quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

As minhas pessoas

Um destes dias a Mécia, a propósito já nem sei de quê, virou-se para mim e perguntou-me:" Oh, Carla, como é que tu chamas às pessoas que têm consultas contigo? paciente, clientes..?" Pois, respondi eu, não sei... Acho que são as "minhas pessoas"...
O termo paciente lembra-me doença, mas daquelas que criam um abismo imenso entre duas pessoas e transmite a sensação sonora que uma delas nunca adoece, é imune a qualquer doença. O cliente, pior um pouco. Não se criam laços, alguns profundos, com clientes...
É, acho que são mesmo as "minhas pessoas".
Deixem-me esclarecer, desde já, que o termo "minhas" em nada se assemelha ao que utilizei no texto " o meu lada do sofá". Ao contrário do meu pedaço de sofá, estas pessoas partilham o seu espaço, os seus sentimentos, os seus sorrisos e tristezas com outras pessoas para além de mim. O meu lado do sofá, não. É só meu. Estas pessoas não são minhas, ou pelo menos não são só minhas. Mas gosto de as chamar assim.
Há algum tempo que me apetece escrever sobre elas, mas tenho sempre tanto para dizer que nunca sei por onde começar. Penso sempre se elas saberão a forma como afectam a minha vida. Como servem tantas vezes de espelho para os meus próprios processos, como vivo e sinto as várias fases por que passam, como vibro com as suas alegrias ou com as tristezas. Penso, se terão ideia do número de vezes que encontro eu própria os meus caminhos quando converso com elas, se entenderão a extensão da sua importância na minha evolução pessoal.
Ontem li um texto sobre mim no blog pessoal de uma destas pessoas. Entendi a importância que os nossos encontros tinham para esta pessoa, não sei se ela terá entendido a importância que têm para mim. Pensei deixar um comentário no seu blog, não deixei. Não por falta do que dizer, muito pelo contrário, mas porque o que tinha para lhe dizer não era tanto em relação ao que tinha escrito sobre mim, mas muito mais em relação ao que queria escrever sobre ela.
Entendi, porque o disse de forma explicita, que me tinha tornado num ponto de luz na sua vida. Fico feliz. Não por mim, nem pelos comentários simpáticos que fazem parte da sua forma de estar, mas porque não teria sido possível eu tornar-me num ponto de luz da sua vida sem, de alguma forma, ela própria também se ter tornado num dos meus. Esta será, certamente, uma daquelas frases que ela irá guardar para mais tarde analisar e procurar entender. A seu tempo a entenderá, tal como a seu tempo se reencontrará definitivamente consigo própria. Eu encontrei-a desde o primeiro minuto, da primeira palavra. Não a pessoa que cruzou a primeira vez a porta do consultório, mas a que saiu, sim, porque eram diferentes. Mais tarde, vi uma foto sua de criança e pensei, era ela, é ela.
Não posso, por motivos vários, dizer-lhe agora todas as coisas que tenho para dizer. É preciso tempo, é preciso deixar o tempo fazer o seu trabalho, é preciso saber aceitar que o tempo tem o seu próprio tempo e aprender a fluir com ele, com a vida.
Mas posso e quero muito dizer-lhe que de todos os pontos de luz da minha vida, há um que é o mais especial e querido de todos eles, e esse sou eu própria. É a minha luz interior que me permite ver o suficiente para detectar outros pontos de luz. Por isso, fiquei feliz por ela ter encontrado em mim um ponto de luz, não por mim, mas por si.
Também, posso e quero dizer-lhe que o universo tem pontos sem nós, sim. Não fosse a tamanha confusão que por aí vamos vendo... O universo não trabalha sózinho nem tem poderes especiais de condecer desejos ou fazer milagres. O grande milagre somos nós próprios, o facto de estarmos vivos e podermos fazer as nossas escolhas que, sejam elas quais forem, são nossas.
Eu escolhi um caminho e os meus pontos de luz vão-me mostrando como esta foi a escolha certa.
São estas as "minhas pessoas".


1 comentário:

Claudia disse...

Foi uma eternidade, o tempo que demorei até poder olhar-me ao espelho e ver aquela miuda. Esse milagre é teu.

Também chamo "minhas" a algumas pessoas, não com um sentimento de posse mas porque, ao deixá-las entrar (em mim), reconheço que uma parte de mim lhes pertence.

Também se diz por aí :"os meus filhos" e, no entanto, os filhos não são nossos. Nós é que somos deles.

Realmente, chamo "meu"
àquilo que me possui.
Clau