Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Crónicas de Laura

Era um fim de tarde igual a qualquer outro. Laura caminhava pela rua, de cabeça baixa, embrenhada no turbilhão de pensamentos que a atropelavam.
O céu estava limpo, de azul pincelado a branco, e corria uma brisa fresca que a fazia cruzar os braços numa tentativa de se aconchegar em si mesma. Mais à frente, tropeça numa pedra que já tinha sido chutada por uma dezena de pessoas, sente uma dor agonizante no tornozelo e pára. Encosta-se à parede do prédio por onde passava e tenta apoiar-se. Depois, senta-se no degrau da entrada do prédio, pressiona o tornozelo com força para tentar disfarçar a dor e, enquanto massaja a zona dorida, pensa que tem de ir ao supermercado porque o frigorífico de casa está vazio. Voltar para casa tinha para Laura este significado de electrodoméstico vazio, este sentimento de abandono generalizado. Tenta voltar a levantar-se, coloca o pé novamente no chão. Doi, mas precisa do pé para chegar a casa. Aos pulos, entre um aliviar do pé magoado e uns suspiros de entrega desistente, chega ao seu apartamento. Acende as luzes e olha em redor na esperança de encontrar algo diferente do dia anterior. Sabe o exacto local de cada coisa mas encontrar algo fora do sítio trazia-lhe uma sensação de companhia. Por vezes, trocava os sítios às coisas ou deixava roupa espalhada pelo chão para que ao acordar pudesse, por segundos, sentir que mais alguém estivera ali. Levantar-se e reclamar pelas coisas fora do sítio mantinha-a sã e acompanhada. Laura sabia que estava só mas não tinha que viver como se estivesse.
Na mesa do pequeno almoço colocava sempre duas chávenas para café, vários pães e bolo à descrição. Vivia com o pensamento de que alguém poderia chegar nesse exacto momento e era melhor prevenir do que remediar. Não existe coisa pior do que um pequeno-almoço remediado, um café requentado ou pão com uns dias de atraso. Laura estava sempre pronta a receber quem pudesse estar para chegar. A casa era grande, maior do que precisaria vivendo sozinha. Mas havia sempre a hipótese de algum amigo precisar de ficar por lá ou, quem sabe, um destes dia a mãe poderia decidir-se a visitá-la. Havia sempre um quarto preparado para a possível vinda de alguém.
Laura desloca-se em direcção ao frigorífico vazio em busca de gelo que lhe acalme a dor, abre-o e descobre que sobraram uns restos do jantar de há 3 dias. O cheiro não está do melhor mas não cheirando totalmente a comida estragada talvez ainda se possa aproveitar. Com o pé dorido a ida ao supermercado ficou, mais uma vez, adiada. Senta-se no sofá, com o tabuleiro de comida duvidosa no colo, liga o rádio e sintoniza o canal que costuma ouvir. São músicas antigas mas, de uma forma estranha e quase desesperada, as memórias trazem-lhe um sentimento de companhia. Laura adormece no sofá. Ao lado, no chão, uma colónia de formigas vem visitar o tabuleiro com os restos do resto da comida de há 3 dias. Nada se perde, tudo se transforma.
É noite escura e Laura é acordada pela dor do pé que torceu e da posição em que adormeceu no sofá. Do rádio, só se ouve agora um som de chuva seca que se espalha por toda a sala. É tarde. A viagem do sofá até à cama, que fica do lado oposto da casa, é feita ao pé coxinho e com a ajuda da parede. Os lençois estão frios, Laura enrosca-se numa posição confortável e pensa que uma boa noite de sono ajudará a recuperar o tornozelo ferido e a sensação de imensidão que encontra diariamente na cama tamanho XL que comprou por poder vir a ser precisa um dia, mais tarde, quem sabe.
Na manhã seguinte, o despertador antigo que tem em cima da mesinha de cabeceira toca de forma desconcertada, como se lhe faltasse força para soar alto, a pulmões abertos. Laura não se incomodava com o desconcerto do som que a acordava todas as manhãs, ao contrário, reconhecia nele uma proximidade acolhedora. Quando alguém a confrontava com o seu aspecto desgastado, argumentava: "mas é natural sentir cansaço, perder a voz e as forças de vez em quando, no final de contas, até um aparelho mecânico se cansa com o passar dos dias." A custo, porque a noite não apagou nenhuma das suas dores, prepara-se para sair e enfrentar mais umas horas de uma vida que não reconhece como sua, populada de pessoas sem cara, de vozes desconectas e confusas. Frequentemente, tinha dificuldade em reconhecer a linguagem que as pessoas usavam quando a abordavam. Na maioria das vezes, alguns minutos depois e com uma quantidade considerável de esforço, lá ia decifrando o essencial, o básico e indispensável. Na verdade, assim era a vida de Laura, básica e limitada ao necessário para continuar a funcionar. Não tinha amigos, ainda que mantivesse um quarto na hipótese de um amigo poder vir a necessitar dele. A família tinha-a esquecido fazia já muito tempo, mas continuava a esperar a visita da mãe a qualquer momento. Esquecia-se de comer e quando o corpo a lembrava encontrava o frigorífico vazio e o supermercado fechado. Tomava banho quando percebia que as mesmas pessoas cuja linguagem não entendia, torciam o nariz e voltavam a cara ao falar com ela.
Sem se aperceber, sem conseguir identificar quando nem porquê, Laura tinha-se desconectado do mundo. Por vezes, entre um e outro piscar de olhos, sentia que estava longe, distante, desligada. Percebia que se tinha deixado ir. Nesses momentos, chegava mesmo a ouvir a campainha da porta tocar. Mas, esses eram também os momentos em que sentia o corpo dorido e triste por uma vida de abandono e solidão e Laura não queria sentir mais dor, não conseguia sentir mais tristeza. Então, deixava-se novamente ir e voltava para o único lugar onde sabia estar em segurança, aquele cujo caminho ninguém mais conhecia, aquele de onde ela própria não sabia voltar.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Na ausência de ti

A propósito de uma história (in)acabada que me foi contada num dia de ausência sentida.

Contigo ia até ao fim do mundo. Não sei bem onde ele fica, mas ia.
Esta coisa dos sentimentos é assim, faz-nos ir a lugares onde não iríamos de outra forma.
Contigo ia ver o mar, em silêncio, e sentava-me na areia húmida. Depois, olhavamos um para o outro e ríamos porque é mais fácil rir do que falar. Foi sempre mais fácil rir do que falar.
Daqui consigo ouvir o som do mar. Ouço o teu silêncio e nele a voz de todas as coisas não ditas. Talvez porque não houvesse nada para dizer, talvez porque os gestos nos tenham sempre bastado. Talvez porque o tempo nos tenha trazido até aqui, até este lugar onde não precisamos de mais, ou talvez os nossos medos se reconheçam de tal forma que nos paralise a ideia de sermos descobertos um pelo outro. O problema de nos escondermos é que ficamos com um sabor amargo na boca. O problema de nos mostrarmos é que nos dá aquele frio na barriga e começamos a dizer coisas sem sentido. E assim, entre o destapar ou não de nós, vivemos um tempo em que nos perdemos do mundo por momentos breves, tão breves como as palavras que dizemos um ao outro.
O que faz duas pessoas gostarem uma da outra? Acho que ninguém sabe muito bem. Eu não sei porque faço as coisas que faço quando estás comigo ou porque me falta o ar quando te aproximas. Não sei porque não penso em ti durante dias e depois noutros só penso nisso. Não sei porque gosto de sentir os teus braços apertarem-me como se não me quisesses deixar ir. Sei que gosto de ti e que hoje, agora, me fazes bem.
Contigo ficava a noite toda acordada a contar estrelas no céu e quando nos perdessemos na conta voltavamos ao início só porque tinha piada. O riso é a máscara que nos segura quando nos sentimos abandonar um em direcção ao outro. Quando não há mais nada a dizer, quando os olhos se cruzam e os joelhos tremem, é o riso que nos sustém.
Contigo ia até à lua e voltava mas, antes de voltarmos, mostrava-te como o mundo em baixo é pequeno e tudo parece leve e tranquilo. Talvez assim os joelhos não tremessem tanto, talvez assim encontrássemos um espaço onde o chão não parecesse fugir.
Mas, a verdade é que o chão foge e com ele foge o teu toque, que não sinto, o teu suspiro, que não ouço, a expressão nos teus olhos que, sem palavras, dizem "quero-te" e foges tu. O problema é que, sem chão, também eu não consigo ficar.
Mas, no mesmo instante em que viro as costas e caminho para longe de ti, fecho levemente os olhos e revivo todos os momentos; O momento em que senti que me tocavas e me suspiravas ao ouvido. O momento em que nos imaginei sentados, em frente ao mar, em silêncio. O momento em que me pareceu ouvir o teu riso e senti que tudo estava como deveria estar.
Sei que, por um momento, estiveste aqui. Sei que não vais voltar.

Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

A stroke of insight

Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Fazes-me falta, sabes?

Não sei onde estavas hoje quando me sentei no banco do jardim.Tenho pensado em ti em muitos momentos, pequenos momentos, intervalos de tempo que te aproximam de mim e nos quais permito que existas. Noutros não te deixo entrar. Fecho os olhos e vou para outro lugar onde não estás porque não consigo estar contigo aqui, neste lugar. Este lugar é cruel, cruel como todos os lugares que sobrevivem ao tempo. Estou aqui e não te sinto. Fazes-me falta, sabes?
Vejo-te sentado na beira do lago a passar a mão pela água, a tentar molhar-me um pouco, a querer que sinta a vida que corre em cada coisa. E sorris, levemente, como quem sabe o que está a oferecer. Depois sentas-te na relva e tentas que me sente contigo. Espalhas a tua voz por entre a brisa que corre e dizes-me como sou bonita, como vês em mim o mundo repleto de fogo de artíficio. "Sabes isso, não sabes? vês como és bonita?" Há momentos, palavras, que só entendemos quando nos aquecem o corpo frio, esquecido num quarto escuro e cinzento. Houve momentos em que a tua voz me fez voltar a mim. Noutros a ausência dela deixou-me cair.
Só por hoje queria ouvir a tua voz novamente e que me contasses uma história, não importa qual. Só por hoje queria ver-te chegar, cansado, e atirares-te para cima da cama num acto de pura preguiça. Só por hoje queria que me abraçasses como se não fosses partir.
Tentei que não ficasses preso no momento de chuva em que te vi desaparecer. Que os dias não trouxessem o peso da tua ausência, que as noites não me asfixiassem ao reviver um momento feliz contigo. Tentei respirar quando senti o ar falhar-me e percebi que não ias voltar, nunca mais. Tentei trazer-te comigo todos os dias. A verdade é que não estás aqui. Não te sinto.
Os dias passam indiferentes à falta que sinto de ti e com eles chegam as imagens esbatidas do que um dia foi mas que lembro com dificuldade. Não sei onde estás, como estás, se estás. Sei que não te sinto e que a memória me vai falhando ano após ano. Em cada respiração tento trazer um pouco de ti para os meus braços e penso no que faríamos se estivesses aqui. Talvez nos sentássemos em frente à televisão a ver um western, enquanto fumavas cigarro atrás de cigarro. Ou então, talvez fossemos até à pastelaria da esquina beber um café e um garoto. Pelo caminho passávamos na banca dos jornais e fazias a tua selecção de leitura.
Passo todos os dias pelo lugar da banca de antigamente que já não é uma simples banca. Está mais apetrechada de material, os jornais são protegidos por uma estrutura sólida em vez de plásticos rasgados e há uma nova senhora que vende os jornais. A outra, a da minha história, mudou de lugar, não vende jornais na banca mas continua criteriosamente sentada no mesmo lugar de sempre. Como se fosse necessária a sua presença para nos lembrar de quem somos.
Fazes-me falta e por vezes acho que o mundo parou de girar no momento em que desapareceste. Abro os braços e giro em torno de mim para produzir um efeito de movimento. Levantam-se as folhas do chão e a poeira aproveita a deixa para mudar de sítio. Mudam-se as poeiras, mudam-se as verdades. Levam-se as verdades de um lugar para o outro e elas deixam de ser o que foram. Nada permanece como me lembro. Não te sinto e não me lembro dos traços do teu rosto. Fazes-me falta.

Sábado, 4 de Abril de 2009

Asas


"I am a bird girl now, i've got my heart here in my hands now, i 've been searching for my wings some time, i'm gonna be born into soon the sky, 'Cause i'm a bird girl and the bird girls go to heaven. I'm a bird girl, and the bird girls can fly, bird girls can fly."

Quando era criança costumava fechar os olhos e imaginar que estava a voar. Voltava a abrir os olhos sempre para descobrir que não tinha levantado vôo. Nalguns momentos, a capacidade de voar para bem longe ter-me-ia sido muito benéfica. Podia ter batido as asas em momentos que esqueceria de bom grado. Mas a verdade é que nunca consegui voar. Talvez a consequência mais directa disso seja a minha incontrolável vontade de não permanecer no mesmo sítio muito tempo. Feitas as contas, não conheço ninguém que tenha mudado de casa tantas vezes quanto eu. Tenho esta dificuldade de permanecer num lugar. Não tanto por não estar bem onde estou mas por querer mais estar noutro sítio. Muitas vezes esse outro sítio nada mais tem para além de ser simplesmente outro sítio. Mas é que já quis tanto estar noutros sítios e não podia voar..
A certa altura estava a falar com alguém sobre o desejo de voar e ela respondeu-me: "tudo se resume ao que conseguimos ou não ver. No momento em que conseguires ver as tuas asas e acreditares que te vão levantar, então voarás." Lembro-me disso sempre que me doem as costas. Fico a olhar, à espera de ver alguma penugem nascer, à procura das minhas asas. Se me nascessem umas asas de que cor seriam? Brancas, pretas, cinzentas? Queria mesmo umas asas, a cor não me importa nada.

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

A facilidade de estar vivo

Há momentos em que tudo é fácil. Acordamos de manhã, não muito cedo, sentimos o sol a chamar-nos lá fora e uma imensa vontade de fazer coisas. Levantamo-nos e sabemos para onde ir e o que fazer. Há dias em que o chuveiro não nos parece um lugar tão distante, repleto de imagens e lembranças e tudo o que dizemos encaixa na perfeição no discurso que trocamos com os outros. Há dias em que é fácil viver.
Tropecei no degrau quando ia a sair de casa. Não me apetece vir para o mundo e ver caras, pessoas. Tropecei no degrau porque não quero sair para a rua e o meu corpo diz-me para ficar em casa. Eu, porque falo baixo para não me ouvir, saí. Hoje não é um dia fácil de viver. Fui tomar banho e perdi-me. Há dias em que sinto a alma escorrer pelo ralo juntamente com o suor do dia que passou. Outros, encontro figuras estranhas no corredor do duche e falamos durante horas. Falo-lhes das coisas que acontecem para além do duche, da vida que corre lá fora. Elas, falam do mundo que vive por baixo desta vida. Não é assim tão diferente. Acabou a água quente, isto das caldeiras tem vantagens e desvantagens.
Saio do duche e entro num quarto. Não o conheço mas sei exactamente o que está por detrás de cada porta. Na porta da direita camisas e calças, na da esquerda roupa interior. A roupa mais quente está mais perto da porta da rua. Foi tudo pensado. Só não sei onde raio estou. Reconheço este sentimento. Tem-me acompanhado há muito sem que me apercebesse que cada vez que saía do banho entrava numa história diferente. Uma alice no país das maravilhas com um enredo sempre diferente e imprevísivel. Sempre imaginei uma Alice ruiva, trintona, de roupa sexy e olhar maroto, perseguida pela rainha de copas por ciumes. " Cortem a cabeça a esta Alice que desperta tanto desejo! Off with her head! ". O desejo faz-nos dizer e fazer coisas estranhas. A ausência dele também.
Tenho vontade de andar descalça em cima do chão quente. De me sentar na varanda e olhar as luzes ao longe, de ouvir o barulho do cacilheiro, de deitar a cabeça no teu colo e deixar que me acaricies o cabelo, de te ouvir dizer " está tudo bem". De todas as coisas do mundo a que mais sinto falta é esta.
Os gatos descobriram a essência da vida. Para eles a facilidade ou não da vida resume-se a encontrar um lugar ao sol, onde se possam aconchegar e dormir umas quantas horas. Se tiverem comida e água à disposição, mais umas festas no momento adequado, a vida é perfeita assim. Passo muito tempo a observá-los, aos gatos. Fico sempre à espera que, entre bocejos, me consigam passar um código secreto de acesso à forma de estar felina. Tenho aprendido alguns truques com eles. Bocejo muito mais e durmo muito. Aprecio as festas que me querem fazer mas selecciono melhor os momentos. São os sutras felinos e vai-se tornando mais fácil viver.
Estar vivo é fácil, viver é que é díficil. É fácil respirar o suficiente para nos mantermos vivos, não é fácil inspirar o ar necessário a sentirmo-nos vivos. Não é fácil e não o sabemos fazer. Respiramos apenas o necessário para continuarmos vivos. Houve momentos em que senti a respiração falhar. Mas também não é fácil deixar de respirar. Viver não é fácil mas morrer também não. Com os gatos aprendi a bocejar mais, a respirar mais profundamente, a encontrar um lugar ao sol, a deixar-me aconchegar. Aconchega-me só mais um pouco. Quero mergulhar de mãos dadas contigo num rio calmo e de águas mornas, atravessarmos até ao outro lado sem respirar para vermos até onde conseguimos ir os dois. Podemos despir-nos e deixar as roupas enxugar ao sol. Dormimos um pouco entretanto, encosto a minha cabeça no teu peito e dizes-me que vai ficar tudo bem. Que há dias em que é mais fácil viver.

Terça-feira, 24 de Março de 2009

Ponto de encontro

Acordei com a tua falta nos meus braços. Ouvia-te ao longe mas tinha o corpo entorpecido de tantas horas de cama, não me deixava mexer. De manhã sigo-te pela casa entre o dormir e o acordado e lá vem o momento em que me dizes que vais embora. Todos os dias são dias de despedida. Todos os dias vejo-te chegar com o peso de teres partido.
Abraço-te como quem não quer deixar-te ir. Entrelaço as minhas mãos nas tuas pernas e não largo. E tu vais. - Vou-me embora, dizes. Fico deitada num quente azedo de sensações.
Vens e vais, entre os dias que passam sem nos deixar respirar fundo. Eu vou e venho sem encontrar o lugar de onde parti. Como se explica o que sentimos, não sei. Mas, se calhar, também não é preciso explicar. Se calhar, há coisas que vivemos simplesmente porque são nossas, nem que seja por uns momentos de vida. De manhã cheiras a maçã salpicada de chuva, de tarde a terra acabada de regar, de noite a sonhos com uma pitada de canela. São estes os cheiros que me deixas, são estas as sensações que ficam comigo na cama sempre que te vais.
Porque será tão díficil abraçar-te sempre? Porque será que nem sempre conseguimos dizer as coisas que queremos? Hoje tinhas uma cor diferente. Queria colorir-te só um pouco, talvez pintar-te o nariz de verde. Queria dizer como te vejo em cores mas tinha os olhos desfocados e só consegui agarrar-me às tuas pernas. Vou-me entrelaçar em ti quando chegares.
Tu não sabes mas olho-te muitas vezes enquanto dormes. Tu não sabes mas digo-te coisas enquanto estás adormecido. Por vezes, mexes-te entre as minhas frases como se as sentisses ou adivinhasses que te quero segredar algo. Outras, acordas e eu finjo que estou a dormir. São estes os nossos momentos de desencontro, entre o acordar e o adormecer, entre as coisas que dizemos sem serem ouvidas ou as que ouvimos sem terem sido ditas.
Estavas sentado na cama, a ler para chamar o sono. Olhei e vi -te num outro tempo, mais à frente, mais velho, a ler para encontrar o sono. E eu, eu também estava ali, deitada a ver-te ler. Percebes que olho para ti e perguntas: - Que se passa? Nada, respondo a sorrir. Não se passa nada. E não te digo que sei o momento exacto em que decidi amar-te.