quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Os gorilas da minha bruma

É díficil explicar todas as sensações e sentimentos que por mim passam quando vejo imagens de gorilas. É algo inexplicável. Sempre foi.
Lembro-me da primeira vez que estive perto de um gorila. Infelizmente para ambos, este primeiro contacto aconteceu no jardim zoológico de Lisboa. Tinha pouco mais de 6 anos e lembro-me, como se fosse hoje, da sensação de estar aprisionada e de não conseguir respirar. Era um gorila lindo, enorme, preso numa jaula fria e feia. Permanecia imóvel num canto, desligado do mundo e dos olhos que o olhavam. As outras pessoas foram passando, eu fui ficando. Não conseguia afastar-me, estava hipnotizada. Queria muito soltá-lo e ajudá-lo a fugir daquele lugar horrível. Os seus olhos imóveis e distantes mostravam uma tristeza acomodada e uma revolta silenciosa. Eu, sentia-me literalmente colada ao chão, não conseguia sair dali. Queria entrar na jaula, passar a mão na sua cabeça, dizer-lhe que não estava sózinho. Queria muito abraçá-lo, acariciá-lo, mostrar-lhe que alguém se preocupava com ele. Queria tanto...
O tempo do passeio "supostamente" pedagógico terminou e tive que ir embora. levei comigo uma sensação de abandono e revolta imensos. Sentia que uma parte de mim tinha ficado naquela jaula.
Esta sensação de familiaridade em relação aos gorilas tem-me acompanhado desde sempre.
Anos mais tarde, vi o filme "Gorilas na bruma". Escusado será dizer que foi uma choradeira do início ao fim. Mas estava tudo ali. Todas as minhas sensações de conhecimento profundo em relação aos gorilas, a sua forma de andar, a forma como se relacionam, a forma como se protegem, o seu sentido de comunidade. Estava tudo ali e era-me tão familiar. Sentia-me em casa.
Não sei se terei sido um gorila numa outra vida, mas que sinto tudo o que lhes diz respeito duma forma muito intensa e incompreensível é verdade. E, quando vejo muitas das suas expressões e reacções quase que me consigo imaginar a fazer o mesmo.
Pronto, tenho um gorila dentro de mim. Cuidado comigo!

1 comentário:

Anónimo disse...

Pensava que eu é que era o gorila cá em casa :)