quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A minha Lisboa

Ontem estava aqui, sentada no meu cantinho de trabalho, quando ouvi um som que não ouvia há muito tempo.
Durante anos, desde que saí de Lisboa, sentia falta de coisas que não conseguia identificar. Não sabia se das gentes, dos prédios, dos cheiros, mas sabia que algo me fazia falta e me chamava de novo para este local.
Aos poucos, agora que voltei, fui-me apercebendo que coisas eram essas. O que não conseguia explicar naqueles tempos, transformou-se hoje em sons e cheiros com que me cruzo diariamente. Há coisas que só ouvimos, cheiramos, vivemos em Lisboa e só quem cá tem uma parte sua consegue entender.
Ontem ouvi o cantar do amolador, primeiro ao longe, depois foi-se aproximando, e o som era-me tão familiar e reconfortante que senti uma onda de calor percorrer-me o corpo.
São coisas de Lisboa, esta cidade que aprendemos a amar com todas as suas imperfeições.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O pato que tinha uma mente humana

Vou continuando a ler "Um mundo novo" do Eckhart Tolle e não consigo deixar de partilhar algumas pérolas do livro. Deixo-vos mais uma:

"Após uma luta que nunca dura muito tempo, os patos separam-se e flutuam em direcções opostas. Depois, cada pato bate vigorosamente as asas algumas vezes, libertanto assim a energia em excesso acumulada durante a luta. Após baterem as asas, flutuam com serenidade, como se nada tivesse acontecido.
Se o pato tivesse uma mente humana, ele manteria a luta acesa através do pensamento, da criação de histórias. Esta seria provavelmente a história do pato:"Não acredito no que ele acabou de fazer. Ele esteve a dez centímetros de mim. Ele acha que é dono deste lago. Não tem consideração pela minha esfera privada. Nunca mais volto a confiar nele. Para a próxima ele vai tentar outra coisa qualquer só para me arreliar. Tenho a certeza de que já está a preparar alguma. Mas eu não vou permitir isso. Vou dar-lhe uma lição que ele nunca há-de esquecer." E a mente continua ininterruptamente concentrada nas suas fantasias, pensando e falando nisso passados dias, meses ou até anos. No que diz respeito ao corpo, a luta ainda continua, e a energia gerada por ele em resposta a todos estes pensamentos é a emoção, que, por sua vez gera mais pensamentos. Isto transforma-se no pensamento emocional do ego. É fácil imaginar como a vida do pato seria problemática se ele tivesse uma mente humana. Porém, é assim que a maior parte dos seres humanos vive. As situações ou acontecimentos nunca chegam realmente a ter um fim. A mente e a sua maquinação de "eu e a minha história" continuam a alimentá-los.
Nós somos uma espécie que se perdeu no caminho. Tudo o que faz parte da Natureza, todas as flores, árvores e animais têm lições importantes a ensinar-nos, se pararmos para os ver e ouvir.
A lição que o nosso pato nos deu é esta: bate as tuas asas - o que se traduz por abandona a tua história - e regressa ao único sítio do poder: o momento presente.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O Paco


O Paco é um cão, um dos muitos animais que se cruzou comigo. Foi, sem sombra de dúvida, o animal mais traumatizado que até hoje encontrei e foram muitos, acreditem.
As fotos do Paco chegaram até mim por e-mail enviado por amiga sempre preocupada com o imenso problema dos animais abandonados e da sua adopção. O Paco tinha sido abandonado com 2 meses numa praia, dentro de uma gruta e lá tinha permanecido até ser encontrado. O que vem a seguir não foi muito melhor. Foi levado para uma instituição que não vou referir o nome e, devido à sua pouca idade e ao facto de não poder estar com os outros animais mais velhos, viveu 2 meses literalmente fechado numa casa de banho. O único contacto que tinha com alguém acontecia no momento de uma porta se abrir para lhe ser dada comida, água e limpar o local onde fazia as suas necessidades. Tornou-se um cão completamente anti-social para quem o contacto com o mundo exterior à casa de banho era motivo de pânico.
Uns dias depois de ter recebido as fotos por e-mail, alguém me falou que queria adoptar um cão e lembrei-me automaticamente do Paco. Não sabia, porque não me era possível imaginar, o nível de trauma que o Paco tinha desenvolvido. Falei com a pessoa e desloquei-me até à tal instituição para ver o Paco, tirar algumas fotos e enviar para o futuro "pai de adopção". O primeiro encontro com o Paco foi um drama, do mais puro. O facto de o tirarem do seu universo, diga-se casa de banho, fez com entrasse em estado de choque, fez xixi pelas pernas abaixo, tremia incessantemente e o seu coração parecia que ia saltar do peito. O terror e o pânico que vi nos seus olhos não se esquece facilmente. Por motivos que entenderão, o Paco não ficou mais um dia nesse local e trouxe-o comigo para casa.
Trabalhava em casa nessa altura o que me deu algum espaço para estar com ele e permitir-lhe o contacto com seres humanos, gatos e outros locais que não casas de banho. No momento que entrámos em casa, a primeira coisa que fez foi procurar a casa de banho e esconder-se onde conseguiu. Era o que conhecia, não conhecia nada mais. Não o pressionámos, deixámos que ficasse onde queria, como queria e quando queria. Saiu até ao corredor quando quis, chegou até à porta da sala quando sentiu que o conseguia fazer, deixou-nos fazer-lhe festas quando esteve preparado e saltou para cima do sofá de famíla no seu momento. Com o passar do tempo, meses, integrou-se na família, como podem ver na foto em cima, e o universo dele tornou-se mais abrangente.
Infelizmente, chegou um momento em que tive que começar a sair de casa para trabalhar e foi um novo drama. O Paco já não estava habituado a passar o dia sem mim e começou a roer tudo o que encontrava. Desde móveis, a rodapés, até às ombreiras das portas... e passou a ter que viver num corredor e na cozinha porque todas as outras portas tinham que permanecer fechadas. Foi um tempo díficil para ele e para mim que o imaginava sem espaço e em stress.
Um fim de semana fomos a Tábua, a casa dos pais do Humberto, e levámos o Paco. Era um novo mundo para ele mas desta feita um mundo que lhe permitia sentir-se livre como ainda não tinha tido hipótese de experenciar. O terreno da casa permitia-lhe saltar, correr atrás dos pássaros e interagir com os outros animais que por lá habitam; gatos, galinhas, etc. O Paco estava feliz e vê-lo daquela forma encheu-me o coração.
Os pais do Humberto tinham tido um desgosto com o último cão que tiveram e, até àquele fim de semana, tinham sempre dito que não queriam mais nenhum cão, não queriam mais desgostos. Mas, a mãe do Humberto não resistiu ao charme natural do Paco, apesar de ele manter a sua distância e naquela altura ainda não a deixar chegar perto, e propôs-nos que o deixássemos ficar com eles. A minha primeira reacção foi negativa. Não queria deixá-lo. Estava demasiado ligada a ele e vice-versa. Passou a noite, dormi sobre o assunto e no dia seguinte, pelo meio duma das suas investidas em perseguição de um pássaro que por lá andava, percebi que não o conseguia deixar ficar por egoismo. Voltando connosco, não conseguiria ter o que ali vivia. Trocava o espaço de ser livre e feliz por um corredor escuro e sózinho. O amor que tenho por ele conseguiu sobrepôr-se ao sofrimento de ter que lidar com a sua ausência física. O Paco fica, decidi.
Hoje, quando o vejo por lá a correr e conviver com os outros cães, a acompanhar as pessoas da vila nas suas caminhadas nocturnas, habituado às rotinas do campo, etc, o meu coração sabe que fez a melhor escolha mas, no momento de deixá-lo, foi díficil não sentir a tristeza da ausência, foi díficil para mim e incompreensível para ele. O Paco não entendeu, naquela altura, porque não vinha connosco, porque o tínhamos deixado para trás. Sentiu-se abandonado. Sentiu-se traído pelas únicas duas pessoas em quem tinha confiado. Sentiu que o mundo o traíra mais uma vez. Isolou-se, não comia, não deixava ninguém aproximar-se e vivia escondido. Sofreu porque não entendeu. Eu entendi, mas nem por isso deixei de sofrer.
Passou mais de um ano desde que se passou este episódio. Vamos a tábua com alguma frequência visitá-lo, estar com ele e presenciar a sua felicidade. Hoje o Paco não quer vir connosco. Se abrirmos a bagageira do carro e o chamarmos ele anda na direcção oposta e lança-nos um olhar claro de "nem pensar!". Contínuamos a ser aquelas duas pessoas em quem confia, que salta e chora de alegria de nos ver mas não quer o corredor escuro e sózinho. Entendeu, encontrou-se, encontrou a sua nova vida, o seu novo eu, a sua felicidade.
Contei esta história hoje aqui porque é, para mim, um claro exemplo dos momentos em que não entendêmos algumas das coisas que nos acontecem e sofremos com elas. Mas, por vezes, deixar alguém ir não é sinónimo de frieza ou ausência de amor, pelo contrário, há momentos em que por amarmos muito temos que deixar alguém ir e encontrar-se a si mesmo num outro lugar e num outro tempo. Há momentos em que o que nos parece desinteresse e abandono nada mais é do que uma prova imensa de amor ao mais profundo dos níveis que este pode atingir. O amor de lidarmos com as nossas fraquezas e inseguranças, com o que nos faz sofrer, em prol da felicidade de outro ser.
Dedico este texto ao meu querido Paco e a todos que, em algum momento, se tenham sentido abandonados de uma forma que não entendem mas que, a seu tempo, encontrarão o caminho para si mesmos e a verdadeira felicidade.

Um novo mundo

Estou a ler um livro do Eckhart Tolle, o título é " Um novo mundo". Eckhart Tolle é um escritor iluminado, um ser humano especial que mostra fortes indícios de genialidade. Não uma genialidade forçada mas um comunicador nato com uma mensagem clara e perceptível a todos. Depois do "Poder do Agora", que nos mostrou a importância de "estar" e "ser" agora, chega-nos este "novo mundo" que mal comecei a ler mas já me deixa inspirada e encantada. Não posso deixar de partilhar convosco algumas palavras deste livro inspirador que espero faça parte das escolhas literárias de todos.

"O florescimento da consciência humana -

Estamos no planeta Terra há 114 milhões de anos, minutos após o amanhecer: a primeira flor a aparecer no planeta desabrocha para acolher os raios de sol. Antes deste acontecimento tão marcante, que representa uma evolução revolucionária na vida das plantas, o planeta já se encontrava coberto de vegetação há milhões de anos. A primeira flor provavelmente não sobreviveu muito tempo, e as flores devem ter permanecido fenómenos raros e isolados, uma vez que as condições ainda não deviam ser favoráveis à ocorrência de um florescimento mais amplo. Um dia, porém, foi atingido um limiar crítico e, de súbito, deve ter-se dado uma explosão de cores e fragrâncias por todo o planeta - se houvesse uma consciência perceptível presente para a testemunhar.
Muito mais tarde, estas criaturas delicadas e perfumadas a que chamamos flores iriam desempenhar um papel crucial na evolução da consciência de outra espécie. Os seres humanos foram-se sentindo cada vez mais atraídos e fascinados por elas. À medida que a sua consciência se desenvolvia, as flores devem ter sido a primeira coisa sem fins utilitários a ser apreciada pelos seres humanos, isto é, sem estar relacionada com a sua sobrevivência. Tornaram-se fonte de inspiração para inúmeros artistas, poetas e místicos. Jesus diz-nos para contemplar as flores e aprender com elas a viver. Diz-se que Buda deu uma vez um "sermão em silêncio", durante o qual pegou numa flor e a contemplou. Algum tempo depois, um dos presentes, um monge chamado Mahakasyapa, começou a sorrir. Diz-se que foi ele o único a compreender o sermão. Segundo reza a lenda, este sorriso ( ou seja, esta compreensão ) foi transmitida sucessivamente por 28 mestres e, muito mais tarde, tornou-se a origem do zen.
Ver a beleza duma flor conseguia despertar os seres humanos, mesmo que por um breve momento, para a beleza que faz parte integrante da sua essência mais profunda, da sua verdadeira natureza. O primeiro reconhecimento da beleza foi um dos acontecimentos mais importantes na evolução da consciência humana. Os sentimentos de alegria e amor estão intrinsecamente relacionados com esse reconhecimento. Sem estarmos totalmente conscientes disso, as flores tornar-se-iam para nós uma expressão corpórea daquilo que é mais elevado, mais sagrado e, em última análise, que não tem forma dentro de nós próprios. As flores, que são mais efémeras, mais etéreas e mais delicadas do que as plantas de onde emergem, tornar-se-iam uma espécie de mensageiras de uma outra dimensão, uma ponte entre o mundo das formas físicas e o mundo sem forma. Não só tinham um aroma delicado e agradável para os seres humanos, como também exalavam uma fragrância do reino do espírito. Se empregarmos a palavra "iluminação" num sentido mais abrangente do que o aceite convencionalmente, podemos olhar para as flores como a iluminação das plantas.
É possível qualquer forma de vida, de qualquer reino - mineral, vegetal, animal ou humano -, passar por uma experiência de "iluminação". Contudo, é um acontecimento muitíssimo raro, pois representa mais do que um progresso evolucionário: também implica uma descontinuidade no seu desenvolvimento, um salto para um nível completamente diferente do Ser e, acima de tudo, um desprendimento da materialidade.
O que pode ser mais pesado e impenetrável do que uma rocha, a mais densa de todas as formas? Não obstante, algumas rochas sofrem uma mudança na sua estrutura molecular, transformam-se em cristais e, por conseguinte, tornam-se transparentes à luz. Alguns carbonos, sob um calor e uma pressão incríveis, transformam-se em diamantes, e alguns minerais pesados noutras pedras preciosas.
A maior parte dos répteis rastejantes, de todas as criaturas as mais ligadas à terra, permaneceu inalterada ao longo de milhões de anos. Porém, a alguns cresceram penas e asas, transformando-os em aves, desafiando assim a força da gravidade que durante tanto tempo os aprisionara. Não desenvolveram novas formas de rastejar ou andar, transcendendo completamente estes tipos de locomoção.
Desde tempos imemoráveis, as flores, os cristais, as pedras preciosas e os pássaros têm ocupado um lugar especial no espírito humano. Como todas as formas de vida, são evidentemente manifestações temporárias da Vida única essencial, da Consciência única. O seu significado especial e a razão pela qual os seres humanos sentiram tamanho fascínio e afinidade por elas podem ser atribuídos à sua natureza etérea.
Quando existe um certo nível de Presença, paz e atenção consciente nas percepções de um ser humano, este é capaz de sentir a essência divina da vida, a consciência única ou o espírito único que habita dentro de todas as criaturas e todas as formas de vida, reconhecendo-a como una com a sua própria essência e sendo, por isso, capaz de a amar como a si próprio. Contudo, até este nível ser atingido, a maior parte dos seres humanos vê apenas as formas exteriores, sem ter consciência da essência interior nem da sua própria essência, identificando-se apenas com a sua própria forma física e psicológica.
Porém, no caso de uma flor, de um cristal, de uma pedra preciosa ou de um pássaro, mesmo um ser humano com pouca ou nenhuma Presença é capaz de sentir ocasionalmente que há mais alguma coisa para além da mera existência física dessa forma, sem saber que este é o motivo pelo qual é atraído por ela e sente uma afinidade com ela. Devido à sua natureza etérea, estas formas ensombram o espírito que habita no nosso interior em menor grau do que outras formas de vida. A excepção a esta regra são todas as formas de vida recém-nascidas - bebés, cachorrinhos, gatinhos, cordeiros e assim por diante. São frágeis, delicadas e ainda não estão firmemente enraízadas na materialidade. Ainda conseguem irradiar uma inocência, uma doçura e uma beleza que não pertencem a este mundo. Até fazem as delícias dos seres humanos relativamente insensíveis.
Quando estamos alertas e contemplamos uma flor, um cristal ou um pássaro sem o rotular mentalmente, este torna-se uma porta de entrada para o mundo sem forma. Existe uma abertura interior, por mais ténue que seja, que dá acesso directo ao reino do espírito. Esta é a razão pela qual estas 3 formas de vida "iluminadas" desempenharam um papel tão importante na evolução da consciência humana desde tempos antigos; esta é a razão pela qual, por exemplo, a jóia na flor de lótus é um dos símbolos fundamentais do Budismo e a pomba branca representa o Espírito Santo no Cristianismo. Estas formas de vida têm estado a preparar terreno para uma mudança mais profunda na consciência planetária destinada a realizar-se na espécie humana. Estamos a começar a testemunhar o despertar espiritual."

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Tchu-tchu


Gosto de comboios, desde sempre. Gosto dos grandes, dos pequenos, de todas as cores e formas. Gosto de imaginar os sons e cheiros de um passeio de comboio. Não pela linha de sintra, onde todas as leis da física são contrariadas e sim, duas coisas conseguem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo, acreditem. Mas um passeio de comboio por entre rios e montanhas é renovador. Pena é, que a beleza dos comboios antigos tenha sido esquecida e se inventem comboios sem magia cujo mote é o simples transporte de pessoas. Toda a gente sabe que os comboios não foram inventados para o transporte mas sim para puro deleite dos que apreciam uma viagem pelos carris deste mundo.
E depois há as pistas de comboio, são estonteantes. Fica-se ali a olhar o comboio a seguir o seu rumo, a deixar para trás árvores, montanhas e tuneis, sim, porque uma pista de comboios sem um túnel não é uma pista de comboios verdadeira, e se fecharmos os olhos estamos em viagem.
Tive uma pista destas em criança e lembro-me que o tempo não passava e que ficava imóvel a ver a magia em acção. E, dentro de uma das carruagens lá ia eu, tchu-tchu, em direcção a um qualquer destino.
Um comboio transporta-nos muito para além dos destinos físicos. Leva-nos numa viagem ao mais profundo de nós próprios, a locais que não sabemos que existem mas que nem por isso deixam de lá estar, à espera de serem encontrados.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Os gorilas da minha bruma

É díficil explicar todas as sensações e sentimentos que por mim passam quando vejo imagens de gorilas. É algo inexplicável. Sempre foi.
Lembro-me da primeira vez que estive perto de um gorila. Infelizmente para ambos, este primeiro contacto aconteceu no jardim zoológico de Lisboa. Tinha pouco mais de 6 anos e lembro-me, como se fosse hoje, da sensação de estar aprisionada e de não conseguir respirar. Era um gorila lindo, enorme, preso numa jaula fria e feia. Permanecia imóvel num canto, desligado do mundo e dos olhos que o olhavam. As outras pessoas foram passando, eu fui ficando. Não conseguia afastar-me, estava hipnotizada. Queria muito soltá-lo e ajudá-lo a fugir daquele lugar horrível. Os seus olhos imóveis e distantes mostravam uma tristeza acomodada e uma revolta silenciosa. Eu, sentia-me literalmente colada ao chão, não conseguia sair dali. Queria entrar na jaula, passar a mão na sua cabeça, dizer-lhe que não estava sózinho. Queria muito abraçá-lo, acariciá-lo, mostrar-lhe que alguém se preocupava com ele. Queria tanto...
O tempo do passeio "supostamente" pedagógico terminou e tive que ir embora. levei comigo uma sensação de abandono e revolta imensos. Sentia que uma parte de mim tinha ficado naquela jaula.
Esta sensação de familiaridade em relação aos gorilas tem-me acompanhado desde sempre.
Anos mais tarde, vi o filme "Gorilas na bruma". Escusado será dizer que foi uma choradeira do início ao fim. Mas estava tudo ali. Todas as minhas sensações de conhecimento profundo em relação aos gorilas, a sua forma de andar, a forma como se relacionam, a forma como se protegem, o seu sentido de comunidade. Estava tudo ali e era-me tão familiar. Sentia-me em casa.
Não sei se terei sido um gorila numa outra vida, mas que sinto tudo o que lhes diz respeito duma forma muito intensa e incompreensível é verdade. E, quando vejo muitas das suas expressões e reacções quase que me consigo imaginar a fazer o mesmo.
Pronto, tenho um gorila dentro de mim. Cuidado comigo!

Uma verdade inconveniente

Duma forma ou de outra já todos ouviram falar no documentário "Uma verdade inconveniente". Ontem, consegui finalmente vê-lo.
Todos ouvimos falar do aquecimento global, da poluíção, do aumento da temperatura, etc, mas parecem histórias sempre tão distantes... Na realidade, não vemos nenhuma dessas consequências no imediato, no dia-a-dia. Abrimos uma torneira de casa e a água corre naturalmente, continuamos a ter calor no verão e frio no inverno e as nossas vidas continuam como se nada as pudesse afectar. Mas até que ponto é que esta não é apenas uma verdade conveniente?
O documentário é, na minha opinião, muito bem construído e documentado. Mais, a linguagem é clara e acessível a todos. Ainda mais, os exemplos são inteligentes ao ponto de nos fazerem achar piada e não virar a cara. Um desses exemplos é demonstrativo da forma como nós, humanos, reagimos ao que nos rodeia e é algo parecido com isto: Imaginem um sapo e um recipiente com água a ferver. Se o sapo saltar para dentro do recipiente e sentir a água imediatamente quente, a sua reacção natural é pular logo para fora e fugir ao calor. Mas, se colocarmos o sapo dentro do recipiente com água ainda tépida e a temperatura for aumentando gradualmente, o sapo vai-se deixando ficar até que tem que ser resgatado. Porquê? porque não vê de imediato o efeito da temperatura no ponto de ebulição e então vai aguentando... Isto é representativo de todos nós. Abrimos uma torneira e a água corre, então de que interessa ouvir falar da falta de água daqui a 50 anos?
Mas façam o teste e olhem para trás. Vejam o documentário, quem ainda não viu. Vejam as fotos de locais com o Kilimanjaro coberto de neve há 40 anos atrás e hoje. Vejam os gráficos que mostram como em 40 anos a espessura da camada de gelo em locais como o Ártico diminuiu 40%. Vejam como, pela primeira vez, se começam a encontrar ursos polares que morrem afogados por nadarem kilómetros sem encontrar uma placa de gelo que consiga suportar o seu peso. Ou, como as temperaturas têm subido nos últimos anos de forma nunca vista ou estudada.
É um facto que todos nós sabemos que isto se passa. Mas até que ponto não o apagamos diariamente das nossas rotinas por ser mais fácil viver sem essa informação.
Eu e a Mécia falámos hoje sobre isto, sobre como é mais fácil viver na ignorância. É mais fácil viver e é mais fácil ser feliz.
Sempre que toco neste assunto lembro-me como a "Alegoria da Caverna", de Platão, é um texto tão actual e um dos maiores exemplos deste comportamento. Também aí, os que viviam na caverna não queriam sair para ver o sol. Não viam o sol, é verdade, não o sentiam na cara, não sentiam o seu calor. Mas também não sabiam o que isso era e, por isso mesmo, não sentiam a sua falta nem conheciam os benefícios. Eram ignorantes, sim, mas eram felizes.
Já sei, já sei. A felicidade é um conceito relativo. Eu sei que é e sei, também, que a informação liberta-nos e dá-nos asas. Mas, tenho que insistir, não é fácil viver com toda esta informação e acordar a sorrir para um novo dia e acreditar que vai tudo correr bem. Não sei se vai correr bem, não tem sido esse o percurso.
A minha opção pessoal tem sido a de querer ver o sol, viver com a informação e procurar divulgá-la o mais possível. Não é fácil, mas nem todos nós conseguimos escolher o outro caminho.
Vejam o documentário e não permitam que a conveniência apague a verdade do planeta em que vivêmos. Está em risco, estamos todos.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O convite

Deixo-vos mais um texto / poema muito especial. Um dos meus favoritos de sempre... Espero que gostem.

"Não me interessa o que fazes para viver,
Mas quero saber das tuas mágoas...
e se ousas sonhar em ir ao encontro
das necessidades do teu coração...

Não me interessa a tua idade,
Mas quero saber se te arriscas a parecer louco por amor,
Pelos teus sonhos, pela aventura de estar vivo!

Não me interessa saber que planetas tens em quadratura com a lua!

Quero saber se já tocaste no centro da tua própria dor,
se te abriste com as traições de vida ou
se definhaste e te enclausuraste,
com medo de futuras dores...

Quero saber se consegues aquietar-te na dor,
a minha ou a tua própria,
sem a tentares esconder,
diminuir ou prender...

Quero saber se podes lidar com a alegria, minha ou tua,
se te permites dançar loucamente
e deixar o êxtase preencher-te,
até á ponta do dedo grande do pé,
sem que nos lembres para termos cuidado,
sermos realistas, ou nos chamares a atenção
para as limitações do ser humano...

Não me interessa se a história que me contas é verdade;

Eu quero é saber se admites desapontar o outro,
para seres verdadeiro contigo mesmo.
E se aguentas a acusação de traição
sem traíres a tua própria alma.

Quero saber se sabes ser fiel e portanto digno de confiança,
E se és capaz de ver o belo mesmo que o dia não esteja bonito...

Quero saber se ancoras a tua vida na Fonte da Presença de Deus.

Se consegues viver com um fracasso, meu ou teu,
E parar na beira de um lago
e gritar á Lua Cheia prateada, no céu Sim "!

Não me interessa saber onde vives ou quanto dinheiro tens,
Só me interessa saber se a seguir a uma noite de dor
e desespero te levantas cansado até aos ossos,
e fazes o que tem de ser feito
pelas, crianças...

Não me interessa quem és, nem como chegaste até aqui...
Quero saber se aguentas ficar comigo
no centro da fogueira sem fugires...

Não me interessa onde, o quê ou com quem estudaste.
Eu quero saber o que é que te sustenta do interior
quando tudo o resto se desintegra.

Eu quero saber se és capaz de ficar só contigo próprio,
e se gostas verdadeiramente da companhia
que fazes a ti mesmo, nos momentos de solidão."

Oriah Mountain Dreamer