E então, quando vem a noite as pedras da calçada correm sem destino. As vidraças dos prédios reflectem a imagem esbatida do mendigo de pele gasta e sem idade. Uma rua que sobe em direcção ao céu cinzento e desenha uma núvem em forma de porta que nos convida a entrar. Do lado de lá da porta, nada. O vazio. A solidão dos dias que nascem, uns atrás dos outros, sempre como esperado.
São muitas as portas, muitos os céus, mas a mesma cor, o mesmo vazio e a mesma ordem.
A rosa não tem forma. As pétalas não têm forma nem cheiro. É a dor alucinante de não saber quem se é. O vulto sombrio no final da rua acena e deixa as memórias de uma vida estilhaçada. Sente frio nos pés, está descalça e os seus pés sangram dos pedaços de vidro de tantas vidas. A cada passo mais e mais memórias entranham-se na carne e maior é a dor, a dor de não saber que pedaços são seus.
O peito explode e de dentro dele saem mil almas aprisionadas, contorcendo-se numa dança de fogo e vento. Ao longe, uma mulher de olhar sereno contempla o rio e lembra uma outra vida.
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