundo sem forma. Existe uma abertura interior, por mais ténue que seja, que dá acesso directo ao reino do espírito. Esta é a razão pela qual estas 3 formas de vida "iluminadas" desempenharam um papel tão importante na evolução da consciência humana desde tempos antigos; esta é a razão pela qual, por exemplo, a jóia na flor de lótus é um dos símbolos fundamentais do Budismo e a pomba branca representa o Espírito Santo no Cristianismo. Estas formas de vida têm estado a preparar terreno para uma mudança mais profunda na consciência planetária destinada a realizar-se na espécie humana. Estamos a começar a testemunhar o despertar espiritual."

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Tchu-tchu


Gosto de comboios, desde sempre. Gosto dos grandes, dos pequenos, de todas as cores e formas. Gosto de imaginar os sons e cheiros de um passeio de comboio. Não pela linha de sintra, onde todas as leis da física são contrariadas e sim, duas coisas conseguem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo, acreditem. Mas um passeio de comboio por entre rios e montanhas é renovador. Pena é, que a beleza dos comboios antigos tenha sido esquecida e se inventem comboios sem magia cujo mote é o simples transporte de pessoas. Toda a gente sabe que os comboios não foram inventados para o transporte mas sim para puro deleite dos que apreciam uma viagem pelos carris deste mundo.
E depois há as pistas de comboio, são estonteantes. Fica-se ali a olhar o comboio a seguir o seu rumo, a deixar para trás árvores, montanhas e tuneis, sim, porque uma pista de comboios sem um túnel não é uma pista de comboios verdadeira, e se fecharmos os olhos estamos em viagem.
Tive uma pista destas em criança e lembro-me que o tempo não passava e que ficava imóvel a ver a magia em acção. E, dentro de uma das carruagens lá ia eu, tchu-tchu, em direcção a um qualquer destino.
Um comboio transporta-nos muito para além dos destinos físicos. Leva-nos numa viagem ao mais profundo de nós próprios, a locais que não sabemos que existem mas que nem por isso deixam de lá estar, à espera de serem encontrados.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Os gorilas da minha bruma

É díficil explicar todas as sensações e sentimentos que por mim passam quando vejo imagens de gorilas. É algo inexplicável. Sempre foi.
Lembro-me da primeira vez que estive perto de um gorila. Infelizmente para ambos, este primeiro contacto aconteceu no jardim zoológico de Lisboa. Tinha pouco mais de 6 anos e lembro-me, como se fosse hoje, da sensação de estar aprisionada e de não conseguir respirar. Era um gorila lindo, enorme, preso numa jaula fria e feia. Permanecia imóvel num canto, desligado do mundo e dos olhos que o olhavam. As outras pessoas foram passando, eu fui ficando. Não conseguia afastar-me, estava hipnotizada. Queria muito soltá-lo e ajudá-lo a fugir daquele lugar horrível. Os seus olhos imóveis e distantes mostravam uma tristeza acomodada e uma revolta silenciosa. Eu, sentia-me literalmente colada ao chão, não conseguia sair dali. Queria entrar na jaula, passar a mão na sua cabeça, dizer-lhe que não estava sózinho. Queria muito abraçá-lo, acariciá-lo, mostrar-lhe que alguém se preocupava com ele. Queria tanto...
O tempo do passeio "supostamente" pedagógico terminou e tive que ir embora. levei comigo uma sensação de abandono e revolta imensos. Sentia que uma parte de mim tinha ficado naquela jaula.
Esta sensação de familiaridade em relação aos gorilas tem-me acompanhado desde sempre.
Anos mais tarde, vi o filme "Gorilas na bruma". Escusado será dizer que foi uma choradeira do início ao fim. Mas estava tudo ali. Todas as minhas sensações de conhecimento profundo em relação aos gorilas, a sua forma de andar, a forma como se relacionam, a forma como se protegem, o seu sentido de comunidade. Estava tudo ali e era-me tão familiar. Sentia-me em casa.
Não sei se terei sido um gorila numa outra vida, mas que sinto tudo o que lhes diz respeito duma forma muito intensa e incompreensível é verdade. E, quando vejo muitas das suas expressões e reacções quase que me consigo imaginar a fazer o mesmo.
Pronto, tenho um gorila dentro de mim. Cuidado comigo!

Uma verdade inconveniente

Duma forma ou de outra já todos ouviram falar no documentário "Uma verdade inconveniente". Ontem, consegui finalmente vê-lo.
Todos ouvimos falar do aquecimento global, da poluíção, do aumento da temperatura, etc, mas parecem histórias sempre tão distantes... Na realidade, não vemos nenhuma dessas consequências no imediato, no dia-a-dia. Abrimos uma torneira de casa e a água corre naturalmente, continuamos a ter calor no verão e frio no inverno e as nossas vidas continuam como se nada as pudesse afectar. Mas até que ponto é que esta não é apenas uma verdade conveniente?
O documentário é, na minha opinião, muito bem construído e documentado. Mais, a linguagem é clara e acessível a todos. Ainda mais, os exemplos são inteligentes ao ponto de nos fazerem achar piada e não virar a cara. Um desses exemplos é demonstrativo da forma como nós, humanos, reagimos ao que nos rodeia e é algo parecido com isto: Imaginem um sapo e um recipiente com água a ferver. Se o sapo saltar para dentro do recipiente e sentir a água imediatamente quente, a sua reacção natural é pular logo para fora e fugir ao calor. Mas, se colocarmos o sapo dentro do recipiente com água ainda tépida e a temperatura for aumentando gradualmente, o sapo vai-se deixando ficar até que tem que ser resgatado. Porquê? porque não vê de imediato o efeito da temperatura no ponto de ebulição e então vai aguentando... Isto é representativo de todos nós. Abrimos uma torneira e a água corre, então de que interessa ouvir falar da falta de água daqui a 50 anos?
Mas façam o teste e olhem para trás. Vejam o documentário, quem ainda não viu. Vejam as fotos de locais com o Kilimanjaro coberto de neve há 40 anos atrás e hoje. Vejam os gráficos que mostram como em 40 anos a espessura da camada de gelo em locais como o Ártico diminuiu 40%. Vejam como, pela primeira vez, se começam a encontrar ursos polares que morrem afogados por nadarem kilómetros sem encontrar uma placa de gelo que consiga suportar o seu peso. Ou, como as temperaturas têm subido nos últimos anos de forma nunca vista ou estudada.
É um facto que todos nós sabemos que isto se passa. Mas até que ponto não o apagamos diariamente das nossas rotinas por ser mais fácil viver sem essa informação.
Eu e a Mécia falámos hoje sobre isto, sobre como é mais fácil viver na ignorância. É mais fácil viver e é mais fácil ser feliz.
Sempre que toco neste assunto lembro-me como a "Alegoria da Caverna", de Platão, é um texto tão actual e um dos maiores exemplos deste comportamento. Também aí, os que viviam na caverna não queriam sair para ver o sol. Não viam o sol, é verdade, não o sentiam na cara, não sentiam o seu calor. Mas também não sabiam o que isso era e, por isso mesmo, não sentiam a sua falta nem conheciam os benefícios. Eram ignorantes, sim, mas eram felizes.
Já sei, já sei. A felicidade é um conceito relativo. Eu sei que é e sei, também, que a informação liberta-nos e dá-nos asas. Mas, tenho que insistir, não é fácil viver com toda esta informação e acordar a sorrir para um novo dia e acreditar que vai tudo correr bem. Não sei se vai correr bem, não tem sido esse o percurso.
A minha opção pessoal tem sido a de querer ver o sol, viver com a informação e procurar divulgá-la o mais possível. Não é fácil, mas nem todos nós conseguimos escolher o outro caminho.
Vejam o documentário e não permitam que a conveniência apague a verdade do planeta em que vivêmos. Está em risco, estamos todos.