quarta-feira, 4 de agosto de 2010

De volta

Estou de volta.
Não que tenha terminado a re-construção, pelo contrário, mas porque esperar por ela implicaria não voltar aqui tão cedo.
Este tempo fez-me perceber o quão difícil é re-construir mas, mais do que isso, mostrou-me que não se pode re-construir antes de demolir e é, exactamente, nessa fase que ainda estou. Digo ainda, mas sem a sensação de estar atrasada para apanhar o comboio, é apenas um apontamento cartográfico de onde estou. Como se tivesse na mão um daqueles mapas cartográficos que parecem nunca mais terminar e conseguísse desenhar um círculo no ponto exacto onde estou.
Estou aqui.

domingo, 1 de novembro de 2009


Esta pessoa encontra-se em ( re) construção.



( não ) Prometemos ser breves.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Sobre o livro que contava histórias sem embalar

Hoje abri um livro e não te encontrei. Era o mesmo livro de sempre, a mesma capa empoeirada e gasta que via todos os dias quando descia as escadas ainda ensonada. O ritual era o mesmo, fazer café e juntar algo mais para poder chamar-lhe pequeno almoço. Sento-me no sofá, tabuleiro no colo, e vou absorvendo a sensação de estar mais acordada do que a dormir. Um gole de café, uma dentada num pão com manteiga e mais um gole de café. Olho em frente, na prateleira o mesmo livro de sempre, a mesma capa empoeirada e gasta. Tomo o café até ao fim, levanto-me e passo a mão pelo livro em tom de carícia. Pego nele e cheiro-o, fecho os olhos e levo-me para onde as minhas sensações me transportam. Cheira a velho, a passado. Gosto dele por isso mesmo, porque me traz pequenos bocados de coisas que me deixaram, que não estão comigo quando saboreio o meu café, sentada no sofá. Abri o livro, um arrepio percorre-me a espinha e o meu corpo gela da raiz dos cabelos à ponta do dedo maior dos pés. Não estavas lá. Abri o livro e não te encontrei. Procurei página após pagina, linha após linha e não estavas lá. Sentei-me, novamente no sofá, e o meu corpo rígido segura o livro aberto entre os joelhos trémulos. Num repente, fecho o livro com um gesto de força bruta que me faz tremer os ossos. Fecho e abro novamente as mesmas páginas, uma atrás da outra, mais e mais rápido. Estás aqui, estás aqui, sei que estás aqui algures! Tens que estar aqui.... tenho que te encontrar... não te posso ter perdido...
Sem expressão, continuo sentada com o livro nas pernas, fecho os olhos, inspiro um travo de ar e vou para outro lugar. Estou numa casa barulhenta, há crianças a correr de um lado para o outro e as paredes são cor-de-rosa a esconder um verde garrafa antigo cheio de histórias. Ouço a chuva lá fora e num canto um velho aquecedor faz o seu melhor por enxugar a roupa que se molhou de manhã ao voltar da escola. Tem que secar a tempo de voltar para as aulas da tarde. " - O almoço está pronto, meninos, venham para a mesa!
- Que é o almoço hoje? estou cheia de fomeee!
- Sopa de santa teresinha. Vá, sentem-se e comam senão vão chegar tarde às aulas.
- Ohhhhh, outra vez?! Não gosto desta sopa!!!
- Olhem que há muitos meninos que não têm nada na mesa para comer, vá, comam a sopa e despachem-se. Vou ver se a tua roupa já enchugou para não teres que faltar de tarde às aulas."
Abro os olhos, volto ao sofá. Não vejo o livro, olho novamente e encontro-o caído no chão ao meu lado. Seguro-o nas mãos e lembro-me que não estavas no sonho. Não eras tu que colocavas as roupas no aquecedor. Tento encontrar-te num outro momento mas é tudo tão cinzento. Não consigo encontrar-te. Não te encontro no livro de capa gasta, não te encontro no tempo que me trouxe até aqui, não te encontro em mim, nem em ti, nem naquele pequeno momento de tempo em que fui um pedaço de ti. Não sei como te encontrar porque nunca soube onde estavas.
Guardei o livro porque me fazia sentir que estavas aqui. Nele vivia histórias onde te encontrava, onde me aconchegavas à noite e me dizias que não precisava ter medo do escuro, que não existia o bicho-papão e que te podia chamar se sentisse medo, que estavas já ali ao lado. A porta do quarto ficava entre aberta e podia ouvir o barulho da televisão e das conversas de serão na sala. Adormecia e sentia que tinha o mundo. Guardei o livro porque não te queria deixar ir, mesmo sem nunca aqui teres estado.
Pelo caminho, tropecei, caí, levantei-me, chorei, gritei, dormi e acordei. Acordei hoje, nesta sala, sentada neste sofá e nos intervalos dos goles de um café amargo e fraco abri um livro e não te encontrei. Não te encontrei a ti porque foi a mim que me encontrei nele. Nesta casa, neste sofá, nesta vida que entra pela janela e me faz sentir amada e com vontade de amar. Que me faz querer abrir os braços e deixar que me levem sem perguntar onde vamos. Que me faz querer deixar-te ir e que contigo leves tudo o que não tiveste para me dar mas que guardei num livro que carreguei comigo em todos os lugares onde fui mas não estive.
Sigo sem ti, mas agora comigo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Reflexos

No silêncio dos teus olhos procuro a vontade para agarrar o mundo.
Vejo-te, num reflexo ténue, numa mancha que desaparece quando estico a mão para te agarrar. A vida é feita de manchas e de mãos que envelhecem a tentar alcançar o que temos cá dentro. Estamos cheios, cheios de coisas que nos correm nas veias e se espalham à procura da porta de saída. Coisas que nos dão forma e nos fazem ser quem somos, coisas que carregamos connosco onde quer que vamos, coisas que queríamos poder arrancar de nós à dentada e cuspí-las, com força, para muito longe.
Quem és tu? Que trazes contigo quando chegas sem avisar e passas os teus braços pela minha cintura? Eu sou feita de bocados de terra seca que o vento atira em todas as direcções. A mesma terra que pisas onde quer que vás, a terra que serviu de ventre ao que te alimenta e que sustenta o sopro de todas as batalhas que travas, vestido de lança e armadura amolgada.
Eu sou o mesmo que tu mas há dias em que corres montanha abaixo pronto para me trespassar, para me fazer sangrar. E sangro, sangro, sangro e sangro e é sangue que procuras quando olhas para o meu corpo sem nele conseguires encontrar-te, encontrar-me. Somos o mesmo mas em momentos diferentes. Como se uma parte de de mim vivesse de noite e morrese ao amanhecer, quando vives tu. Como se o mesmo momento falhasse em nos aproximar o suficiente e o teu reflexo o que restasse todas as manhãs.
E todos os dias fazemos a mesma promessa; encontramo-nos aqui mais logo. Espero por ti.

sábado, 8 de agosto de 2009

Palavras do acaso

Obrigada, por me lembrares destas palavras:

"Chegaste. Eu não te esperava. Contigo trouxeste a ternura, o desejo e, mais tarde, o medo. Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo. Em casa, no meu quarto, neste quarto, revi os teus olhos na memória, a ternura, o desejo. E, depois, aquilo que eu sabia, o medo. E passou tempo. Eu e tu sentimos esse tempo a passar mas, quando nos encontrámos de novo, soubemos que não nos tínhamos separado.
...

Sentados sobre as camas de ferro dos seus quartos, lembraram-se:encontrámo-nos. Naquele dia, perante a imagem verdadeira um do outro, sentiram: encontramo-nos.No rosto dele, a esperança. No rosto dela, mais do que a esperança. Encontramo-nos. Encontrámo-nos. Encontraram-se. Foi ele que caminhou a distância pequena que ainda os separava. Foi ele que estendeu os braços. Ela baixou o olhar entre o seu corpo imóvel e a terra. Os braços dele sem uso. As palavras formaram-se dentro dela. As palavras aproximaram-se dos seus lábios. No silêncio, entre os seus rostos, as palavras existiram e foram um eclipse."

Antídoto - José Luís Peixoto

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Crónicas de Laura

Era um fim de tarde igual a qualquer outro. Laura caminhava pela rua, de cabeça baixa, embrenhada no turbilhão de pensamentos que a atropelavam.
O céu estava limpo, de azul pincelado a branco, e corria uma brisa fresca que a fazia cruzar os braços numa tentativa de se aconchegar em si mesma. Mais à frente, tropeça numa pedra que já tinha sido chutada por uma dezena de pessoas, sente uma dor agonizante no tornozelo e pára. Encosta-se à parede do prédio por onde passava e tenta apoiar-se. Depois, senta-se no degrau da entrada do prédio, pressiona o tornozelo com força para tentar disfarçar a dor e, enquanto massaja a zona dorida, pensa que tem de ir ao supermercado porque o frigorífico de casa está vazio. Voltar para casa tinha para Laura este significado de electrodoméstico vazio, este sentimento de abandono generalizado. Tenta voltar a levantar-se, coloca o pé novamente no chão. Doi, mas precisa do pé para chegar a casa. Aos pulos, entre um aliviar do pé magoado e uns suspiros de entrega desistente, chega ao seu apartamento. Acende as luzes e olha em redor na esperança de encontrar algo diferente do dia anterior. Sabe o exacto local de cada coisa mas encontrar algo fora do sítio trazia-lhe uma sensação de companhia. Por vezes, trocava os sítios às coisas ou deixava roupa espalhada pelo chão para que ao acordar pudesse, por segundos, sentir que mais alguém estivera ali. Levantar-se e reclamar pelas coisas fora do sítio mantinha-a sã e acompanhada. Laura sabia que estava só mas não tinha que viver como se estivesse.
Na mesa do pequeno almoço colocava sempre duas chávenas para café, vários pães e bolo à descrição. Vivia com o pensamento de que alguém poderia chegar nesse exacto momento e era melhor prevenir do que remediar. Não existe coisa pior do que um pequeno-almoço remediado, um café requentado ou pão com uns dias de atraso. Laura estava sempre pronta a receber quem pudesse estar para chegar. A casa era grande, maior do que precisaria vivendo sozinha. Mas havia sempre a hipótese de algum amigo precisar de ficar por lá ou, quem sabe, um destes dia a mãe poderia decidir-se a visitá-la. Havia sempre um quarto preparado para a possível vinda de alguém.
Laura desloca-se em direcção ao frigorífico vazio em busca de gelo que lhe acalme a dor, abre-o e descobre que sobraram uns restos do jantar de há 3 dias. O cheiro não está do melhor mas não cheirando totalmente a comida estragada talvez ainda se possa aproveitar. Com o pé dorido a ida ao supermercado ficou, mais uma vez, adiada. Senta-se no sofá, com o tabuleiro de comida duvidosa no colo, liga o rádio e sintoniza o canal que costuma ouvir. São músicas antigas mas, de uma forma estranha e quase desesperada, as memórias trazem-lhe um sentimento de companhia. Laura adormece no sofá. Ao lado, no chão, uma colónia de formigas vem visitar o tabuleiro com os restos do resto da comida de há 3 dias. Nada se perde, tudo se transforma.
É noite escura e Laura é acordada pela dor do pé que torceu e da posição em que adormeceu no sofá. Do rádio, só se ouve agora um som de chuva seca que se espalha por toda a sala. É tarde. A viagem do sofá até à cama, que fica do lado oposto da casa, é feita ao pé coxinho e com a ajuda da parede. Os lençois estão frios, Laura enrosca-se numa posição confortável e pensa que uma boa noite de sono ajudará a recuperar o tornozelo ferido e a sensação de imensidão que encontra diariamente na cama tamanho XL que comprou por poder vir a ser precisa um dia, mais tarde, quem sabe.
Na manhã seguinte, o despertador antigo que tem em cima da mesinha de cabeceira toca de forma desconcertada, como se lhe faltasse força para soar alto, a pulmões abertos. Laura não se incomodava com o desconcerto do som que a acordava todas as manhãs, ao contrário, reconhecia nele uma proximidade acolhedora. Quando alguém a confrontava com o seu aspecto desgastado, argumentava: "mas é natural sentir cansaço, perder a voz e as forças de vez em quando, no final de contas, até um aparelho mecânico se cansa com o passar dos dias." A custo, porque a noite não apagou nenhuma das suas dores, prepara-se para sair e enfrentar mais umas horas de uma vida que não reconhece como sua, populada de pessoas sem cara, de vozes desconectas e confusas. Frequentemente, tinha dificuldade em reconhecer a linguagem que as pessoas usavam quando a abordavam. Na maioria das vezes, alguns minutos depois e com uma quantidade considerável de esforço, lá ia decifrando o essencial, o básico e indispensável. Na verdade, assim era a vida de Laura, básica e limitada ao necessário para continuar a funcionar. Não tinha amigos, ainda que mantivesse um quarto na hipótese de um amigo poder vir a necessitar dele. A família tinha-a esquecido fazia já muito tempo, mas continuava a esperar a visita da mãe a qualquer momento. Esquecia-se de comer e quando o corpo a lembrava encontrava o frigorífico vazio e o supermercado fechado. Tomava banho quando percebia que as mesmas pessoas cuja linguagem não entendia, torciam o nariz e voltavam a cara ao falar com ela.
Sem se aperceber, sem conseguir identificar quando nem porquê, Laura tinha-se desconectado do mundo. Por vezes, entre um e outro piscar de olhos, sentia que estava longe, distante, desligada. Percebia que se tinha deixado ir. Nesses momentos, chegava mesmo a ouvir a campainha da porta tocar. Mas esses eram também os momentos em que sentia o corpo dorido e triste por uma vida de abandono e solidão. Então, deixava-se novamente ir e voltava para o único lugar onde sabia estar em segurança, aquele cujo caminho ninguém mais conhecia, aquele de onde ela própria não sabia voltar.