quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Uma verdade inconveniente

Duma forma ou de outra já todos ouviram falar no documentário "Uma verdade inconveniente". Ontem, consegui finalmente vê-lo.
Todos ouvimos falar do aquecimento global, da poluíção, do aumento da temperatura, etc, mas parecem histórias sempre tão distantes... Na realidade, não vemos nenhuma dessas consequências no imediato, no dia-a-dia. Abrimos uma torneira de casa e a água corre naturalmente, continuamos a ter calor no verão e frio no inverno e as nossas vidas continuam como se nada as pudesse afectar. Mas até que ponto é que esta não é apenas uma verdade conveniente?
O documentário é, na minha opinião, muito bem construído e documentado. Mais, a linguagem é clara e acessível a todos. Ainda mais, os exemplos são inteligentes ao ponto de nos fazerem achar piada e não virar a cara. Um desses exemplos é demonstrativo da forma como nós, humanos, reagimos ao que nos rodeia e é algo parecido com isto: Imaginem um sapo e um recipiente com água a ferver. Se o sapo saltar para dentro do recipiente e sentir a água imediatamente quente, a sua reacção natural é pular logo para fora e fugir ao calor. Mas, se colocarmos o sapo dentro do recipiente com água ainda tépida e a temperatura for aumentando gradualmente, o sapo vai-se deixando ficar até que tem que ser resgatado. Porquê? porque não vê de imediato o efeito da temperatura no ponto de ebulição e então vai aguentando... Isto é representativo de todos nós. Abrimos uma torneira e a água corre, então de que interessa ouvir falar da falta de água daqui a 50 anos?
Mas façam o teste e olhem para trás. Vejam o documentário, quem ainda não viu. Vejam as fotos de locais com o Kilimanjaro coberto de neve há 40 anos atrás e hoje. Vejam os gráficos que mostram como em 40 anos a espessura da camada de gelo em locais como o Ártico diminuiu 40%. Vejam como, pela primeira vez, se começam a encontrar ursos polares que morrem afogados por nadarem kilómetros sem encontrar uma placa de gelo que consiga suportar o seu peso. Ou, como as temperaturas têm subido nos últimos anos de forma nunca vista ou estudada.
É um facto que todos nós sabemos que isto se passa. Mas até que ponto não o apagamos diariamente das nossas rotinas por ser mais fácil viver sem essa informação.
Eu e a Mécia falámos hoje sobre isto, sobre como é mais fácil viver na ignorância. É mais fácil viver e é mais fácil ser feliz.
Sempre que toco neste assunto lembro-me como a "Alegoria da Caverna", de Platão, é um texto tão actual e um dos maiores exemplos deste comportamento. Também aí, os que viviam na caverna não queriam sair para ver o sol. Não viam o sol, é verdade, não o sentiam na cara, não sentiam o seu calor. Mas também não sabiam o que isso era e, por isso mesmo, não sentiam a sua falta nem conheciam os benefícios. Eram ignorantes, sim, mas eram felizes.
Já sei, já sei. A felicidade é um conceito relativo. Eu sei que é e sei, também, que a informação liberta-nos e dá-nos asas. Mas, tenho que insistir, não é fácil viver com toda esta informação e acordar a sorrir para um novo dia e acreditar que vai tudo correr bem. Não sei se vai correr bem, não tem sido esse o percurso.
A minha opção pessoal tem sido a de querer ver o sol, viver com a informação e procurar divulgá-la o mais possível. Não é fácil, mas nem todos nós conseguimos escolher o outro caminho.
Vejam o documentário e não permitam que a conveniência apague a verdade do planeta em que vivêmos. Está em risco, estamos todos.


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