quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O Paco


O Paco é um cão, um dos muitos animais que se cruzou comigo. Foi, sem sombra de dúvida, o animal mais traumatizado que até hoje encontrei e foram muitos, acreditem.
As fotos do Paco chegaram até mim por e-mail enviado por amiga sempre preocupada com o imenso problema dos animais abandonados e da sua adopção. O Paco tinha sido abandonado com 2 meses numa praia, dentro de uma gruta e lá tinha permanecido até ser encontrado. O que vem a seguir não foi muito melhor. Foi levado para uma instituição que não vou referir o nome e, devido à sua pouca idade e ao facto de não poder estar com os outros animais mais velhos, viveu 2 meses literalmente fechado numa casa de banho. O único contacto que tinha com alguém acontecia no momento de uma porta se abrir para lhe ser dada comida, água e limpar o local onde fazia as suas necessidades. Tornou-se um cão completamente anti-social para quem o contacto com o mundo exterior à casa de banho era motivo de pânico.
Uns dias depois de ter recebido as fotos por e-mail, alguém me falou que queria adoptar um cão e lembrei-me automaticamente do Paco. Não sabia, porque não me era possível imaginar, o nível de trauma que o Paco tinha desenvolvido. Falei com a pessoa e desloquei-me até à tal instituição para ver o Paco, tirar algumas fotos e enviar para o futuro "pai de adopção". O primeiro encontro com o Paco foi um drama, do mais puro. O facto de o tirarem do seu universo, diga-se casa de banho, fez com entrasse em estado de choque, fez xixi pelas pernas abaixo, tremia incessantemente e o seu coração parecia que ia saltar do peito. O terror e o pânico que vi nos seus olhos não se esquece facilmente. Por motivos que entenderão, o Paco não ficou mais um dia nesse local e trouxe-o comigo para casa.
Trabalhava em casa nessa altura o que me deu algum espaço para estar com ele e permitir-lhe o contacto com seres humanos, gatos e outros locais que não casas de banho. No momento que entrámos em casa, a primeira coisa que fez foi procurar a casa de banho e esconder-se onde conseguiu. Era o que conhecia, não conhecia nada mais. Não o pressionámos, deixámos que ficasse onde queria, como queria e quando queria. Saiu até ao corredor quando quis, chegou até à porta da sala quando sentiu que o conseguia fazer, deixou-nos fazer-lhe festas quando esteve preparado e saltou para cima do sofá de famíla no seu momento. Com o passar do tempo, meses, integrou-se na família, como podem ver na foto em cima, e o universo dele tornou-se mais abrangente.
Infelizmente, chegou um momento em que tive que começar a sair de casa para trabalhar e foi um novo drama. O Paco já não estava habituado a passar o dia sem mim e começou a roer tudo o que encontrava. Desde móveis, a rodapés, até às ombreiras das portas... e passou a ter que viver num corredor e na cozinha porque todas as outras portas tinham que permanecer fechadas. Foi um tempo díficil para ele e para mim que o imaginava sem espaço e em stress.
Um fim de semana fomos a Tábua, a casa dos pais do Humberto, e levámos o Paco. Era um novo mundo para ele mas desta feita um mundo que lhe permitia sentir-se livre como ainda não tinha tido hipótese de experenciar. O terreno da casa permitia-lhe saltar, correr atrás dos pássaros e interagir com os outros animais que por lá habitam; gatos, galinhas, etc. O Paco estava feliz e vê-lo daquela forma encheu-me o coração.
Os pais do Humberto tinham tido um desgosto com o último cão que tiveram e, até àquele fim de semana, tinham sempre dito que não queriam mais nenhum cão, não queriam mais desgostos. Mas, a mãe do Humberto não resistiu ao charme natural do Paco, apesar de ele manter a sua distância e naquela altura ainda não a deixar chegar perto, e propôs-nos que o deixássemos ficar com eles. A minha primeira reacção foi negativa. Não queria deixá-lo. Estava demasiado ligada a ele e vice-versa. Passou a noite, dormi sobre o assunto e no dia seguinte, pelo meio duma das suas investidas em perseguição de um pássaro que por lá andava, percebi que não o conseguia deixar ficar por egoismo. Voltando connosco, não conseguiria ter o que ali vivia. Trocava o espaço de ser livre e feliz por um corredor escuro e sózinho. O amor que tenho por ele conseguiu sobrepôr-se ao sofrimento de ter que lidar com a sua ausência física. O Paco fica, decidi.
Hoje, quando o vejo por lá a correr e conviver com os outros cães, a acompanhar as pessoas da vila nas suas caminhadas nocturnas, habituado às rotinas do campo, etc, o meu coração sabe que fez a melhor escolha mas, no momento de deixá-lo, foi díficil não sentir a tristeza da ausência, foi díficil para mim e incompreensível para ele. O Paco não entendeu, naquela altura, porque não vinha connosco, porque o tínhamos deixado para trás. Sentiu-se abandonado. Sentiu-se traído pelas únicas duas pessoas em quem tinha confiado. Sentiu que o mundo o traíra mais uma vez. Isolou-se, não comia, não deixava ninguém aproximar-se e vivia escondido. Sofreu porque não entendeu. Eu entendi, mas nem por isso deixei de sofrer.
Passou mais de um ano desde que se passou este episódio. Vamos a tábua com alguma frequência visitá-lo, estar com ele e presenciar a sua felicidade. Hoje o Paco não quer vir connosco. Se abrirmos a bagageira do carro e o chamarmos ele anda na direcção oposta e lança-nos um olhar claro de "nem pensar!". Contínuamos a ser aquelas duas pessoas em quem confia, que salta e chora de alegria de nos ver mas não quer o corredor escuro e sózinho. Entendeu, encontrou-se, encontrou a sua nova vida, o seu novo eu, a sua felicidade.
Contei esta história hoje aqui porque é, para mim, um claro exemplo dos momentos em que não entendêmos algumas das coisas que nos acontecem e sofremos com elas. Mas, por vezes, deixar alguém ir não é sinónimo de frieza ou ausência de amor, pelo contrário, há momentos em que por amarmos muito temos que deixar alguém ir e encontrar-se a si mesmo num outro lugar e num outro tempo. Há momentos em que o que nos parece desinteresse e abandono nada mais é do que uma prova imensa de amor ao mais profundo dos níveis que este pode atingir. O amor de lidarmos com as nossas fraquezas e inseguranças, com o que nos faz sofrer, em prol da felicidade de outro ser.
Dedico este texto ao meu querido Paco e a todos que, em algum momento, se tenham sentido abandonados de uma forma que não entendem mas que, a seu tempo, encontrarão o caminho para si mesmos e a verdadeira felicidade.

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